Vozes múltiplas, histórias singulares
Artesanato

Ana Maria, o legado de uma artesã tecido com orgulho

“Sou nascida aqui no Pantano mesmo, sempre morei aqui. Desde criança gostava de artesanato. Quando via minha mãe costurando, eu pegava os retalhinhos e montava roupinha de boneca. Mais tarde, com uma professora do primário, aprendia fazer sapatinhos de bebê. Cresci vendo minha mãe trabalhar no tear, gostava de ajudá-la. Depois aprendi com ela também a fazer as cobertas de retalho; recortava os tecidos para confeccionar estas mantas.

Quando completei 20 anos, fui trabalhar no posto de saúde daqui do nosso distrito, mas sempre procurava participar de cursos de artesanato. Aprendi bastante nesses cursos, mas minha mãe foi a minha grande mestra. Ela foi a peça principal nomeu aprendizado.

Aprendi com ela algumas técnicas antigas, como o tingimento da lã. As tintas que nós usávamos eram extraídas de plantas do campo. Para dar o tom de amarelo, a gente usava a laranjinha do campo; para o tom de azul, usava o anil; e o roxo vinha da casca do ipê. As folhas eram fervidas e deixadas de molho por alguns dias. Eram cores que ficavam firmes mesmo. As lãs podiam ser lavadas várias vezes que não desbotavam. Esta técnica minha mãe já aprendeu com a mãe dela; foi passada de geração a geração.

Minha mãe gosta tanto do que faz que uma vez ficou aborrecida quando viu uma colcha de tear sua transformada em tapete.”

Os novos aprendizes

“Tenho sobrinhas em São Paulo que sabem fazer o ponto cruz e fico feliz com isso, porque elas aprenderam comigo. A minha irmã também gosta de artesanato. De vez em quando, ela pinta alguns panos de prato e eu passo o bico de crochê.
Ensinei muitas meninas daqui da comunidade a bordar e fico feliz quando vejo que elas continuam fazendo os bordados até hoje.

A colcha de retalho é toda feita à mão. A gente recorta os tecidos em quadradinhos, monta tudo em cima de um outro tecido grande e passa a costura. Sob orientação da minha mãe, já fiz muitas dessas mantas para vender, mas agora só faço pra nossa casa. Faço alguns bordados também como o ponto cruz, o macramê e o tricô.

Participei de muitos eventos promovidos pela Emater e fiz parte do grupo de artesanato do sul de Minas, fazendo exposições em feiras em São Lourenço e Pouso Alegre, onde expus trabalhos meus e da minha comunidade também, como geleias e licores de morango. Fiz este trabalho de 1992 a 1996 na feirinha da rodoviária. Hoje já não participo tanto, porque montei um pesqueiro aqui do lado da minha casa e tenho me dedicado mais ao meu comércio, que administro junto com meu marido. Mas, às vezes, euainda pego algumas encomendas, quando o trabalho não é muito grande.”

Ana Maria de Oliveira Rosa, 56 anos, mora na zona rural do Pantano São José, distrito de Pouso Alegre. Entrevista concedida em sua residência, em 6 de setembro de 2009