Vozes múltiplas, histórias singulares
Artesanato

Dona Fracinete, a cidade adormecida

“Nasci ali no bairro da Cava, município de Pouso Alegre. Minha mãe era dali, meus avós era dali. E aí depois meu pai não tinha casa para morar, sempre morando de empregado, ia para um lado, ia para outro… e nóis junto com ele. Depois que eu casei é que vim para cá.

Nossa infância era trabalhar [risos], era torrar farinha, ajudar na roça, tudo que a gente fazia era isto aí. Nóis somos nove irmão, seis mulher e treis homem. Nóis não tinha tempo de brincar. Minha mãe, às vezes, fazia umas bonequinha de pano pra gente brincar. naquele tempo não sei se ela não podia comprar ou se não tinha. Minha infância foi boa, apesar de ser pesada por causa do trabalho, porque os pais eram muito bão, dava muito carinho; então, a gente se sentia feliz. Era pobre, mas tinha todo o amor do mundo.

Estudei até o segundo ano em uma escola de Congonhal e depois nóis voltemo para as banda dos Chaves [bairro rural de Pouso Alegre]. Estudei numa escolinha perto do Fernandão. A professora era dona filó… Aprendemo pouco.”

Do barro, uma cidade

“Casei com 20 ano. Artesanato foi de bastante tempo que comecei. Meu marido fazia tijolo. Fazia o serviço aqui, ia pra lá ajudar ele, levá almoço, aí pegava o barro e ficava mexendo. Aí comecei a fazê bichinho, depois casinha. Minha mãe já fazia estas coisas também. Ela montou um presépio uma veiz, tudo feito de argila. foi com ela que aprendi. Depois começou a sair televisão, aí eu olhava nas casas da televisão e tirava os modelinhos e fazia. Quando ia na cidade [Pouso Alegre] também tirava modelo. nunca tive ajudante.

Pra fazê casinha, o barro tem que ter liga, era barro que fazia tijolo.

Foi a Marilda da Emater, não lembro o ano, que viu que minhas casinha tinha valor. Teve uma festa na e quebrei todas as casinha, não aproveitei nem o venda do Hélio e ela implorou para eu levá minhas casinha. Eu não queria ir, mais no fim acabei indo. Ela me ajudou muito; tenho saudade dela.

Ela arrumou pra mim vendê lá na ferinha em frente à catedral. Tinha umas colegas minha que expunha lá e aí eu vendia minhas casinha. O povo dava muito valor nas casinha.

Era pouquinho, quase não tinha tempo de fazê. A gente tem muito serviço. Se eu tivesse tempo de fazê só casinha, aí dava. Fiz muitas casinha. Aí o povo vinha e encomendava.

Vendia tudo baratinho. Um real, dois real…

Renda dava pouquinho, mas a gente espairecia com aquilo. Quando tava fazendo casinha, ficava com a ideia só naquilo ali… Minha filha era que pintava para mim.

História engraçada [risos]? Lembro um dia que estava levando as casinhas pra vendê, caí um tombo barro, pois era barro queimado.

Se eu já fiz uma casinha que tive vontade de morar nela? Já. Se pudesse, era bem gostoso. Mas já fiz uma casinha que já morei nela, era outra casa, desmanchou…”

Cansaço

“Hoje o braço tá cansado. Começo a fazê e canso. Depois que meu filho morreu, faiz 2 anos, perdeu a graça… Morreu com 48 anos, muito novo, foi embora muito cedo. Morreu meu pai, morreu minha mãe… as pessoas querida, a gente faiz de conta que nada, mas vai acabando….

Se pudesse vortá no tempo, eu fazia tudo que já gostava de fazê… Quando olho para as casinha que ficaram, me sinto feliz. Todo ano monto o presépio com as casinha, coloco pisca-pisca dentro delas. fica bonitinho.”

Paula Fracinete Coutinho Balbino, 72 anos, mora no sítio Irmãos Balbino, no bairro dos Afonsos, em Pouso alegre, onde concedeu estaentrevista em 29 de agosto de 2009.