Vozes múltiplas, histórias singulares
Artesanato

Gláucia, artesã da vida

A difícil infância

“A minha história é muita complicada. Eu não sei até hoje de onde eu vim e da onde eu sô. É uma história muito complicada. Eu fui criada com uma família lá em Santa Rita do Sapucaí e eles já morreram. Esse meu pai de criação me deu pra família do filho dele depois. Esse pessoal tinha uma fazenda em Pouso do Campo, ali em Santa Rita, e eles tinha uma filha e eu brincava com ela.

Da minha mãe eu me lembro que uma veiz ela foi na casa dessa família que me criô. Levô um corte de vestido pra mim e pra filha da mulher e um pacotinho de bala e falô que nunca mais ia voltá.

Esse pessoal de Santa Rita sempre ia pro Mato Grosso e eu pensava que eu podia sê índia lá do Mato Grosso. Quando essa mãe de criação tava ruim pra morrê, eu perguntei pra ela dos meus pai de verdade e ela só falô que a minha mãe era uma mulher muito bonita e muito boa. Então, foi isso que eu sempre soube da minha vida.

A filha mais velha dessa mulher que me criô é minha madrinha de crisma e morava lá em Londrina. Eu sei que eles arrumaram um registro pra mim lá. E aí eu fui registrada como Maria Benedita da Silva Filha.

Nessa casa, em Santa Rita, eu morava num quartinho e era tratada quase igual uma escrava. Era um quartinho pequeno e eu ia dormi às 6 horas da tarde, levantava às 4 horas da manhã pra trabalhá no fogão. Eu era muito pequena; então, tinha que pegá um banquinho pra subi e mexê nas panela. Eu tenho uma mancha no braço que foi queimadura desse tempo.

Eu tenho diabete desde criança e às veiz acontecia do meu braço ficá parado. Eu ficava ruim lá no quartinho; então, eu arrombava a porta e ia lá em cima e falava pra mulher que eu tava passano mal e precisava de médico, mais não tinha ajuda ali não.

Às veiz eu brincava de escolinha com os neto dessa mãe de criação e foi aí que eu aprendi a lê e a escrevê, porque eu nunca fui na escola. Eu só fui na escola depois que eu saí de lá. Às veiz fazia umas boneca de sabugo enfeitada com papel de bala pra brincá. Foi uma vida sofrida.”

Uma outra vida

“Quando eu saí de lá, eu mudei até o meu nome. O povo me conhece hoje pelo nome de Gláucia, mais não tem nada registrado não. Aí eu saí pra rua e conheci o doutor Ulisses e a dona Raquel e eles me levaro pra morá com eles. E lá eu fiquei 2 ano trabalhano. Era uma família muito boa e eu fui feliz lá. Eu saí de lá porque eles mudaro pra Belo Horizonte, aí tive que arrumá otro serviço. Arrumei, então, na casa do dotor Lauro. Hoje ele mora em Varginha e trabalhei lá mais 2 ano. Lá eu tomava conta da casa e dos filho dele e foi aí que eu comecei a ir na escola. Estudei de noite e fiz até a quinta série, fiz o curso de datilografia. Mais um dia eu discuti com o filho dele e falei demais; aí eles me mandaro embora.”

O marido, a filha e o trailer

“E lá fui eu de novo pra rua! Aí consegui alugá um quartinho lá na rodoviária, no fundo do salão de cabelerero da Pita. E daí trabalhei na Alpargatas, na Monte Belo e na Clínica Santa Paula. Em frente da rodoviária, tinha uma pensão e acabei conheceno meu marido, que morava lá. Ele era tapecero. Ele tinha uma bronquite forte e eu que cuidava dele.

Às veiz ele andava o dia intero e não conseguia vendê um tapete. Aí eu falei pra ele largá mão dos tapete. Ele largô e começô a trabalhá na lanchonete Simone; aí nóis combinamo de juntá um dinherinho pra comprá um trailer de fazê lanche. Montamo o trailer na praça da catedral e, mais pra frente, ele comprô um carro e arrumô um amigo. Eles gostava de saí de noite e, numa noite dessa, ele conheceu a mulher que tá com ele até hoje. Fiquei 10 ano casada e tive uma filha, que é meu tesoro. Agora tenho um neto tamém.

Nóis separamo, ele ficô com o carro e eu fiquei com o trailer, porque eu morava nele junto com a minha filha. Quando precisava de banhero eu ia nas loja ali do centro. Pra tomá banho nóis ia na casa de uma vizinha ali. Depois de um tempo, vendi o trailer.”

O artesanato, um novo recomeço

“Eu tinha feito a inscrição na Prefeitura [de Pouso Alegre] pra ganhá um terreno. Então, logo saiu e eu consegui essa casa aqui. Aí comecei a fazê um curso de artesanato no Sesi e consegui fazê flor de pano e fruta de parafina e pus uma barraquinha lá na ferinha de artesanato. E já tô lá faiz 15 ano.

Aí um dia a presidente nossa lá da ferinha, eu esqueci o nome dela, foi uma mestra que eu tive, foi em Belo Horizonte e troxe uma boneca feita de palha de milho pra mim e falô que era pra usá ela de modelo e começá a fazê as boneca. Hoje eu faço quarqué tipo de boneca, faço cesto tamém com capim-barba-de bode. E eu aprendi isso com um professor lá de Lambari que veio dá aula aqui no Teatro Municipal.

Eu trabalho com bucha, palha de milho, casca de cana, retalho de malha e folha de bananera. Eu fiz um curso lá no Sebrae e lá eles explicaram que aqui era terra do morango e do café; então, a gente fazia artesanato colocano um poco dessas coisa.

Se eu tivesse mais material eu fazia muito mais peça. Por exempro: a palha eu pago cinco real o saco e só aproveito metade, porque muitas vêm suja, não dá pra aproveitá. As cabaça que eu uso tá cara tamém, eu compro elas lá no mercadão. As cabaça tem que lavá e cortá, aí depois eu coloco os bonequinho lá dentro e faço que nem um presépio.

O capim-barba-de-bode eu pego no mato lá perto do bairro Jatobá. Tranço ele com uma linha que eu passo na cera de abelha e faço balaio e cesta de pão quadrada, redonda, oval, faço tipo um pote. Essas peça leva uns 2 dia pra fazê e vendo por vinte real.

Faço tapete de retalho e até retalho eu tenho que comprá. O tapete grande é dez real e o pequeno é cinco.

Eu faço uns anjo de bucha com cabelo de milho e carinha de isopor que fica muito bonito, e a minha filha pinta o rostinho deles. Na mão do anjo tem um raminho de palha. As guirlanda pro Natal eu faço com barba-de-bode e folha de bananera e coloco a pinha e o anjinho. Fica bonito, invernizo e passo um spray dorado. Às veiz, eu ponho um santinho tamém.

O artesanato é bom pra mim, quando eu tô fazeno minhas peça, eu não penso em nada.”

Sonhos

“Meu sonho é construí um quartinho no fundo da minha casa e colocá minhas coisa tudo lá pra podê trabalhá. Mais agora eu fiz um empréstimo de aposentado pra construí esse quartinho pra minha filha morá com o marido e meu netinho. Então, tô apertada. Ela trabalha e me ajuda muito, mais memo assim tá apertado. Meu marido não ajuda em nada e a minha filha nem fala mais com ele; eu já tentei fazê os dois conversá, mais ela não qué.

A minha filha tirô o segundo grau, mais eu não tive condição de pagá uma faculdade pra ela; aí ela parô os estudo. Ela é uma menina de oro. Hoje eu vivo por ela e pelo meu neto – e eles são a maior alegria da minha vida.

Agora meu diabete piorô e tô com hérnia no estômago, mais vô levano minha vida e meu artesanato…

Antes de morrê eu queria realizá um otro sonho tamém: queria sabê da minha família de verdade. Já pensei até em escrevê pra esse programa de televisão – sabe? – e pedi pra eles descobri quem eu sô.”

Maria Benedita da Silva Filha (Gláucia), 53 anos, mora no bairro São Cristóvão III, em Pouso Alegre. Entrevista realizada em sua residência, em 11 de outubro de 2009.