Vozes múltiplas, histórias singulares
Artesanato

Zé Barcelos, o artesão do bambu

“Passei minha infância aqui, só que nóis tinha uma casa mais véia pra baixo, ali… Aí tava muito véia, nóis fizemo esta aqui. Meus irmão foram casando e agora só tá nóis dois, eu e um irmão. Ele trabaia na Faisqueira, sai 6 horas e só vorta à noite.

Minha mãe tem 85 anos, tá doente, não sai da cama. Ela fica na cidade, lá no São João [bairro de Pouso Alegre] na casa da fia dela [irmã do entrevistado].”

Um pouco do ofício

“Comecei meu artesanato aqui. Meu pai mexia com isto. Só eu que aprendi. Irmão, ninguém aprendeu. Meu pai fazia pra despesa. Um dia ele chamou pra me ensiná. Ele não tinha muita paciência. Ele falô: termina isto aqui procê aprendê. Aí, ele deu pra mim terminá. Disto pra cá, comecei. No começo não saía perfeito, eu só fazia pra despesa.

Aprendi com meu tio também, que morava aqui perto. Ele fazia muitos tipo de cesta. Aí eu olhava ele a fazê e peguei o jeito. Aprendi quase sozinho…

Até os 40 ano, eu também trabaiava na roça, na enxada, arrancando mandioca. Chegou um ponto que não aguentei mais. Faz 40 ano que mexo com isto. Quero pará, pois não tô aguentando mais, mas a turma tá procurando.

Antes vinha gente de longe, tem informação e vinha: da Cruz Alta, Aterrado, Praia, Silvianópolis, Cantagalo. De veiz em quando tá chegando aí… Mas diminuí bastante, quem vem e não acha não vorta mais. Eu mantinha um estoque de bastante, hoje não tem mais quantidade.

Eu alembro quando eu trabaiava na fábrica de porvio. O pai de um rapaiz fazia covo de caçá peixe. Ele me ensinô mais ou meno. Cheguei aqui e no outro dia fui fazê um e fiz. Fiquei muito contente.”

Exposição na feirinha

“Durante arguns anos expus na ferinha de Pouso Alegre. Comecei assim: a turma da Emater passava por aqui, andava de casa em casa, explorando quem tinha as coisas pra fazê, novidades. Lá no bar lá embaixo tinha uma cestinha que eu deixei pra eles mostrá pra turma. De lá, eles vieram aqui, combinamo o dia de começá a expô. Fiquei treis ano lá. Aprendi muita coisa. Lá dava pra vendê; não vendia mais porque não tinha. Dava para arrecadá meio salário, um salário… Aí a fera fracassô um poco, eu parei, mais foi uma experiência muito grande. Nessa época, fazia 25 tipo de peça de bambu diferente: cesta de vários tipo, jacá de banheiro, frutera…”

Limitações

“Trabaiei muito. Durante muito tempo vivi só disto daqui [mostra os jacás]. Fazia semana intera, dia de domingo. Mais aí, problema de coluna, fracassou, não posso me esforçar muito. Eu gosto de fazê, mais não posso ficar muito tempo sentado igual eu ficava de primero, por causa da coluna; se não, de noite eu não consigo dormi de dor na coluna. Tenho diabete, colesterol arto e pressão arta e fora o restante… dor nas perna.

Sou aposentado por invalideiz e este salário me ajuda a mantê minhas despesa, porque aposentadoria não dá. Ai de mim, se não soubesse fazê isto aqui. Recebo um salário mínimo, tomo três qualidade de remédio.

Quando eu tô fazendo, eu sinto bem. A gente sabe que tá ganhando o pão de cada dia. Ficá parado, sem tê renda… O dia que eu não tô podendo trabaiá, eu fico nervoso, a cabeça não ajuda, eu fico pensando na vida, preocupado… Teno saúde, a gente se vira. Tem dia que pra mim ir daqui na estrada fica difícil; tem dia que pra trabaiá em roda do terrero tenho que usá bengala.

Quase não saio. Economizei e comprei um carro, mais não posso dirigi, que o pé não ajuda. Tenho um irmão e um sobrinho que me levam na cidade pra vê minha mãe e pra fazê compra.”

Processo de criação

“Vou lá no bambuzeiro, escoio o bambu. A gente bate o oio e já sabe. Não pode sê muito maduro; se não, quebra na hora de trabaiá. Não pode cortá quarqué um que estivé na frente. Um bambu grande dá para fazê um jacá, um cesto. Sendo pequeno, gasta dois.

Aí corto o bambu, venho pra sombra, racho no meio e vou tirando as fita. Aproveito só a casca de cima. Tem que tê muita paciência, um canivete bão e um facão bão.

Eu nunca contei as peça que já fiz, mas são milhares e milhares. Nunca me machuquei com a taquara, só coisa leve….

O jacá é o mais simpre e o mais procurado. Pra galinha botá, vai de quarqué jeito.

Faço na base de cinco ou seis por dia. Cobro cinco real cada um. Não tem época. É o ano inteiro, na seca, nas água. Tinha compradô que comprava pra revendê. Ele chegava aqui e o que tivesse… 30, 40, 50, levava tudo.”

Repasse de ensinamentos e o futuro

“Eu tenho um sobrinho que aprendeu comigo. Ele era moleque, mas hoje ele largô mão. Ele me ajudô um tempo, fui ensinando ele. Depois, apareceu um serviço na fábrica de porvio e ele largô.

Os jovem de hoje não têm vontade de fazê isto não. A hora que eu morrê e algum companheiro que faiz, vai acabá, não tem pessoa mais nova que faça isto. Tá terminando…

O que eu espero da vida?

Que Deus dê sarvação pra mim. O dia que Ele me chamá – porque de uma hora pra outra a gente apaga –, espero descansá um pouco mais do que aqui, porque aqui a vida é cansada.”

José Leal Domingues, conhecido por Zé Barcelos, 63 anos, mora no sítio Irmãos Balbinos, no bairro dos Afonsos, em Pouso Alegre, onde concedeu esta entrevista em 29 de agosto de 2009