Vozes múltiplas, histórias singulares
Cordel

Eugênio Toledo, poesia na alma e na veia

A influência do avô e dos amigos

“Meu nome é Eugênio Toledo, pseudônimo artístico, poeta desde a minha infância. Desde pequeno, eu tenho essa mania, herança do meu avô, Tuany Toledo, que me fez despertar mais pela literatura. Ele me levava pro seu escritório todo de madeira e ficava lendo Augusto dos Anjos e Carlos Drummond de Andrade, além de coisas que ele mesmo escrevia, como um prefácio de um livro sobre a história do sul de Minas que ele havia escrito e leu pra mim umas 150 vezes. A escola também teve influência, essa coisa de vir estudando e sabendo sobre poesia, os amigos…

Naquela época todo mundo fazia uma poesia e saía com ela no bolso, mostrando para um ou para outro. Às vezes, dava para algum amigo fazer uma música.

Então, tive um ambiente favorável, tanto na família como com os amigos. E sempre essa coisa comigo, não sei se já nasceu dentro de mim. Quando eu era menino, eu sumia e todo mundo ficava me procurando. E eu estava atrás do portão, escrevendo poesia, e pedia um instante a todos, porque eu já estava terminando. Então, eu não sei definir isso, essa força que me chama. E até hoje eu tenho essa propensão de desenvolver a poesia.

Meu avô gostaria que eu escrevesse sonetos e eu escrevi um, mas ele não chegou a conhecer; conheceu outras poesias, mas ele contestava o uso de muitos versos livres.”

O amigo Marçal

“Já visitei várias escolas como trova, haicai, sonetos escritos em decassílabos, hexassílabos e até numa sílaba e também o alexandrino, que é escrito em 12 sílabas.

O grande amigo advogado e poeta Marçal [Etienne Arreguy] me ajudou muito a reviver todas as técnicas das sílabas não gramaticais, sílabas poéticas.

Eu fui intimado pelo Marçal para desenvolver um soneto, e esse soneto sumiu. Já tinha feito os dois primeiros quartetos, aí acabou a inspiração e eu guardei no bolso, mas sumiu. Então, eu via o Marçal na rua e me desviava dele, não sabia como dizer que tinha perdido o soneto. Um dia ele me perguntou por que eu estava desviando dele e eu contei. Então ele disse que poema a gente fazia outro.”
(…)

O cordel

“E chegou uma hora que eu me despertei pela literatura de cordel, na figura do doutor João luiz da Silva, que é analista e reside aqui em Pouso Alegre. Ele tinha esse gosto por causa de seu pai, que era nordestino e cordelista. Eu achava que era uma coisa deles mesmo, ali do nordeste.

Aí, por mais uma vez, eu me arrisquei em visitar outra escola poética. Eu aprendi que a literatura de cordel clássica tem seis versos com a rima batendo no par, sem bater no ímpar e com sete sílabas métricas – e é essa que eu faço. Tem cordel com sete versos e tem que cruzar rimas ricas em todos eles e tem também em oito e em dez sílabas.

O número de estrofes na literatura de cordel é ilimitado. Não importa a quantidade de estrofes, o importante é que tenha começo, meio e fim. Teve gente que escreveu cordel com uma estrofe só. Se numa estrofe você consegue contar a história toda, tudo bem.

O cordel nasceu como uma necessidade da imprensa, pra cobrir furos. nasceu em Portugal, com o senhor Trancoso, que era poeta e criou essa literatura que veio para o Brasil com as embarcações portuguesas. E nessas embarcações vieram as prostitutas, os mágicos, os atores, os dramaturgos e os cordelistas, discípulos do senhor Trancoso.

A grande concentração dessa literatura está até hoje no nordeste. Outros autores não querem invadir essa cultura por pensarem que pertence ao nordeste. Criou-se certo respeito.

O cordelista narrava um fato acontecido, por exemplo, na esquina da casa dele, antes mesmo do fato ser publicado nos jornais. Por isso, tem um cunho jornalístico.

Estudando sobre o cordel, descobri que Drummond já escreveu cordel. E o Sérgio Ricardo, aquele cantor que quebrou o violão no festival, fez um concerto no Teatro Municipal de São Paulo com uma canção pra esse cordel.”

O Repertório

“Já escrevi alguns cordéis, mas o único que sobrou é esse aqui: Receita de Cordel (1990), o primeiro. Ele inicia uma série dos cinco que publiquei.

Publiquei mil exemplares e fui vendendo de mão em mão, nas portas do teatro, nos bares da região. Depois, comecei a colocar em bancas de jornal. Ele não se tornou líder em vendas, mas também não sobrou nenhum.

Eu tinha a preocupação de fazer em gráficas com tipografia, pra não ter aqueles borrões. Mesmo quando passou pra ofsete, eu procurava fazer a diagramação no papel vegetal e com letras tipográficas, pra não perder a característicarudimentar. Às vezes, fazia carimbos pra editar em casa mesmo. Já fiz um cordel sobre a Copa do Mundo (1994), em sulfite amarelo com letras verdes, com mais estrofes – foi uma edição de luxo, pode-se dizer; fiz um cordel sobre A Santa que apanhou na TV (1995); fiz ainda o ET de Varginha e a História de João Paulo e Daniel.

As pessoas sempre me cobravam o próximo cordel e eu dizia que estava aguardando os próximos acontecimentos. no enterro de meu avô, eu carreguei o caixão errado. Cometi essa grande distração, que se transformou em cordel. E depois fiquei sabendo que essa distração era coisa comum na minha família. Minha mãe já entrou em velório errado e meu tio já discursou em jazigo errado também, mas eu vim pra superar o pessoal.

O maior cordel que eu já fiz é um de 62 estrofes sobre a Vinda de Michael Jackson ao Brasil para gravar aquele clipe no morro Dona Marta, no Rio de Janeiro.

O último cordel que eu escrevi foi sobre um testemunho que eu ouvi na igreja. É a história de um pássaro que levou uma sementinha pra uma criança e curou a leucemia dela. É inédito. Ainda não publiquei.”

Os frutos

“No sul de Minas não se tem registro de outro cordelista antes de mim. Depois teve o coronel Meyer, já falecido, que interessado pelas minhas publicações passou a escrever e ganhou até um concurso.

Então, esse é o retorno de todo o meu trabalho: servir de inspiração para outros artistas. Isso me deixa muito honrado e me sinto um pouco ganhador desse prêmio também.

Outro retorno é um certo respeito no meio literário, o pessoal perceber seu esforço de fazer um poema. Recentemente, fui convidado para dar uma palestra no Colégio Bandeirante sobre a literatura de cordel. Até mesmo essa entrevista que vocês estão fazendo comigo é um retorno do meu trabalho.

No momento, estou visitando uma literatura oriental; não sei se eu vou me arriscar em fazer. São sete versos maiores. Dá uma rima diferente. Ainda escrevo alguns versos livres e faço alguns sonetos pra minha esposa, minha grande musa.”

Eugênio Toledo, 49 anos, mora em Pouso Alegre. Entrevistarealizada em sua residência, em 12 de outubro de 2009