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Culinária

Dona Benedita, aprendizado passado de geração a geração

“Aprendi a fazer as coisas com minha avó e minha mãe: doces, biscoitos, broa de pau a pique, broa de amendoim, bolos, brevidades, paçoca de amendoim, de carne. Aprendi com outras pessoa também. A gente saía para fazer doce fora e cada um tem uma opinião; então, fui aprendendo. Hoje a gente praticou mais, porque as coisas tudo melhorou. De primeiro, era mais difícil; hoje tem mais facilidade.

Comecei a vender meus doces quando foi criada a feirinha em Pouso Alegre. Foi a Ana Maria Megale, da Emater, que incentivou. Ensinei minha filha, Estela. É ela que vende as coisas na feirinha de sábado em Pouso Alegre. Ela mora na cidade. Os pães é ela que faz. Agora tô ensinando duas netas que moram aqui. Só que não posso garantir que elas vão continuar fazendo.

Ontem eu falei: ‘Daqui uns tempo não vai existi estas coisas, porque as pessoas novas não têm coragem de enfrentá como eu enfrento aqui. Pegá lenha pro forno, apanhá vassoura, varrê forno, sujá de carvão’. É uma luta, mas eu adoro o que faço.”

O segredo

“O meu segredo é colocar muito amor e muito carinho pra fazer. Eu acho que é o início de todo o processo. Procuro sempre fazer o melhor. Enquanto eu puder, vou continuar fazendo. Coragem, graças a Deus, a gente tem. Mesmo que a saúde não seja muito forte, a gente não pode entregá. Se a gente fica desocupada, aí é que vai aparecê os problema.

Para mim, tudo representa uma coisa muito boa, tiro o sustento da minha família. Meus dois filhos, o Joel e o Genésio, me ajudam. A cabeça deles não dá pra outra coisa. O Joel vai na cidade comprá as coisas que precisa. O Genésio me ajuda mais aqui.

Já fiz doce em Silvianópolis pra Festa do Rosário, pras festas de reis. Saía pra fazê. Hoje, eu prefiro fazê aqui, tem tudo direitinho. Já não aguento ir nestas festas e mexer tacho de doce no fogão no chão. As coisas, pra gente trabaiá, tem que ter tudo organizado.”

A rotina

“Os doces, eu começo a fazê na terça-feira pra ficar pronto para a feira de sábado. Para a feira, só faço doce cortado, o doce seco. Faço pacotinho de 100 gramas. Pastel, eu faço sábado. Domingo, eu descanso. Às vezes tem visita. Vem muita gente aqui. Hoje mesmo tem uma amiga que não vejo faz tempo. Na segunda-feira, eu cuido do serviço da casa, lavo roupa, lavo as tampas dos assados. Boto tudo em ordem pra começar tudo de novo.

Quando assa coisas no forno de barro, a gente tem que regular a temperatura com a mão. A hora que branqueia os tijolos já tá na hora de varrê o forno. Pra assá biscoito, a temperatura é mais branda. Leva de 40 a 45 minutos. Broa é mais quente, leitoa também. No forno, asso até 200 biscoitos de uma vez.

Uso o pilão para fazê a paçoca de amendoim e de carne pra levá pra feira.

Gosto de fazê todo tipo de doce. O de leite e o de laranja dá mais trabalho.

Doce de laranja: o iniciamento é descascá as laranjas, cortá ela em quatro partes e pôr de molho, fica de molho de oito a dez dias e vai trocando a água duas vezes por dia. Se eu não vou usá toda aquela laranja, lavo ela tudo arrumadinho e congelo. E quando eu vou fazer o doce é só descongelá.”

Pastel de farinha de milho

Ingredientes
• 1 kg de farinha de milho
• 200g de polvilho
• Cerca de 2,5 litros de água fervente
• 1 colher (sopa) de sal

Modo de preparo
“Antes, bata a farinha e o polvilho no liquidificador para não ficar com aquelas pedrinhas, para não estourá na hora de fritar. Escalda a massa com a água quente e deixa esfriá um pouquinho. Junta o sal e amassa bem. Abre a massa no cilindro. Antes eu abria na mão, mas é mais difícil.

Esta receita dá pra fazer uns 50 pastéis de carne. Os de queijo dá menos, porque é cortado quadrado e o de carne é cortado redondo. Entre pastel e coxinha, eu faço uns 250 por semana. Vendo pro Hélio da venda.”

Dona Benedita Ribeiro da Costa, 69 anos, concedeu esta entrevista em sua residência no Sítio das Rosas, bairro dos Afonsos, Pouso Alegre, em 29 de agosto de 2009