Vozes múltiplas, histórias singulares
Dança

Dito Reis, prazer de tocar a viola que embala a catira

O caminhão e a viola

“Eu sô o Dito Reis. Passei minha infância na roça e casei com 20 ano. Nesse tempo eu gostava de dançá a contradança, uma dança antiga que hoje não existe mais. Aprendi a tocá viola com um tio meu, que já morreu faiz tempo.

Gosto tamém dum caminhão. Aí acabei comprano um caminhão e trabaiei 50 ano viajano o Brasil. Faiz 3 ano que eu parei de viajá.

Tem uns 15 ano que eu conheci o Lázaro Lopes e ele me falô da catira. Aí comecei a compô umas moda pra acompanhá os catirero. Eles apreciaro minhas música e então começamo a viajá aqui por perto, até pro estado de São Paulo, Mojimirim e Mojiguaçu, nóis já fomo. Já gravamo um CD e fizemo apresentação na TV Libertas e na Rádio Difusora de Pouso Alegre.

Quando essa turma vem aqui no meu sítio, aqui no Cantagalo [bairro rural de Pouso Alegre], nóis canta e dança a noite intera nesse palquinho de madera que eu construí pros catirero batê as bota e dançá a catira.

A catira é um grande prazer que eu tenho na minha vida. Eu irmanei com essa turma aí e, aonde o povo chama nóis pra cantá e dançá, eu não vejo nem distância, vou pra quarqué lugar com eles. Fico sem almoço e sem janta, mais sem a catira eu não fico. De veiz em quando aparece uns catirero aqui em casa lá de São João da Boa Vista [SP], aí é festa a noite intera.

Esse dom de violero eu herdei do meu pai e gostaria que um filho meu gostasse de tocá essa moda nossa, mais eles foram segui otro caminho. Dois é dentista e o outro gosta é de caminhão. Eu tenho um neto que toca violão, mais ele toca umas música mais moderna.

Então, eu peço a Deus que me dê muita saúde pra eu continuá acompanhano esse povo da catira e que dê saúde pros jovem tamém pra eles tê prazer no que faiz.”

“Agora minha vida é fazê umas moda”

Uh, minha fia, eu já trabaiei demais dirigindo caminhão! Agora minha vida é fazê umas moda, tomá uma cervejinha de veiz em quando e acompanhá esse catirero aí [referência ao amigo Lázaro Lopes, que participa da entrevista].

Vou apresentá uma música que eu fiz em 1999 e que gravei há pouco tempo e tá fazendo sucesso por aí: Romeiro de Pouso Alegre. Esta música nóis canta nas apresentação de catira:

“Eu vou cantá esta moda,
fazendo uma saudação.
Pros romeiro de Pouso Alegre,
é que eu fiz esta canção.
Todo ano, em mês de julho,
eles fazem a reunião.
Vão pra ver a Padroeira,
quatro dia e uma noite inteira
de a pé, cortando o chão.

Meia-noite, neste dia,
fica tudo em prontidão.
Sorta foguete avisando
pra chamar todos que vão.
Tem que tê fé e coragem
e também opinião.
Na hora que vai saindo,
na igreja bate o sino,
chora o meu coração.

É uma jornada custosa,
tem que cortá muito chão.
Mais tem que tê perna boa,
muita fé e devoção.
Desce morro e sobe serra
pelo alto do espigão.
Só vai mesmo quem tem fé,
chega arrastando o pé
cheio de calo e vergão.

Dia do primeiro poso,
onde faiz a marcação.
Vão posar em Paraíso,
ali faiz um poso bão.
À noite toda reúne
numa bonita união.
Vamo saí quatro hora,
pede pra Nossa Senhora
que nos dê proteção.

Quando sai de madrugada,
todos faiz uma oração.
Vão posá em Santo Antônio,
lá já chega aos empurrão.
E já sai de madrugada
com neblina e cerração.
Pra descê na Mantiqueira,
pede a Deus para a Padroeira
que lhe dê sua benção.

Chegando em Pindamonhangaba,
já de bengala na mão,
já ta no fim da jornada
pra cumpri sua missão.
Vai chegando em Aparecida
a hora da consagração.
Dá um viva de alegria
rezando uma Ave-Maria,
chorando de emoção.

Nos pés de Nossa Senhora,
se ajoelha com atenção.
Beijando seu manto azul,
alegra os seus coração.
Vou fazê a despedida
com uma viola na mão.
Enquanto Deus me dê vida,
vou a pé em Aparecida,
não sinto canseira, não!”

Benedito dos Reis, 72 anos, mora no bairro rural Cantagalo, em Pouso Alegre. Entrevista realizada em sua residência, em 28 de agosto de 2009