Vozes múltiplas, histórias singulares
Dança

Geraldinho Gomes, o “dançadô” do sertão

“Nasci no bairro dos Macaco [zona rural de Congonhal, MG]. Nunca fui na escola, não tenho leitura nenhuma. Desde que pude com a enxada, eu trabaio aí na roça.

Eu morava perto de um primo meu. Ficava quase só na casa dele. Ele vendeu um arado para um parente dele, que era violero. Este parente foi dormi na casa de meu primo e cantô muitas moda. De umas deiz, eu aprendi umas treis, só de ouvi ele cantá uma veiz.

Casei com 20 anos e vim morá aqui. Faiz 60 anos que tô aqui no bairro dos Guidos. Só nesta casa faz 50.

Eu era violeiro de contradança desde pequeno. Tinha meu pai, meus tio que era dançadô de cateretê. Então, naquela época, era função o cateretê na sala de fora e a contradança na sala de dentro. Então, eu cantava contradança e serra junto com as moça, mas era só eu entregá a viola, eu ia lá para o cateretê ver meus primo, meus tio dançá. Aprendi a dançá desde pequeno. Aprendi a tocá viola junto com meu pai. Tocava nos baile, nas companhia de reis. Eu era chamado para ir cantá pra tudo que é banda.

Este é um dos verso que aprendi com o violeiro:

Pagode que não tem sanfona
tenho raiva, tenho horror,
nem que seja convidado,
faço trato, mas não vou…

Danças da minha vida

Serra

Nesta dança formava uma roda com os par de moça e de rapaiz. O violero ficava no meio da roda e um dos cavalhero ajudava o violero. O rapaiz segurava o braço da moça e ia dançando em roda. Acabava na hora que cantava uns deiz verso. Dançava aí à vontade. Esta dança não tem mais, as moça de hoje não sabe dançá.

Contradança

Eu era violero de contradança. Aí casei, fiquei na função do mesmo jeitinho. A minha mulher nunca me segurô. Toda diversão eu ia. A contradança era o par, as moça por dentro e os rapaiz por fora. Cantava um verso da contradança, depois cantava a contradança, fazia tur [tour] e seguia. Ia trocando de dama e cavalhero. Depois saía e começava tudo de novo, outra veiz. Isto era no meu tempo de rapaizinho… O verso é feito na hora ou canta um verso véio.

Convidei o meu benzinho
pra passeá lá no jardim.
Ela foi, virou e me disse
– quem quer bem, não faiz assim.
O mundo nasceu por vóis
e o meu bem nasceu pra mim.
Veja que eu vivo enganado,
de perto me faiz agrado
e de longe judia de mim.

Cateretê ou catira

Aprendi a dançá com meu pai e meus tio, era tudo catirero. Eu comecei cantando contradança; depois que conheci altura fui cantando. Depois, fui crescendo mais um poco e aprendi o cateretê. E aí fui dançando. Pra dançá junta uns seis ou oito e dois violero. Tem de ser um bom dançadô. O baile pode tocá qualquer dança, cada um dança de um jeito, mas o cateretê tem que sê certinho; se não, um atrapalha o otro. Tem que ficá quatro daqui, quatro dali e o violero na frente. O que um bate, tudo bate. Agora acabou.

Nóis fomo num cateretê aí nas Almas [bairro próximo]. O pai foi, mais já não tava podendo dançá, tava véio. E tinha um parmeiro, ele era meio doente. Chegando lá, este home pega a dançá. Até que ele se deu que não podia dançá mais. De certo, ele pensou: ‘Não tirando parma, eles não dança mais’. Daí ele encostou no canto, meio queixoso. Daí, o tar de Joaquim Mariano, que era o dono da função, falou: ‘Sô Gerardo, bate a parma aí’. Eu falei: ‘Eu não tenho confiança’. Mas eu sabia que eu batia. Aí ele falou: ‘Pode batê. Se errá, começa de novo’.

Aí, eu falei com o meu cunhado que chamava Arvelino: ‘Vamos ver se junto a gente tira uma parma pra eles aí’. Deste dia em diante, eu fiquei parmeiro. Ninguém dançava mais que eu.

Bastante gente aprendeu comigo, o Lázaro Lopes… Tinha uns primo que era até mais véio que eu que aprendeu comigo. Eu tinha um compadre que era parmeiro, de tirá parma. Eu tinha acanho de batê parma na frente dele, porque eu respeitava ele. De veiz em quando, os companheiro mais novo falava: ‘Puxa a parma o senhor’. E quando eu puxava parma, eles dançava muito mais comigo junto do que com os parmeiro mais véio. Eu aprendi, mais aprendi mesmo. Eu diverti… diverti demais.

Fomo dançá em Três Corações, na Praia [Espírito Santo do Dourado], Santa Rita, Ipuiuna. Até no Paraná nóis fomo dançá. Nóis fomo num cateretê lá em São Bento de Calda, nóis fomo mais de 30. Desta turma só tá sobrando eu vivo. Pra dançá não tá sobrando mais ninguém, porque eu não danço mais.

Minha maior alegria era ir no divertimento que
eu podia ir. Eles vinham me buscá aqui. Lá em Pouso
Alegre tinha uma tar de Leonora. Ela fazia uma festa
na véspera do São Pedro. Ela morava nos Afonso e
quando mudou pra lá continuou fazendo a festa do
mesmo jeito. Nóis fomo muitos anos lá. Ela mandava
buscá a gente pra dançá contradança, serra…

Estes verso pode cantá em quarqué dança:

Menina, faiz muito tempo
que eu vejo o povo dizê
que vóis é muito bonita.
Hoje, eu vim só para te vê.
Agora fiquei sabendo
que você é bonitinha.
Será que esta boniteza
ela vai ser só minha?

Dança do chapéu

Naquele tempo, os rapaizinho andava tudo de chapéu. Tirava os par, então as moça pegava o chapéu dos rapaiz e colocava na cabeça e ia dançando. As moça iam de fasto e os rapaiz iam de encontro. Aí pegava na mão e trocava de chapéu. É o violero que fala os verso.

Esta dança do chapéu
muié dança, home não.
Tira o chapéu da cabeça
e diga adeus e pega na mão.
Esta dança do chapéu
não é pra home casado.
tira o chapéu da cabeça
e diga adeus ao namorado.

Quebra na rédea

É assim: tira os par, o violero vai tocando, escolhe uma moça e dá o lenço. A moça dá o lenço para o rapaiz, o rapaiz dá o lenço para otra moça. A hora que enchia a roda, aí as moça ficava com as mãos assim [com as mãos para trás, sobre os ombros] e os rapaiz segurando. A hora que cantava a quebra na rédea, largava daquele par e pegava outro.

Já dancei muito; estes moço de hoje… ninguém sabe mais.

Não é por eu ser casado
que eu não posso diverti.
A muié, eu deixo ela
fecha a casa e vai dormi…

Dança do siriri

Faiz a roda. Tira os par. A dama
vai de fasto com as mão levantada pra trais e o
cavalhero, de frente, segurando os braço da dama.
Esta dança é acompanhada por dois violero e dois
cantadô. Nóis deixava pra cantá esta dança quando
tava quase amanhecendo, porque tinha o desafio
cantado por dois cantadô.”

No meio deste salão
vamos nóis a diverti.
Vamos vê se bate certo
a dança do siriri.
Siriri, siriri, siriri (bate parma treis veiz para cada lado)

Perdas irreparáveis

“Em 4 ano eu perdi minha muié e meu fio, o único fio home que eu tinha. Eu e minha muié vivemo junto 50 ano. Quando as criança era pequena, ela ia levá armoço pra mim na vargem. Eu levava uma enxada pra ela, ela ficava ali capinando comigo. Às veiz, eu fazia um fogãozinho pras meninas, elas ficava ali brincando e nóis capinando. Muita saudade…

Nóis tinha um terreno na serra, nóis trabaiava só junto, eu e meu fio. Eu dizia: ‘Se eu morrê, oh, Clézio, ocê vai senti farta de mim!’. E aí deu certinho o contrário. Quando ele morreu, nóis tinha duas boiada, era minha e dele, mas era só ele que carreava. Depois que ele morreu, eu não canguei um boi mais. Depois vendi os bois, mais o carro e o arreamento não vendi. Dia 24 de janeiro de 2010 vai fazê 14 ano que ele morreu.”

Tristeza em não mais poder dançar

“Até o ano passado [2008] ainda dançava. Depois apareceu esta dor no joelho, não tenho firmeza nas perna mais. Tem uma médica que trata de mim lá no Congonhal, já pelejou… mas isto aqui é friage, agora que pareceu.

Eu peguei esta dor trabaiano na enchente [várzeas do Rio Cervo, afluente do Sapucaí], plantando arroiz. Cortava arroiz na enchente. Ponhava o armoço na canoa e ficava com a água até na cintura e armoçava na bera do rio.”

Eu vivi 70 ano sem ir no médico. E trabaiano deste jeito, estragando a saúde deste jeito…”

Geraldo José Gomes, 79 anos, também conhecido por Palha Roxa, mora no bairro dos Guidos, município de Congonhal. Entrevista realizada em sua residência, em 3 de outubro de 2009