Vozes múltiplas, histórias singulares
Festas e rituais

Zé Raimundo da Folia

O início na folia

“Sou nascido em 1964. nasci no sítio vizinho em propriedade arrendada. A arte, a música vem desde a minha infância. Minha vó que me ensinou a rezá o santo terço. Desde criança, eu caminhava atrás da folia de reis e fui me interessando por aquilo.

Com 17 anos, eu comecei a cantar na frente na folia de reis. Mais jovenzinho, eu cantava no cordão. numa certa noite, um amigo meu, que já faleceu, o Gonçalino Prado, na época, eu não conhecia ele, me deu um violão e disse: ‘vai lá e canta e faz este agradecimento assim!’.

Eu, muito inocente, simplesmente fui. E os conterrâneos que estavam cantando me apoiaram. E isto foi minha primeira cantoria na folia. Depois, não parei mais. nós tinha muitos mestres, mas sempre sobrava meu espaço. Inclusive teve um senhor que deu uma janta na casa dele, o Joaquim Martins, já falecido. Convidou os folião, todos eles. o folião mais novo que existia no grupo era eu, só que o dono da casa exigiu que eu fizesse a chegada e cantasse.

Olha, pra você vê o tamanho da responsabilidade!

No meio de tanto folião tudo já formado e eu, começando, tê que encará esta batalha! fui iluminado por Deus, pelo Espírito Santo. Cantadô de reis tem que olhar pro céu, ter o dom do Espírito Santo. Eu fui feliz, o dono da casa ficou supercontente, os folião que tava me parabenizaram pelo que cantei. Inclusive, quando cheguei no presépio, pensaram que eu ia fazer isso ou aquilo, mas eu estava iluminado.

Assim vem a minha vida. Sou católico romano praticante e vivo aqui no meu sítio fazendo parte de tudo que existe na comunidade: do conselho deliberativo da associação, da santa missa, da folia de reis, que hoje tá sendo para nós um benefício grande através da Secretaria de Cultura, que tá valorizando nosso trabalho, que nós gostamos.”

Vida de mestre

“Sou mestre de folia de reis. Hoje estou como representante da cultura da folia de reis em Pouso Alegre. o bairro dos Afonsos é o único bairro que representa Pouso Alegre, que executa e faz a festa de reis. nós somos hoje os privilegiados. Meu papel na folia é mestre, o qual é responsável por toda música que sai de minha boca e dos componentes. São de cinco até sete pessoas e, no máximo, oito, para manter a folia. Cada um tem uma função: mestre, contramestre, tala, quarta, quinta, sexta e sétima voz. O tala, aqui nós chamamos de ‘taleiro’, é responsável pelo cordão, que vai da quarta à sétima voz. o refrão sai da boca do tala.

Tem também o bastião. nós estamos trabalhando com um só, mas pretendemo colocá dois. nós temo também as pessoa que só carrega a bandeira – os bandeireiros. Quando a gente chega numa casa, aívem o bastião, que tá do lado da bandeira. É o bastião que vai pedi licença pro dono da casa se nós podemo entrar pra dentro; se ele vai receber a companhia de reis; se ele gosta; como vai a família dele.

O caboclo abre a casa e nós entremo. A maioria das casa tem um presépio. É naquele presépio que a gente tem obrigação de fazer a saudação primeiro ao Menino Jesus. Se nós temo um bastião que saiba fazê isso (tem muito bastião que não sabe), é o bastião que vai fazer a saudação no presépio. Se ele não tem sabedoria para fazê, aí cabe para o mestre fazê. Aí eu vou cantar, vou falar alguma coisa. Esta é a saudação. Aí, depois, o resto vai acontecendo. Por exemplo, eu posso dizer assim:

Aqui está esta bandera
e nela tem as três image.
É o retrato dos treis Reis Mago,
quando andaram de viage.

E por aí se vai. Eu faço 25 verso, 50 verso, um atrás do outro. São saudações. Depois nóis reza treis Ave-Marias e vamo atrás do presente, que é pra fazê a festa. o bastião vai conversá com o dono da casa pra vê o que ele pode ajudá. Quando ele vai pedi ele está com uma máscara. Ele não é conhecido. Ele vai contá pro dono da casa porque é o fundamento daquela companhia de reis.”

Bastião em ação

“Eu já vesti de bastião, por isto eu sei contá. É assim: ‘nóis tamo andando, fazendo adoração para

o Menino Jesus, na semelhança do que os treis Reis fizeram. E estamos querendo festejá no dia 6 de janeiro. E pra fazer uma festa, nóis precisa de ajuda.’

Aí a gente pergunta pro dono da casa: ‘Com que você pode ajudá: com um frango do terreiro, uma leitoa, uma vaca, um boi ou é dinheiro?’.
(…)
Aí o bastião diz pra mim que sou o mestre: ‘50 de presente da Alzira’. Aí a gente agradece:

Olhando pra essa bandeira,
Lá do céu meu Deus inspira.
Canto pra Santos Reis,
Agradecendo à Alzira.

O nome da pessoa e do Santo Rei tem que estar no verso. Agradece todos, termina ali. Em alguns lugar, costuma servir um café, em algum lugar a gente janta. Para tudo os instrumento e, neste intervalo, os dono da casa pega a bandeira e leva para todos os cantos da casa, pedindo a proteção dos Santos Reis por mais aquele ano. Aí eu canto um verso pedindo a minha bandeira:

Traga lá minha bandeira
dos treis Reis eu quero vê.
O café que vóis serviu
vamos agora agradecê.

E por aí vai indo. Aí eu canto convidando eles para a festa. Canto a despedida:

O festeiro me pediu
pra deixá este recado:
Pra festa do dia 6,
voceis estão convidado.
Se despede da bandeira,
que nóis vamos indo imbora.
Voceis fica aí com Deus
e nóis vamo com Nossa Senhora.

E por aí vai tocando o barco.

Folião não tem nada escrito. não pode levá papel na mão. Pode até escrevê a chegada, mas tem que gravá tudo na mente. o resto é tudo feito na hora. A festa é no dia 6 de janeiro, dia de Santos Reis.

No dia da festa tem a coroação dos festeiro do próximo ano. Tem a chegada de Santos Reis, um grupo, dois grupo e outras companhia que participa. nóis canta nos treis arco de bambu. Cada arco tem uma image. no primeiro arco tem um anjo, que anunciou a Maria. no segundo, tem uma estrela, a luz da caminhada dos treis Reis Magos e no terceiro, um presépio. E depois, é comida à vontade, muita gente comendo e bebendo. E vem gente de longe. Tem muita gente que vem e qué ajudá e vê a folia. Tem um grupo de folia que fica cantando.

Pra mim, a folia de reis representa a fé. Eu nasci para andá junto de meu povo. Eu sou uma ovelha, que quer estar no meio do rebanho todinho. As pessoa me respeita. Eu tenho meus companheiro que me respeita tanto. Eles falam: ‘oh, zé, o que ocê combinou lá, ta combinado. o que ocê fizer, tá feito’.

É assim. A folia de reis é cultura, mas pra nóis é religião.

Este é o primeiro ano que a Secretaria de Cultura tá querendo nos ajudá a valorizar uma coisa que nóis já temo há muitos anos e levar ao conhecimentos de pessoas que não conhecem.

Queremos chegar até o topo, não só a nossa companhia, mas todas as companhias de reis. Se não valorizar, vai chegar uma hora que ninguém vai saber o que é uma bandeira de Santos Reis, o que ela significa.”

José Raimundo Ribeiro, Zé do Avelino, 45 anos, mora no sítio São Sebastião, no bairro dos Afonsos, Pouso Alegre. Entrevista realizada em sua residência, em 1º de outubro de 2009