Vozes múltiplas, histórias singulares
Festas e rituais

Magda, a filha do Zé Raimundo da Congada

Eu na congada

“Eu cheguei em Silvianópolis em janeiro de 87; era bem pequena, lembro muito pouco. Eu morava em Santa Rita do Sapucaí e meu pai morava aqui. Lembro da primeira Festa do Rosário de Silvianópolis. A congada de meu pai já participava, mas minha mãe não. E eu já queria ir atrás do terno de congo e minha mãe me deixou por conta deles. Na época, tinha uma bandeireira, dona Maria, que hoje é falecida, falou: ‘Deixa a menininha aqui’. Eu era a menor de todas.

Fui crescendo no meio da congada, aprendi muita coisa, conheci muita gente. A congada de meu pai dançava muito fora com a turma de Lambari, Machado e de outras cidades … e eu acompanhava muito ele. Conversava muito com as pessoas, desde as pessoas que estavam na rua até as mais importantes. Meu pai acabava inspirando aqueles diálogos. Onde eu chegava, as pessoas falavam: ‘É a filha do Zé Raimundo da Congada’. Só depois perguntavam qual é o nome da filha do Zé Raimundo da Congada.

(…)

Na congada, nós somos em torno de 18 meninas. Às vezes, os meninos não querem ensaiar a bateria. A gente fala: não tem problema, a gente canta, toca… Meu pai pega um tarol, as meninas pegam a caixa de guerra, o surdo e a gente faz aquele som, escolhe as músicas. Às vezes a gente ensaia uma música que a gente vê na televisão, na TV Futura, algo assim. Aprende a música, nem que seja pela metade, o resto a gente cria”.

(…)

Lembrança marcante

“Lembro-me da segunda vez que a congada de meu pai foi dançar em Aparecida do Norte. Eu nunca tinha visto tanto terno de congada na minha vida, num lugar só. Aquilo lá foi minha paixão. Eu fiquei tão louca, eufórica, de ver tanta congada. Eu lembro até hoje: saí correndo e caí um tombo e dei uma pancada no joelho. Deus me mandou um fisioterapeuta, que estava bem do meu lado. Minha mãe me pegou no colo e ele falou: ‘Coloca a menina sentada que eu vou ajudar a senhora, eu sou fisioterapeuta’.

Eu lembro certinho, ele mexeu no meu joelho que tinha saído do lugar e me alongou. Eu fiquei com um pouco de dor. Ele me perguntou: ‘O que você quer fazer agora’ ? Eu disse: Quero ver a congada! Ele me colocou no pescoço dele, aí eu consegui ver por cima de todo mundo e eu era bem pequenina…

Naquele dia me encantei com uma congada que estava passando no fundo de vermelho e branco. Eu encabulei tanto com aquela roupa e disse que enquanto eu não colocasse o uniforme vermelho na congada de meu pai, eu não iria sossegar. Meu pai já tinha tido uniforme vermelho, mas eu nunca cheguei a dançar com este uniforme. Naquela época era amarelo.

Depois de tantos anos, em 2008 conseguimos colocar o uniforme vermelho e branco. Um rapaz do Rio de Janeiro nos deu 60 metros de cetim do vermelho – do mais chamativo – , do jeito que eu havia visto na congada de Aparecida do Norte.

A ex-festeira  da Festa do Rosário, a Walkíria, esposa do Toninho, residente em São Bernardo do Campo, SP), esteve aqui e perguntou o que a gente estava precisando. Eu comentei com ela a respeito do chapéu. E na festa, ela trouxe bonés com a parte de cima branca e o bico vermelho, combinando com a roupa que ganhamos.

 Na Festa do Rosário, na hora que o terno apontou no início do morro, todo mundo olhou e perguntou: de onde que surgiu aquele terno de congo de vermelho? Não tinha nenhuma outra congada com esta cor, só a gente”.

(…)

Tá caindo flor

“A minha paixão é participarmos de novo da Festa de São Benedito em Aparecida do Norte. É em abril. Lá eles servem alimentação, mas o transporte é por nossa conta. No ano passado nós fomos. Chegamos lá de manhã. Para nós, os ternos de congo que estavam lá eram os diferentes, e para eles, nós que éramos os diferentes. Nós éramos a única congada, no meio de 105, que tinha instrumento de sopro. Era a única congada que tinha homem e mulher. As outras congadas ou era só de homem ou era só de mulher. Não tinha aquela mistura.

Chamamos atenção sem querer chamar por causa de uma música que o sô Felipe cantava aqui … e esta música acabou espalhando pelo Brasil e nós não sabíamos que fazia parte do coral da igreja de Aparecida. Nós começamos a cantar, o coral começou a ajudar:

Tá caindo flor…
tá caindo flor…
tá caindo flor…
tá caindo flor…
vem do céu,
cai na terra
vem Lelê
tá caindo flor…

A gente cantava e fazia gesto e o coral também. A gente fazia o refrão, o coral, os versos. Foi uma coisa maravilhosa pra gente e me marcou muito.

(….)

Em 2010, nós iremos novamente; a gente já está preparando. O pouquinho que entra de dinheiro de cada festa, meu pai já está guardando”.

Meu pai, meu guia

“Tenho muito orgulho de meu pai. Na congada ele é chamado de mestre, capitão. Para a minha vida, ele é a mesma coisa, o mestre, o capitão, o que me guia, o que me ensina. Tudo que eu sei de congada, eu aprendi com ele. Ele sempre foi muito curioso e acabou despertando esta curiosidade em mim… As dificuldades que eu presenciei foram poucas, em comparação com as que ele viveu no passado.

Com certeza, darei continuidade, continuarei o trabalho que ele iniciou”.

Magda Leonel Viana reside em Silvianópolis, MG. Entrevista realizada na residência do seu pai em 4 de outubro de 2009. Contato: magdaviana23@yahoo.com.br