Vozes múltiplas, histórias singulares
Festas e rituais

Natália, uma herança de fé e oração

A vida no Cantagalo

“Eu tô com 62 ano e desde criança eu ficava junto com a minha vó, posava com a minha vó. Ela era benzedera e eu fui pegano aquele raminho dela e aprendi a rezá. Depois morei um poco com a minha madrinha, aqui nos Afonso [bairro rural de Pouso Alegre].

Nasci no Cantagalo [bairro rural de Pouso Alegre] e morei lá até os 18 ano. lá no Cantagalo eu panhava café, capinava, ajudava a plantá milho. Minha família não era pobre e nem rica, tinha terra, mais não tinha conforto. Hoje, a gente não tem terra, mais tem um poquinho de conforto.

Ia na escola só nuns horário poco, fiz até o segundo ano primário. na escola que eu ia, tinha 60 aluno e a professora escrevia ‘a, e, i, o, u’ no quadro e nóis copiava, depois ela corrigia. o poco que a gente sabe lê e escrevê é de teimosia, porque era muita criança e a professora não dava conta de corrigi de todo mundo.

A merenda nossa era farinha com açúcar, virado de banana e tinha que levá de casa. Eu sinto falta do estudo, se tivesse jeito de estudá melhor, eu tinha aprendido a lê mais, porque inteligência eu tenho.”

Os bailes na roça

“Meu pai era violero. fazia verso – e nos baile e nos forró ele falava que cada de um nóis tinha que dançá e falá um verso. Depois, meu pai vinha e falava um verso pra nóis. E assim ia… E ali nóis amanhecia. Era uma delícia!

Os baile era no terrero da casa do meu pai ou da minha tia. Eles pegava uma lona de caminhão cobria o terrero e nóis ficava ali debaixo, dançano.

Quando era dia de baile, meu pai pedia pra minha mãe passá aquela calça branca com paletó preto; e no otro sábado ele pedia pra passá a calça preta com o paletó branco. Ele fazia assim pra não repeti, porque não tinha otra ropa.

A minha mãe tinha o olho azul, então ele feiz um verso pra ela assim:

Andorinha do coquero
faiz gaiada no bambu.
Eu tamém tô apaixonado
por quem tem o zóio azu.”

A família

“Conheci meu marido num baile, namoramo 8 meis e já casamo. fomo morá numa casinha perto da igreja, aqui nos Afonso, mais a terra não era nossa. Depois fui morá uns tempo na cidade [Pouso Alegre] pros fio estudá. Morei no Santo Antônio 20 ano. Meu marido trabaiava de pedrero e eu lavava ropa pra fora. Depois os fio foram cresceno, aí foi miorano um poco.

Enquanto nóis tava na cidade, nóis construímo essa casa aqui nos Afonso. Eu queria muito voltá pra cá. E tô muito feliz aqui, realizei um sonho.”

Benzimentos

“A primera veiz que eu benzi, acho que foi uma graça que eu recebi. Uma criança tava muito ruim e a mãe chorano demais. Aí eu falei pra mãe dá a criança que eu ia benzê. Aquela criança tava desconfiada, então eu passei ela em cima do fogão de lenha e passei cinza na barriga dela, do memo jeito que a minha vó fazia. E graças a Deus a criança sarô. Hoje ela já tá com 14 ano. Eu rezei a oração que a minha vó rezava e fiz chá pra criança tomá.

Minha sogra era benzedera tamém e 15 dia antes dela morrê, ela me falô muita coisa boa. Então eu guardei. Ela ensinô eu a cortá cobrero, recaída de parto… mais depois eu esqueci essa oração. Um dia chegô uma mulher aqui quereno essa simpatia. Aí eu pensei: ‘Eu vô consegui’. E quando peguei a faca pra cortá, eu pedi pra ela me iluminá, aí eu lembrei tudinho a reza.

Meu maior sonho é continuá tirano a dor dos otro. Graças a Deus, eu benzo criança e a criança sara. Tem criança que chega aqui e eu já sei que ela tá comquebrante. É só eu oiá nela que eu sei, porque o oio dela fica com lágrima e brilhoso.

Agora, quando a criança tá com bicha, ela chora sem pará, não come e fica com a barriga grande. Aí eu dô um chazinho com sete galhinho de hortelã e uns treis galhinho de santa-maria e ela miora. Tenho tudo plantado aqui em casa.

Nesse mundo tem muita inveja, né memo? Pra combatê a inveja é banho com sete galho de arruda e sete de alecrim e sete pedra de sal. Põe tudo na água e vai falano: inveja, olho gordo, mal olhado, tudo quanto é mal que tá no meu corpo, vai pras onda do mar salgado.

Eu não mexo com feitiço, porque um dia eu posso pagá o mal tamém. Já veio um homem aqui uma veiz oferecê dinhero pra afastá a mulher dele e colocá uma amante em casa. Aí eu falei que ele tava loco, ofereceno dinhero pra mim. E ele não tava nem aí com a esposa e os quatro fio. falei tamém que a amante ia acabá com ele e dali treis meis ele ia voltá – e foi batata! Ele voltô sem carro e sem as coisa dele e resolveu voltá com a esposa.

Simpatia pra uni casal eu faço, porque ajudá nunca é demais. E várias coisa já deu certo.

Tinha uma mulher aqui que brigô com a cumade dela e, depois de um tempo, a cumade morreu. E ela me falô que a cumade tava apareceno pra ela. E pediu pra mim benzê ela. Eu falei que ela tinha que fazê uma simpatia e pedi perdão pra cumade. Se não, ela nunca ia tê paz.

Então eu falei pra ela acendê sete vela numa encruzilhada e pedi perdão pra alma da cumade, mais ela não queria pedi. Aí eu falei que quando ela ajoeiasse ia aparecê um sapo, uma borboleta ou um passarinho na igreja que ela fosse acendê as vela. Diz ela que apareceu uma borboleta marrom com um olho grande e passô treis veiz em volta dela. Parecia que a cumade dela tava ali e ela pediu perdão. nunca mais ela teve pesadelo com a cumade.

Otra veiz eu benzi um senhor que tava tossino, tossino. Ele me falô que tava tossino desde quando morreu um cumpade dele e que eles tinha brigado por causa de terra. Então eu falei pra ele pegá sete vela e pedi perdão pro cumpade que a tosse ia pará, porque não tinha mais xarope que curasse ele. E foi só que ele feiz isso, ele sarô.

Faço simpatia pra cortá o medo tamém. Sabe quando chove? Pega aquela água de gotera numa caneca e põe um poquinho de açúcar e toma. Aí, adeus medo! Esse benzimento serve tanto pra criança como pra adulto.

Otra simpatia pra acabá com o medo é chupá pedrinha de gelo, daquelas que cai com a chuva. não é bonito?”

O ritual

“De noite não é bão benzê e nem acendê vela, porque quando ocê tá rezano, ocê chama coisa muito ruim tamém. A vela amarela não é bão acendê tamém, porque ocê chama os espírito que tão vagano.

Os meus benzimento eu faço no meu quarto das 2e meia até às 5 da tarde. Às veiz chega gente fora do horário, aí eu tenho dó e acabo benzeno.

Não faço benzimento domingo e nem dia santo. Eu queria benzê dia de sexta e quarta só, pra sobrá mais tempo pra eu cuidá das coisa de casa. Tem dia que tem oito carro aqui na porta com gente pra eu benzê. Vem gente de Borda da Mata, Sertãozinho, Cachoeira de Minas, Pouso Alegre, de todo lado.

Às veiz meus fio fica bravo comigo por causo dos benzimento. Eles fala que se eu não benzesse eu era mais sossegada, mais eu falo que só vô pará quando Deus vié me buscá.

Depois que eu comecei a benzê, eu mudei muito. Eu era uma pessoa que tinha preconceito; hoje, eu não tenho mais. Antes, alguém falava mal de uma pessoa, eu ajudava falá; hoje, não. Hoje, eu quero só o bem das pessoa, porque eu tô feliz. Então por que eu vô querê o mal?

A fé leva a gente pra frente e é por isso que eu falo que pro mundo ficá mió só com a graça de Deus e de nossa Senhora.”

Natália de Góes Ribeiro, 62 anos, mora no bairro dos Afonsos, em Pouso Alegre. Entrevista realizada em sua residência, em 11 de outubro de 2009