Vozes múltiplas, histórias singulares
Festas e rituais

Pagodinho, engajamento na cultura popular

“Nasci no dia 5 de setembro de 1951. Hoje eu faço aniversário. Me criei aqui nos Afonsos. Com 5 meses perdi meu pai. Criei sob a responsabilidade da minha mãe e, graças a Deus, com muita saúde até o presente momento. Trabalhei ajudando minha mãe, estudei até
o quarto ano na escola do bairro do Cervo [bairro rural de Pouso Alegre]. Trabalhei na lavoura, fui pedreiro e hoje sou radialista. Comecei no rádio em 1972.”

Folia de reis

“Comecei na folia de reis aos 15 anos de idade, ajudando como contramestre. Depois, passei a ser mestre, que é o puxador da folia de reis, o que canta na frente, que faz a rimação da folia. Até o presentemomento ainda participo. É uma cultura, uma dedicação, uma religiosidade. Aprendi a folia de reis com as pessoas mais velhas. Aprendi com o senhor José Ramos do Prado, já falecido, e com mais outras pessoas, também já falecidas.

A folia começa no dia 24 de dezembro e encerra no dia 6 de janeiro. É formada por cinco ou seis componentes. Percorre o bairro todo e também os bairros circunvizinhos. A finalidade é retirar donativos para a realização da festa no dia 6 de janeiro. A companhia (folia) tem bastante instrumento: viola, violão, pandeiro, zabumba etc.
A simbolização da folia de reis é os três Reis Magos do oriente (Belchior, Gaspar e Baltazar) à procura do Menino Jesus para fazer uma adoração.
o mestre rima os nomes das pessoas. Por exemplo, se eu for agradecer uma esmola do Sebastião:

Santo Reis desceu do céu
sobre você pôs a mão.
É com prazer que agradeço
o presente de Sebastião.

É uma rimação improvisada na hora. Ao chegar na casa da pessoa, o mestre faz uma chegada e na, hora de sair, faz um agradecimento com rimação:

Despeço da nossa bandeira
do Filho de Nossa Senhora.
Vocês ficam aqui com Deus
e com Deus nós vamos embora.

Nesse tempo de folia, mudou muito a população.
Antes aqui tinha duas festas de reis num dia só, cada
uma tinha umas 60, 70 pessoas. Hoje tem uma festa
só, mas ajunta em torno de 1,5 a 2,5 mil pessoas.
A população do bairro aumentou e vem gente de
cidades vizinhas.

O ritual continua o mesmo, só que há uma decadência, as pessoas mais novas de hoje não se interessa muito como as de antigamente. As pessoas mais antigas Deus já levou.”

Dança de São Gonçalo

“Eu comecei a dança de São Gonçalo na casa de uma senhora devota aqui do bairro, que infelizmente
já faleceu. Ela fazia dança de São Gonçalo, chamava o cantor, às vezes ele tava ocupado e aí ela chamava o Pagodinho para fazer a dança. A gente fazia meio atrapalhado, meio certo.

Com o decorrer dos tempos, a gente se aperfeiçoou. Eu comecei a cantar com o falecido
Gonçalo, como ajudante – Que Deus o tenha! Aí sobrou para o Pagodinho cantar na frente. Arrumei
outro parceiro e a gente canta a dança de São Gonçalo até hoje.

Que eu me lembro, desde os meus 7 anos existe esta dança aqui no bairro. Tem uma pessoa que puxa
e a outra que ajuda. Uma faz a primeira voz e a outra, a segunda. o resto das pessoas aprende na hora. o mais antigo que fazia esta dança aqui era o Vicente Arvelino, tio da minha esposa, também já falecido.

A dança é feita por uma promessa. Às vezes a pessoa tem uma dor de braço, uma dor de perna…

Então, a fé faz com que a pessoa convide o Pagodinho para fazer a dança. A dança é feita por várias pessoas: 20, 30… faz uma fileira à direita, outra à esquerda, conforme uma dança de quadrilha e cantam nove versos diferentes e nove voltas diferentes. Se começa com o terço e encerra com o beijamento da imagem de São Gonçalo. Dos dois lados do altar existe um copo de pinga, um à direita, outro à esquerda. E cada dançante faz o sinal da cruz e móia a garganta com um pouquinho de pinga, que é um ato de fé. Esta pinga era considerada remédio nos tempos se São Gonçalo.

Por que São Gonçalo? na Bíblia eu não descobri, mas outras pessoa me disseram que São Gonçalo era cantor. Era pobre, cantava e dançava em casas de prostituta. Ele se arrependeu e fez uma sandália de pau com pregos de ponta pra cima, calçou a sandália e ia cantando para que o sangue vertesse, para que Deus tivesse pena dele e perdoasse seus pecados.”

Via-Sacra campal

“A Via-Sacra é feita em 14 estações. A primeira é feita dentro da casa da pessoa e as outras são no campo. As pessoas vão estação por estação contemplando… E , ao voltar da última estação, volta cantando a ladainha de nossa Senhora, de onde faz o oferecimento da Via-Sacra. o dono da casa também oferece um café com biscoito ou broa, um chá.

Antes acontecia todo domingo da Quaresma, mas agora acontece somente na casa do senhor Arvelino Candinho. não tem um caminho definido. A gente vai fazendo um caminho em zigue-zague.”

Recomendação das Almas

“É feita também na Quaresma. o grupo é formado por cinco componentes, são cinco vozes. o único instrumento é a matraca. A gente chega nas casas das pessoas em silêncio, toca a matraca, o pessoal da casa já sabe que são as pessoas que vão rezar para as almas. Reza nove Padres-nossos, nove Ave-Marias pra almas santas e benditas, pra almas do purgatório, pra almas de nossos defuntos, pra almas pobres cativas – aquelas pessoas escravas, que morreram de judiação –, pra almas que não têm ninguém por si, indigentes que morreram pelo asfalto.

Nós não rezamos em número par de casa. Sempre terminamos a reza depois de passar por um número ímpar de casas. São coisas antigas, tradição, não sabemos explicar.
o começo:

Alerta, alerta, pecadô,
se tá dormindo,
se tá acordado,
veja que Deus não dorme
pra perdoá nossos pecados…

Aí a gente pede cantando. na hora de rezar é em silêncio. Todo mundo fica quietinho, só no pensamento. Rezou, pede mais. E a família que tá em casa reza também em pensamento.

Antigamente, todos permitiam rezar pras almas. Hoje, a população mudou. Existem muitos chacareiros que não conhecem este ritual.

Antes, não existia luz elétrica. Quando tocava a matraca, se existia luz de lamparina, apagava a luz. não podia abrir a porta, nem janela.

Depois que terminava a reza, o dono da casa, se tivesse um prato de bolinho, um bule de café, ele chamava o pessoal e deixava no alpendre ou na janela. o pessoal comia em silêncio e ia embora. Hoje modernizou, quando acaba de rezar, o dono da casa convida pra entrar.”

Canto de trabalho

“O mutirão é formado por 30, 40 pessoas. As pessoas trabalhavam no seu serviço e depois iam pro mutirão. E capinando formava um grupo de cinco pessoas que cantavam no mutirão. Quem tava cantando não fazia o serviço benfeito não; ficava sempre uns matos pra trás. Era uma coisa muito divertida, hoje não existe mais. Deixou saudade.

Os versos eram improvisados na hora:

Meu amigo, meu irmão
com certeza vai chover.
Se tivé um gole da pinga,
traga lá pra nós beber…

Não me lembro do último mutirão que houve. A enxada foi para a cidade. o servente de pedreiro é
o homem da enxada da roça. E na roça, em vez de enxada, o trator. Inverteu.”