Vozes múltiplas, histórias singulares
Festas e rituais

Sô Agostinho, o raizeiro que recebeu um presente divino

A infância, o avô e o livro das plantas

“Eu nasci aqui em Campo de Calda, lá chama Ponte Alta, município de Espírito Santo do Dourado [MG]. Fui criado na fazenda, tirano leite, carreano, tropeiano e trabaiano na roça. Minha infância foi até divertida; eu gostava de caçá passarinho com bodoque. Desde os 7 ano eu já trabaiava, fazia comida pros camarada… Não fui na escola. Meu pai justô uma professora particular que ia lá em casa.
Fiz até o quarto ano primário.

Meu avô Júlio Moreira era português, era médico de planta, veio estudado de lá. Aqui no Brasil não quis seguir a carrera de médico, virou fazendeiro.

As pessoa ia na casa dele procurá remédio dessas erva, que são 443 planta de cura. Ele tinha que buscá essas planta na natureza.

Eu não conheci o meu avô, só depois que eu casei é que meu tio, João Júlio, me entregô o livro. Eu nem sabia que ia usá um dia. Então, eu fui estudá o livro do meu avô. Eu queria aprendê a cura pro meu fio que tinha bronquite e descobri que o que cura bronquite é o resíduo de uma árvore, chamada mescla. Eu fiz uma promessa: se meu fio sarasse, eu ia fazê o remédio de bronquite de graça pra criança com até 7 ano – e tô cumprino a promessa. No livro do meu avô tinha as figura das planta, e eu tinha um primo que conhecia quase tudo de planta. Tive a ajuda do meu tio tamém, o João Júlio.”

Receituário de um raizeiro

“Aí então fui fazeno otros remédio. Aprendi que pra curá úrcera na perna, tem que usá pomada de barbatimão. É o melhor antibiótico do mundo.

A flor de cipó-de-são-joão, curtida na pinga, vira uma massa pra tirá mancha da pele.

Pra variz, é castanha-da-índia. Pra dor muscular, tem que fazê um remédio com cânfora e conservá na geladera; argila tamém é bão. Põe a argila na panela com um poco de água e hortelã, faiz um angu e põe em cima da dor com um pano.

Pra ferida, faiz um chá de casca de barbatimão e lava o machucado. Pra matá piolho, usa a semente do araticum. Ocê maceta, faiz aquela pastinha e passa na cabeça. Pra psoríase, junta flor de cipó-de-são-joão com álcool, põe num vidro de boca grande e enterra por 30 dia; depois, passa na pele e tira tudo as mancha. Curei muita gente disso.

Às veiz, chega uma pessoa aqui com probrema de rim e eu falo que tem que tomá a salsaparrilha. Aí eu arranco a raiz lá no mato e dô pra pessoa levá.

Agora eu não mexo mais com planta, tô velhinho [risos]. Antes tinha que ralá as raiz pra fazê os remédio, era difícil. Um sobrinho da Iolanda [sua esposa] tem um laboratório em Poço Fundo [MG] e tá fazeno os remédio. Eu passei o livro do meu avô pra ele. Ele faiz os comprimido e as pomada e manda aqui pra Iolanda vendê. Eu não vejo dinhero, nem sei quanto custa.”

A aparição da santa

“Aparecia uma santa aqui no alto da serra de São Domingos [município de Congonhal, MG], a Nossa Senhora da Obediência, e o rapaz que via a santa é primo meu, o Arfredo. Os padre queria recebê as mensagem da santa, mais não conseguia. No último dia da aparição dela, eu pedi pros meus fio levá a Iolanda pra São Domingos e eu fui pra Pouso Alegre.

Cheguei na casa da minha cunhada, a Olívia, deixei o carro lá e fui andá no centro da cidade pra fazê negócio. Vortei e encontrei com a Olívia na esquina. Quando eu liguei o carro, a Olívia apontô de vorta e falô que tinha comprado um vestido pra Iolanda dá pra alguma pobrezinha aqui da roça. Então, eu pedi pra ela colocá no banco de trais do carro.

Saí de Pouso Alegre e vim cuidá dos bezerro. Quando cheguei, perguntei pra Iolanda se eles não tinha ido pra São domingos e ela respondeu que não tinha conseguido chegá lá. Quatro quilômetro antes de chegá na igreja tava lotado de carro. Eu contei que a irmã dela tinha mandado um vestido e que era pra ela pegá. Então, ela veio e falô que em cima do vestido tinha um presente e perguntô de quem era. Eu falei que não tava sabeno. Quando eu fui vê, era uma santa. Aí falei pra ela guardá a santa e ligá pra Olívia, que não deu notícia dessa santa. Eu não dei carona pra ninguém, não entrô ninguém no meu carro, nada.”

O início dos benzimentos

“A Iolanda guardô a santa e não contô nem pros fio. Quando foi Sexta-Feira da Paixão, veio as minha irmã aqui rezá terço e a Iolanda contô pra elas. Foi lá, pegô a santa. Todo mundo que pegava ela chorava. Aí minha irmã mais véia, que hoje já tá bem doente, falô pra mim que a santa veio pra me ajudá a benzê as criança. Eu respondi que não sabia benzê.

Então, eu chamei o padre Pedro, que tava aqui na Praia [Espírito Santo do Dourado]. Ele é de Aparecida. Ele veio e benzeu a santa e pediu pra mim ficá com ela aqui. E, de repente, eu comecei a escrevê a história da vida dele. Eu pus os óculos e saí fora de mim e quando eu vortei não lembrava de nada. Aí, o padre falô pra mim ficá e tratá do povo: ‘Ocê não mexe com planta? Então fica aí procê benzê o povo’.

Então, eu perguntei de que jeito que eu ia benzê e ele respondeu que era pra mim rezá aquela oração que eu fiz pra ele. Aí começô meus benzimento.

Um dia os padre mandaro o Arfredo falá que jeito que era a santa que aparecia pra ele lá na serra. E eles mandaro fazê a imagem dela, e ela saiu igualzinha a que apareceu no meu carro. Eles não tinha a imagem dela ainda.

Eu nunca vi a santa e ela nunca falô comigo tamém. Ela me dá o dom de sabê o que ocê tem.

Meu benzimento é assim: eu óio pro nome da pessoa que chegô aqui desenganada por médico. Aí eu falo que o probrema dela não é esse que o médico falô. A pessoa sai daqui curada e os médico fala que é milagre. A Iolanda tem uma irmã que é frera lá em Campos do Jordão [SP]. Ela tava com câncer no seio. Aí truxero ela na fazenda, eu benzi e ela sarô, não tem mais nada. Se ocê escrevê seu nome aqui com o dia que ocê nasceu e eu proseá com o Pai lá em cima, eu sei qual o probrema seu.”

O dia a dia de um benzedor

“Uma veiz veio uma muié de Tremembé [SP] aqui com uma úrcera na perna. Eu falei pra ela que ia curá aquela ferida, ela não acreditô e falô que já tava froxa de ir em médico. Eu passei um remédio pra muié e ela sarô e espaiô pra Tremembé intera. Aí veio gente de Aparecida [SP], Lorena [SP], de todo lado.

Em Caçapava [SP] foi operada uma moça e foi tirado um pedaço do intestino dela. Quando ela chegô na fazenda do pai dela, ele pois ela pra tirá leite e aí estorô a operação. Era 8 hora da noite, ela entrô no hospital. O médico abriu ela, mandô pro CTI e falô pra mãe chamá a família, porque ela não ia sobrevivê. Ligaro pra mim 2 hora da madrugada, eu tava meio dormino e falei que ela não ia morrê não, porque a Nossa Senhora tava ali pertinho e ia curá ela.

Aí o médico pegô o telefone e falô: ‘Oh! Minero, eu quero vê esse milagre!’. E eu falei: ‘Eu não faço, mais a Nossa Senhora faiz’.

No otro dia o médico chegô no quarto dela e ela tava sentada junto com a enfermera no CTI. Ele saiu correno pegô a máquina e tirô retrato dela e falô: ‘Quem vai cumpri a promessa é nóis, eu vi a promessa que ele feiz e vô cumpri’.

No dia que eles foram entregá o retrato lá em Aparecida, o médico veio com a moça aqui, entrô por essa porta aí e trouxe o retrato pra mim. Então, a Nossa Senhora mostrô o milagre.

As pessoa que vem aqui são pessoa que tão precisano de oração e de ajuda. Vem todo tipo de pessoa, as que têm dinhero e os pobre tamém. Eu não tô aqui pra ganhá um tostão.

Eu tiro 4 dia da semana pra atendê o povo – de quarta a sábado. Eu não tenho noção de quantas pessoa eu já atendi.

Eu não sei como a Igreja me vê, eu não tenho contato com padre daqui. Eu tenho amizade com os padre de Aparecida. É lá que vô assisti missa. Fico quietinho falano com o Pai.

Tem gente que fala que eu sô feiticero. Eu vim da parte do Espírito Santo, não vim da parte do demônio. Faço tudo por amor e nada por obrigação.”

Agostinho Muniz, 75 anos, mora no Sítio Paraíso, município de Espírito Santo do Dourado. Entrevista realizada em sua residência, em 11 de outubro de 2009