Vozes múltiplas, histórias singulares
Festas e rituais

Sô Felipe, fragmentos da lembrança de um congadeiro

“Nasci na fazenda do Bilico em São João da Mata [MG]. Aprendi a ler na escola da fazenda. De lá nós fomo pra Santana [antigo nome de Silvianópolis, MG] e daí ficava um tempo num lugar, depois ia pra outro.

Meu pai era colono de fazenda. não fartava fazendeiro pra chamá. Meu pai chamava João felipe e era um home bão pra trabaiá. Minha mamãe, sá Rosária, era muito sacudida tamém.

Meu avô Teodoro tinha um terno de moçambique, meu pai participava do terno dele, mas eu não cheguei a participá. Mocambique é diferente da congada, a batida é diferente, até os uniforme é diferente.

Meu pai também dançava no terno do ferreirinha, que era lá de Poço fundo [MG]. Depois meu pai montô um terno de congo em Santana e desde menino eu ficava batendo lata atrás dos congadeiro.

No terno de congo do meu pai participava a família inteira. Só que não participava muié. Era só home e era tudo negro. Depois de uns tempo, é que foram aparecendo os branco. Tinha arguns que era bão de lidá com eles.

Minhã mãe ajudava: lavava as ropa, fazia uma comida.

Era uma congada muito boa. noís participava da festa do Rosário de Santana. na festa ajuntava muita gente, tinha muita fartura. o povo da cidade dava casa pro povo da roça ficá. Vinha muita gente de fora tamém. Tinha mais terno de congo e era tudo diferente: hoje cada um veste de um jeito e bebe muita pinga.

O terno do meu pai durou enquanto ele foi vivo. Depois eu ajudei o sô nende a fundá o terno dele. Ele era meu amigo e cumpade.

O sô nende é de Poço fundo tamém. Quando ele vinha pra festa do Rosário de Santana é que começou a mistura. Depois ele veio morá aqui. Já morreu e, depois disso, eu não quis mais participá de congada.

Pra formá um terno de congo tem que tê orde. Hoje tá uma porcaria de uma cachaçada.

Já vão dançá tonto. naquela época não tinha; a gente até bebia uma pinguinha, mas era pouco. Hoje
o povo faiz o que qué. Eu larguei mão por causa disto tamém. Eles só querem fazê folia.

Congada tem que tê respeito, porque dança pra nossa Senhora do Rosário.

Ah! Eu tenho saudade daquela época. Tem muitacoisa pra lembrá, mais… É só isso aí que eu lembro.

Agora eu espero a chamada do Pai lá de cima. Eu acredito que vou encontrá meus parente, meus amigo…”

Homenagem aos congadeiros sô Felipe e sô Nende
“São seres encantados, homens de fé, guerreiros. Alegram-nos, comovem-nos e nada pedem, só pelo gosto de ser, de viver feliz de contentamento. Quando falamos com eles ou simplesmente os observamos na peleja dos seus rituais, sentimos um quê de sagrado, de profundo. Embriagamo-nos numa convulsão de sentimentos bons, como se a vida fosse uma coisa de melhor, uma coisa mais branda, uma coisa assim, bem de gente humana.” (Ana Beraldo)