Vozes múltiplas, histórias singulares
Festas e rituais

Vita, a vida com as cores e o batuque da congada

Infância sofrida

“Eu nasci e me criei no bairro fazenda dos Coqueiro, do Senhor Jovino Cândido, município de Espírito Santo do Dourado. Cresci ajudano minha mãe a criá meus irmãozinho. Quando eu tinha 13 ano, minha mãe ganhô nenê e ficô doente e eu fiquei zelano dela e da criança. Quando eu peguei uns 14 ano, eu fui ajudá meu pai na roça.

Na minha infância nóis brincava de boneca de pano e de fogãozinho, mais brincava poco, porque tinha que trabaiá. Minha mãe ensinô nóis a fazê o serviço de casa e a rezá. Ela era muito boazinha, não era brava não. Mais se nóis saía e demorava pra vortá, apanhava.

Nunca fui na escola, não sei lê. Minha vida foi muito sofrida e corrida, passei muita necessidade. nóis vinha poco na cidade, meu pai não gostava muito. Mais uma veiz nóis viemo na Festa do Rosário e aí eu vi uma congada pela primera veiz.

Nóis viemo a pé, porque nem caminho de carro tinha. Punha o sapato no borná, chegava na ponte da entrada da cidade, limpava o pé e punha o sapato e, na hora de ir embora, tirava o sapato de novo e ia descarço. A ropa era de saco.

Já fui umas par de veiz em Aparecida do Norte. Nóis ia de caminhão e ficava lá de rancho. Era uma casa grandona e os romero ficava tudo lá e cozinhava no fogão de lenha. Nóis chegava num dia, faiava um e vortava no otro.”

A vida de casada

“Com 17 ano eu casei e fui continuano o serviço na roça, junto com o meu marido.

Conheci meu marido porque nóis era vizinho. Nóis plantava feijão e mio. Ele era retirero, levantava 3 hora da manhã pra tirá leite e eu ficava cuidano das plantação e dos fio. Quando eu ia apartá bezerro, pegava um cavalinho que eu tinha, punha dois fio dentro do jacá e mais dois do otro lado, levava um no colo e depois ia ajudá meu marido na rocinha dele. De tarde nóis ia embora. Nóis era colono nessa fazenda e essa rocinha era de a meia.

Depois de uns tempo, nóis fomo trabaiá na fazenda do senhor Lalá e da dona Doroteia. Eles era bão demais. Então nóis pudemo comprá uma casinha aqui na cidade. Agora que miorô um poco, meu marido morreu e tá seno difícil vivê sem ele.

Eu gostava dum forró. Quando eu perdia um forró, eu sentia muito. Tinha forró perto da minha casa, lá na fazenda, e o meu marido ia tamém. Mais aí a fiarada foi aumentano e foi ficano difícil.

Eu tive 12 fio, quatro morreu pequenininho e um morreu com 32 ano.”

Congadeira e festeira

“Quando eu vi congada pela primera veiz, eu gostei muito. Já dancei muito nos terno de congo, no terno do sô Felipe lá de São João da Mata [MG], mais depois que eu casei larguei mão disso. Tá loco!

Nóis ia dançá o congo em Santana [Silvianópolis] e aqui na Praia [Espírito Santo do Dourado]. A ropa da congada era tudo branca, eles jogava uma capona nas costa e amarrava no pescoço.

Na congada só tinha negro. E eu vou falá verdade! Os moreno sabe chacoaiá bem mais que os branco. Presta atenção procê vê: a congada dos preto pula muito mais que a congada dos branco. Os preto tá suano, pingano e não entrega, nunca vi! Os moreno são forte no batuque!

Hoje eu não danço, mais faço a festa do congo pra cumpri uma promessa que eu fiz pra São Benedito. Primeramente eu marco a data da festa, aí pego meu caderno e saio pra pegá assinatura do povo que vai dá as prenda. Depois vô na delegacia pra tirá o alvará da festa. Aí, depois que eu peço o ajutório, eu passo de vorta pra arrecadá.

A primera festa que eu fiz, eu morava na roça ainda. Já faiz 24 ano. Naquela época saía bezerro, leitoa e frango; era umas esmola boa. Eu saía a cavalo pra pedi as prenda. Agora eu vô a pé e às veiz pego carona na estrada. Às veiz escurecia e eu tava pras estrada ainda.

Quando eu chegava em casa, o povo tava dormino, meu marido tava de cara feia e já tinha comido e não tinha deixado nada pra mim comê. Aquilo dava um desânimo ni mim! Ele não gostava que eu andasse pra pedi esmola pra festa. Mais no otro dia eu tava naquele batido de novo.

Já fiz quatro festa aqui na cidade com bastante terno de congo. Já troxe duas companhia de Santos Reis tamém. A última festa tinha dez terno de congo. Vem terno de congada do sô Felipe, do seu Nende, de Machado, de São Gonçalo, de Turvolândia, de Ipuiuna. É muito divertido, eu gosto de mexê com festa.

A primera festa foi pra cumpri promessa, mais agora eu faço porque eu gosto memo! Já alcancei muitas graça de São Benedito. Ele é poderoso e milagroso.

Os doce da festa eu faço aqui no meu terrero memo! Tem doce de abóbora, de cidra, de casca de laranja. Dá umas 45 lata de doce. A festa começa na sexta e vai até segunda. Quando eu vô fazê os doce, enche de gente aqui no meu cantinho pra ajudá a descascá as fruta.

Meu neto fundô um terno de congada e, como eu gosto, dei apoio pra ele. Meus neto dança nos terno de congo. Eu tenho seis neta e oito neto dançano no terno de congo.

É tudo da família. A ropa do terno, eles ganharo do prefeito daqui da Praia [Adalto Luís Leal, prefeito de Espírito Santo do Dourado] e os instrumento, meu neto comprô.”

Outras alegrias

“Eu gosto demais de festa e de trabaiá na roça tamém. Semana que vem eu vô vê se arrumo um serviço de quebrá mandioquinha. Não é só arrancá não, ocê tem que quebrá e pô nas caixa!

Otra coisa que eu gosto tamém é de brinco, colar e anel. Eu sô pió que cigano! Mais a minha alegria memo é ouvi o batido do congo e de folia de reis.

Uma veiz morreu um primo meu e eu fui no velório, tava todo mundo chorano e eu tamém. Ele morreu no dia 5 de janero e nóis fomo pra Igreja de Santo Antônio [em Pouso Alegre] na missa desse primo. Aí passô uma folia de reis lá de Poços de Calda e tava aquela choradera. Quando eles dero uma batida naquelas caixa e uma arranhada naquela viola, minha tristeza foi embora. Larguei o povo chorano, saí quietinha escondida da minha tia e fui vê a folia de reis.

É muito bonito aquilo, uai! E a coitadinha da muié pensano que eu tava ali chorano e eu já tava lá veno a folia de reis cantá.

Agora eu tô ficano cansada. Então, o ano que vem vai sê a última festa de congo que eu vô fazê. Vô deixá pros neto tomá conta. E peço a Deus que a congada do meu neto continue bonita!”

Maria Vital de Jesus, conhecida por Vita, 67 anos, mora em Espírito Santo do Dourado. Entrevista realizada em sua residência, em 11 de outubro de 2009