Vozes múltiplas, histórias singulares
Festas e rituais

Zé Brasileu, memórias de um folião de reis

“Sou do dia 22 de novembro de 1927, nascido e criado no bairro do Picadô, em Silvianópolis. Tenho pouca leitura, só aprendi até a quarta série, com muita dificuldade. Precisava andar 5 km de casa até a escola no bairro do Santo Amaro. Então, consegui aprender um pouquinho e que tanto me serviu e tem me servido. Até a idade de 33 anos morei no Picadô, depois mudei para Silvianópolis, morei mais 14 anos lá e depois vim para Pouso Alegre. Aqui já tô com 34 anos.”

Vestir a farda aos 17 anos

“Eu acompanho folia de reis desde os 10 anos de idade. Meu pai também gostava; então, eu saía com ele. Tinha muita inclinação, gostava demais. Com 13 anos, eu já era folião. Puseram eu para tocar uma caixa. Dei certo naquela posição. fui tocando caixa até a idade de 14, 15 anos. Depois, eu peguei a tocar viola e comecei a cantar cinco vozes, seis vozes. Com 17 anos, comecei a vestir a farda de palhaço. Muitos falam ‘bastião’, outros ‘marujo’. nós falamos ‘palhaço’.

A folia – também fala ‘companhia’ –, mas o nome certo que está no livro é ‘folia de Santos Reis’. Então, a gente vem vindo cantando e vestindo de palhaço.

Lá no Picadô tinha folia e nos bairros vizinhos também. no Sítio, tinha duas, no Santo Amaro, na fazenda do Antônio Palma… Todo lado tinha. foi acabando o povo, que foi mudando por motivo de serviço. no Picadô hoje não tem quase ninguém.

Meu primeiro mestre foi o zé Mizael Coutinho,
o segundo foi o Messia Varisto, depois o Geraldo Alves, do Picadô, com quem aprendi mais. Ele tinha um primo que o sogro dele era o Chico Cafureti, o melhor folião do sul de Minas. Ele não era bom pra cantar, mas tinha todo o livro do fundamento. Eu peguei uma cópia, onde comecei a aprender. Acabei de aprender com o livro que eu ganhei agora, é o livro que mais ensina.

Lá no Picadô, a folia saía dia 25 de dezembro e chegava no dia 5 de janeiro. E a festa de Santos Reis era no dia 6. nós pedia comida para a folia nas casas, tinha casa preparada todo o ano. na casa do meu pai deu muita comida. lá em casa também, toda folia que passava, dava comida. onde posava a bandeira, posava algum folião. os que morava mais perto vinham dormir em casa. no outro dia, tirava tarefa e pegava na folia meio-dia, uma hora e ia até meia-noite. Hoje por motivo das pessoas estar trabalhando, mudaram tudo pra cidade, é empregado, então, só pode cantar fim de semana.

Todos os folião tem um detalhe, tem uma posição, tem um ou outro que tem peito melhor, canta melhor, tem um que toca melhor. Mas todo folião, que é devoto dos Santos Reis, para mim são todos iguais. não tem um melhor que o outro. o livro ensina, mas o talento, o modo de pensar, o modo do folião agir é de uma maneira. Você pode pôr aí 50 folião, ninguém bate igual.”

O que faz um palhaço ou bastião?

“O palhaço é o guarda da bandeira. Ele tem três detalhes de posição. Quando ele sai com a folia pra visitar os devotos, ele é o guarda da bandeira, é o que põe respeito na companhia.

Quando chega no presépio, os dois palhaços fazem o outro papel de duas pessoas: Arábio e Agabe. Agabe era pretendente de Maria, queria casar com Maria, antes dela assumir compromisso com José. o outro era viajante, transportava mercadoria de um país para outro. os dois se encontraram e foram visitá o Menino Jesus, mas nesta hora nossa Senhora tinha tirado o Menino da manjedoura para acompanhar os três Reis Magos até a saída da lapinha. Então, eles não encontraram Jesus, beijaram a palha e ficaramabençoados. É por isto que em algumas folias, os palhaços não beijam o Menino Jesus. na nossa, beija.

O palhaço que comanda a companhia. Quando chega numa casa, o dono da casa vem encontrar.

O palhaço fala:

‘Com licença, patrão!’
‘Pode chegar, palhaço!’
‘Ah, patrão, saímos pra viajar com esta bandeira
que é de nossa tradição sagrada. nós queremos saber se é do desejo do senhor receber nossa bandeira e os folião?’

Se o dono da casa for devoto, diz:

‘Entra pra dentro, palhaço! Vamos cantar!’

Esta é a função que o palhaço faz. Aí o palhaço pede esmola:

‘Estamos fazendo uma festa e dependemos das pessoas devota. Queremos ajuda do senhor pra nós festejar Santos Reis. Pode ser da boa vontade do senhor, pode ser uma prenda, pode ser dinheiro, pode ser um garrote, uma leitoa. o senhor é que manda, patrão!’

Cada oferta que o dono da casa dá, o palhaço marca num papel. no livro fala que o palhaço tem direito de pedir esmola só duas vezes, depois é a vontade do patrão. o palhaço faz brincadeiras, pula, dança. Antigamente era para as pessoa não conhecer, era um segredo. Hoje não é segredo.

O certo da folia é 12 pessoas. não importa o número de acompanhantes, pode ter reserva também. São: um bandeireiro, o caixeiro. Esses não cantam. na cantoria é o mestre, o contramestre, o contrato, a quarta voz, a quinta voz, a sétima voz e o sanfoneiro e os dois palhaços.

Até agora participo da folia de reis quando farta um palhaço, um contramestre. na frente, eu não canto mais, porque tem muitos que cantam na frente, mas pra vestir de palhaço ainda não tem.

Os novos não tão querendo esta parte. numa folia de reis é difícil ver um, dois jovens, o resto é tudo velho. Eu participo da folia que me chama, participo mais da dos fernandes [bairro de Silvianópolis], que tá no livro que escrevi. Tem mais colega que começamos juntos.

Já ensinei muita gente. Meu neto Rafael é do meu coração. Dá umas orientação que a gente às vezes não teve. Eu passo também muita coisa pra ele, que é estudado. Ele sabe receber as coisas que a gente fala.”

Folia de ontem, folia de hoje

“Parece que não mudou nada. o que mudou foi que de primeiro tinha muita rapaziada nova, hoje quase não tem. Então, nós vamos fazer esta entrevista, o livro como eu fiz e esparramei pra vê se a gente põe tudo no lugar outra vez. Se não, acaba. não pode acabar.

É uma tradição deixada por Deus. Deus enviou seu filho pra salvar o mundo. os três Reis Magos tinham
o desejo de adorar Jesus, estudaram o livro sagrado e esperavam que Jesus vinha pra salvar o povo. Eles tinham aquele desejo e Deus deu poder para eles. Chamou eles, avisados por uma estrela e eles acompanharam aquela estrela e foram ver Jesus. Eles levaram grandes presentes.

Aí os peregrinos fizeram a companhia de reis. E o presépio também é a semelhança do nascimento que chega na noite de natal e vai até 6 de janeiro, época que os três Reis viajaram. nós fizemos esta
semelhança para imitar os três Reis, a folia de reis, inventada pelos peregrinos. os próprios peregrinos trouxeram o cativeiro. os donos de fazenda eram muitos religiosos e davam 15 dias de férias para fazer a festa. Eles cantavam, eles não tinham leitura, não escreveram nada. Quem escreveu foi o patrão deles. Depois com os pesquisadores, embaixadores foram fazendo sua opinião. Eu mesmo fiz a minha opinião neste livro. o palhaço no presépio ajoelha e diz:

Aqui está este presépio
semelhança do nascimento
porque é da obrigação do embaixador
contar os fundamento.
O aviso foi pelo anjo que desceu em Nazaré
foi avisá a Virgem Maria, esposa de São José.
Maria, muito assustada
pra ela, o anjo falou: ‘
‘Você foi a escolhida pra ser mãe do Salvador’.
(…)

Se eu tenho saudade daquela época? Para mim, até representa num sonho tudo aquilo que passou, porque a gente era mais novo, tinha mais saúde, escutava melhor, falava melhor, cantava melhor. Tudo é bom quando é mais novo.”

José Cecílio de Camargo, conhecido por Zé Brasileu, 82 anos, mora no bairro Nossa Senhora Aparecida, em Pouso Alegre.Entrevista realizada em sua residência, em 7 de setembro de 2009