Vozes múltiplas, histórias singulares
Festas e rituais

Zé Messias, relatos de um pregoeiro e benzedor

Família

“Sô filho de Poço fundo [MG]. Minha mãe morreu quando eu tinha 9 ano e fui criado na lavora ajudano meu pai. Depois de 5 meis, meu pai casô de novo e a madrasta não gostava de mim. Então, cresci na casa dos parente e dos colega.

Casei com 20 ano e já tô com 62 ano de casado. Em 1949 eu mudei pra Passa Quatro, município de Espírito Santo do Dourado, e lá eu morei 25 ano. Depois mudei pra Pouso Alegre e vim morá aqui no Santo Antônio.”

O pregoeiro

“Naquele tempo não tinha quase nada aqui no bairro, era mais pasto, tinha umas casinha véia – uma aqui, otra ali e tinha essa igrejinha aí, que já deve tê uns 100 ano. o largo da igreja era de terra batida.

Quando eu mudei pra cá, a festa de Santo Antônio era assim, enchia de barraquinha, pagava um aluguelzinho pra prefeitura e tinha um leilão grande que durava dois dia. fui pregoero desse leilão por uns 25 ano, junto com o Daniel – ele já morreu.

Essas barraca que tinha leilão… era um leilão muito caro e o problema era esse, porque ninguém pagava. Se a paróquia recebesse tudo direitinho ia tê leilão até hoje, mais ficava tudo no meio do embruio. Depois, o cônego Benedito tirô as barraquinha da rua e ficô só a barraca da igreja.

Aí então não vinha mais os barraquero de fora e com o dinhero do bingo na barraca da igreja, construíro esse centro pastoral. o padre Mauro que acompanhô essa obra aí.

Toda vida fui religioso. Minha mãe e meu pai era católico e sempre participei da igreja. faiz 15 ano que eu sô sacristão aqui no Santo Antônio. Tenho saudade daquele tempo que eu era pregoero, fiz isso uns 40 ano. Comecei lá em Passa Quatro. Já pregoei muito na festa dos Afonso, de São Sebastião e do Bom Jesus tamém.

Teve uma veiz lá na Rinha [sede do Sindicato Rural de Pouso Alegre] que eu cheguei a pregoá 80 bezerro. Tinha que tê cuca boa, porque, se não tivesse, ocê esquecia os lance do povo. nesses leilão, o povo doava muita leitoa, bezerro… Era uma coisera e, quando chegava no fim, dava aquela rendona.

A festa de Santo Antônio era afamada, vinha barraquero de tudo lado. Eu saía cedo pra trabaiá no mercado, tinha que tampá o nariz, porque os barraquero fazia as necessidade no pinico e jogava na rua, não tinha banhero. Tinha barraca que era asseada, tinha umas comida boa, mais tinha umas que não dava pra ir comê lá não.

Vinha muita gente de fora e dava briga demais, teve até duas morte nessa festa aí. Mais tinha muita gente boa tamém, que nem o Pexinho que vendia ioiô. Ele vinha toda festa aqui e lá da praça da catedral, mais ele já morreu faiz tempo. Agora, é só salgadinho aqui na rua; não tem mais que dez barraca. E na igrejinha tem o bingo.

O povo que vinha das roça, aí do Cantagalo e dos Afonso, eles alugava casa aqui na cidade e ficava os dia da festa tudo aqui.

Os festero sai pras roça pedino prenda; às veiz consegue uma leitoa, mais é difícil.”

O benzedor

“Aprendi com meu pai a costurá rendidura. A rendidura é assim, a senhora vai pegá essa vassora aqui e, quando levanta de quarqué jeito, trava a coluna. Com muita fé e com as reza que eu aprendi, pego um paninho branco e vô rezano e costurano treis veiz e tem sido bão.

Eu já fazia isso lá em Passa Quatro. Aí, quando eu mudei pra cá e o povo descobriu, continuei fazeno.

Teve um casalzinho aqui uma veiz, lá das banda da Cruz Alta [bairro rural de Pouso Alegre]. A moça era nova e o marido dela me falô que já tinha gastado muito com médico pra endireitá a muié dele, mais ela não sarava, não conseguia lavá nem um prato e não ficava de pé, só ficava chorano de dor nas costa. Então ele ficô sabeno de mim e veio trazê a patroa dele. Ela saiu do carro chorano de dor, custô pra ela subi essa escadinha aqui. falei que ia costurá na fé de Deus e costurei. Ela saiu, entrô no carro e eu avisei que tinha que sê treis veiz.

No otro dia, eles voltaro na mema hora e parô o carro na otra banda da rua. Ela já saiu andano sozinha, subiu a escadinha e falô que tinha até passado uma água numa ropinha. no último dia ela chegô rino e agradeceno. Eles era bem de vida e pelejaro pra dá dinhero pra mim, mais eu não aceitei e falei que não cobrava. ‘Isso foi uma graça de Deus e de nossa Senhora Aparecida que curô a senhora!’ E falei pra eles ir embora e segui com fé.

Antes, tinha uns cinco aqui que costurava, agora só tem eu. Mais hoje não dá pra abri a porta pra desconhecido não. no meu tempo, ocê acreditava na palavra da pessoa; hoje chega um caboclo na sua casa com uma lábia danada e acaba com a sua vida.

Antigamente era tudo diferente de hoje. os fio respeitava os pai, chegava 8 hora da noite, lavava os pé e ia dormi. Hoje, 10 hora eles tão saino pra rua! Eu criei três fio bem educadinho, sem rolo. Mais esses jovem que tá aí, não dá pra entendê eles não.”

Corpo seco do Santo Antônio?

“Nosso bairro tem história! Até corpo seco o povo fala que tem aqui, no terreno do Custodinho, hoje é do zé Claro. Mas eu nunca vi nada e não acredito tamém. Isso tudo é superstição. Eu acredito em Deus, na fé e na oração. Eu tenho fé e ajudo muita gente com bastante oração.”

José Messias Martins, 83 anos, mora no bairro Santo Antônio, em Pouso Alegre. Entrevistarealizada em 7 de setembro de 2009