Vozes múltiplas, histórias singulares
Festas e rituais

Zé Raimundo da Congada, memórias de um congadeiro

Os mestres

“Sou de Santana [Silvianópolis, MG], nasci em 1945. Fui criado com minha vó e o meu tio até a idade de 10 ano. Nessa idade, fui morá com a família do sô Felipe na fazenda do Júlio Beraldo, na Água Limpa [bairro rural de Silvianópolis].

Ali começou minha vida na congada. A gente morava na fazenda, mas vinha ensaiá na cidade. Também saía a pé pra ensaiá em Turvolândia [MG]. Aprendi tudo de congada com o sô Felipe e o sô Nende. O sô Felipe era o cabeça da congada; antes era o pai dele, o João Felipe. Quando eu era moleque, cheguei a trabaiá de ferrero com o sô nende, onde também aprendi. A mãe do sô Felipe, sá Rosária, foi minha terceira mãe. Primeiro, a minha mãe; depois, a minha avó. Ela me dirigia. Se eu tenho educação hoje, foi ela que me deu.”

Vivências

“Dos meus 7 aos 14 anos, eu fiquei no congo; depois, comecei a andá. A maior parte eu trabaiei em Belo Horizonte [MG], também morei em Itajubá [MG].

Em 1961, fui trabaiá em Betim [MG]. Não deu certo. Vortei. fui mexê com caminhão. Dei uma farta de sorte… Quando fartava um mês para eu tirá carta, eu levei uma trombada de caminhão lá em Resende, estado do Rio. Perdi uma perna, tinha 20 anos. Se eu não tivesse sofrido acidente, era pra mim estar com um caminhão hoje. Eu gosto de um caminhão.

Casei. Fui um pingaiada danado! A hora que vi que a coisa tava feia, parei de bebê. Louvado seja Deus! Nossa Senhora do Rosário, São Benedito me abençoou. Consegui construir uma família. O povo me ajudou muito, o dotor Dornelas, o Celestino…

Fui tintureiro, fui sapateiro, fui engraxate. A madrinha Dalva montou uma banca de revistas pra mim, mas não deu certo.

Em 1979, formaram a Congada Nossa Senhora do Rosário, a congada do sô Nende e do sô Felipe.
O dotor Edelweis e a dona Carlina falaram pra mim entrá no terno de congo, mas eu não quis entrá. Nessa época, já tinha perdido a perna. Depois, o Dito, filho do sô Nende, falô pra mim entrá no congo. Daí ele falô com o pai dele e o sô felipe e colocaram eu de meirinho no terno de congo.

Na África, o meirinho manda no território, né? Daí comecei. Em 1981, me tiraram do terno de congo. Alegaram que eu tava mandando demais.”

Nasce a Congada São Benedito

“Pensei: Vou saí do terno de congo, vou montá uma associação e um terno de congo. E assim nasceu a Associação de Congada e Banda Típica e Folclórica Santana do Sapucaí e a Congada São Benedito.

O dotor Paulo me ajudou muito, o Celestino fez o estatuto, o Homero do sô Alfredo me deu instrumento. O Tiãozinho, professor de educação física, me deu uma caixa de fanfarra que eles não usavam mais, coloquei couro de cabrito. Breganhei uma zabumba todinha de metal que estava no terno do Bendito Amerco [antigo mestre de terno de congo em Silvianópolis] com um rapaz em troca de um conserto de sapatão. Comprei um banjo do zé Martinzinho, de Turvolândia, eu mesmo fiz os tamborim de quadrado de tábua.

Ganhei uma verba de um deputado pra comprá um piston pra mim tocá. O João Vito ensinou a escala pra mim; o resto aprendi sozinho. E assim foi… o povo me ajudou muito.

O primeiro ensaio foi no dia 11 de setembro de 1983. o primeiro batido que deu, eu suava frio de nervoso. Começamo com pouquinha gente: 16. Ensaiamo na rua.

Eu falei pra turma: ‘Vamo lutá aqui, que no ano que vem nós vamo em Aparecida do Norte’.

No outro ano, nós fomo apresentá na Festa do Rosário de São João da Mata. A turma era pequena, mas tava afiadinha. Com a ajuda do povo, fomo em Aparecida do Norte em 84 e, em 90, fomo novamente.

Todo ano, a congada participa da Festa do Rosário de Silvianópolis, também vamo participá das festa da região: Careaçu, Turvolândia, Espírito Santo do Dourado, São João da Mata, Jesuânia, Heliodora… Em Pouso Alegre, nós já fomo uma vez apresentá na Faculdade de Medicina junto com o artista Marcos frota. Já fomo participá da festa de Bom Jesus dos Perdões [SP], e em outros lugares… A gente dança com 30 até 55 pessoas. Terno de congo tem artos e baixos, às vezes sai gente, depois entra mais.”

Instrumentos básicos

“São: banjo, cavaquinho, violão, viola, treme-treme – instrumento que usa mais para escola de samba –, tarol, tamborim, chocalho, pandero, trombone, trompete…

No início da congada, eu fiz alguns instrumentos, ganhei alguns. Em congada não é comum instrumento de sopro, mas nós usamos. nos ternos de Machado e Lambari [MG], eles também usam. Eu aprendi a tocar trombone para tocar na congada.

Vou apresentar a vocês uma música que a gente toca na congada:

13 de maio
é um dia muito bonito
as congadas se reúne
pra festejá São Benedito.
Ai…ai
Santa Isabel
é uma santa milagrosa
libertou a escravidão
por ser muito caridosa
Ai…ai
E lá vem a rainha
com a bandeira na mão
festejá Santa Isabel
Que deu a libertação.
Ai…ai…

À meia-noite
a festa vai terminando
vamos nós beijá a bandeira
pra voltá no outro ano.
Ai…ai…

Participá da Festa do Rosário de Silvianópolis é muito importante pra nóis. Quando a congada sai pra festa, nós rezamo aqui em casa e, depois, vamo na porta do cemitério, pedimo para as almas ajudá nóis. E ali nós vamo descendo, fazendo a festa para o povo e agradecendo todo mundo por ter ajudado nossa congada.

Vou descendo por aqui abaixo
Dar um passeio nesta cidade. (bis)
Viva o rei, viva a rainha
Viva a nossa boa amizade. (bis)

Eu espero que todos os festeiros que pegam a festa colaborem com as congadas. Eu saí de uma congada, criei outra, quem ganhou foi a cidade, porque hoje tem duas congadas. Até cabe mais uma congada-mirim na cidade.”

José Raimundo Aparecido Viana, conhecido por Zé Raimundo da Congada, 64 anos, mora em Silvianópolis. Entrevista realizadaem sua casa, em 4 de outubro de 2009