Vozes múltiplas, histórias singulares
Festas e rituais

Zete da Recomenda, aprendizado compartilhado

Herança familiar

“Sou conhecido por zete. Sou integrante do grupo Recomenda das Almas e do grupo de Terço Cantado. Sou nascido e criado aqui, em São José do Pantano [distrito de Pouso Alegre]. Tive uma participação de escola até o quarto ano primário. Com o decorrer do tempo, eu sempre gostei das participações dos grupos folclóricos que tinha e que nós estamos mantendo. Sou de família da Recomenda. na Quaresma, o pessoal rezava na casa em que me criei, que é do meu avô. Eu sentia emoção quando via o pessoal rezá. Eu dizia: ‘Meu Deus do céu, será que um dia eu vou poder fazer parte deste grupo?’.

E, sim, graças a Deus! Deus me deu saúde e poder para participar junto com meus companheiros, que hoje estamos restando nós na região. Aqui já teve bastante grupo de rezadô. Se Deus quiser, é de haver ampliação, deverá surgir vários jovens para integrar o nosso grupo para que permaneça paramuitos e muitos anos. É este o meu objetivo, é este o meu desejo.

E assim, o que puder eu coloco à disposição do pessoal que se interessar a fazer parte deste grupo. não sei ensinar ninguém, mas sinto muito feliz em dividir aquilo que aprendi.”

A ‘Recomenda’ em detalhes

“Tive a felicidade de fazer parte deste grupo com 12 anos. Tive muita disposição, igual eu tenho até hoje, para fazer frequência naquele grupo. não sou chefe de nada, igual algum coloca.

A Recomenda é feita aqui no distrito. Com a modernização, está diminuindo o espaço da gente. Tem as normas a seguir. Por exemplo, não pode rezar numa casa com a luz acesa. Quando a gente começou, naquele tempo o movimento de carro era muito pequeno; hoje é muito grande. A gente tem que compartilhá com determinadas mudanças. A gente correu várias vezes pro pessoal do carro não vê os rezadô. Hoje é o contrário, nós usa o carro para poder fazer os trabalhos. Tem coisa que muda tanto que temos que aceitá as mudanças. Tem coisa que não tem como mudá; outras sim. Por exemplo, nos casos das iluminações. A gente tinha dificuldade no caso do capelão. na época que a gente começou, o capelão tinha que ter muita memorização para ficar gravada a programação tudo de mente. não adiantava levar escrito, pois não tinha como ler, não tinha iluminação. Eu cheguei a participar de vários trabalhos nas casas que não tinha energia elétrica; hoje não tem uma que não tem.

Então, a evolução foi tanta dentro de 20, 30 anos. A gente saía mais cedo para fazer os trabalhos, tinha estas condições. Hoje é mais difícil, os movimentos duram até mais tarde. não tem horário determinado; a gente faz em horário que tem menos movimento.

Com estas mudanças, o grupo está bem mais fraco, não está tendo reposição. A gente tá fazendo com muita dificuldade, porque temos esta missão que Deus deu pra gente. E a saúde… já não somos tão jovens mais.

A gente rezava a semana inteira, a noite inteira, saía do portão do cemitério – o final da Recomenda é no portão do cemitério – no amanhecer o dia. Hoje, a gente reza duas ou três horas, já não está aguentando mais. o que eu espero, o que o grupo também espera é que surja novos rezadô para integrar o nosso grupo para dar continuidade ao nosso trabalho, mas se não tiver reposição vai acabá, que nós não somo eterno.

Na Quaresma, a Recomenda no nosso lugar é tratada assim: pode começar de segunda à sexta, menos no sábado. Terminar nós terminava no Sábado Santo, nós rezava a Sexta-feira a noite inteira.

Na época que eu era mais jovem e participava, sabe como é que eu imaginava? o dia, a data, só começava quando clareava o dia. A gente falava pra nós: ‘Enquanto tiver de noite é sexta-feira’, mas já era no sábado.

Aqui tinha bastante rezadô; então, revezava, rezava mais vezes na Quaresma. Por causa da dificuldade que temos, rezamos na Semana Santa dois, três dias, talvez a semana toda, mas duas, três horas por dia para não deixar esta tradição acabar.

Nós não selecionamos as casas, tem casa que fica mais fácil do trajeto dos rezadô. Tem um número total de casa, só não pode terminar em número par. Esta é uma forma que a gente encontrou, não sei o porquê, mas pretendemos deixar desta forma, da forma que a gente encontrou.

Antigamente, o trajeto era feito a pé, em silêncio. A gente andava era pelos trilhos dos pastos. Hoje tem mais acesso, anda de carro. Quando a gente chegava nas casas, o pessoal apagava a luz. Prevalece assim até hoje. Muitas vezes a gente é convidado pra rezar, para muitos é surpresa. Quando a gente andava a pé, rezava também nas cruz. no momento que tem umacruz, ali tem um acontecido. É uma marca.

Se a gente souber de gente que pouco importa com a Recomenda, a gente também não vai. A gente faz de gosto, a gente quer que seja feito de gosto do outro também.

Tem aquelas casa que a gente encontra fechada e permanece fechada durante o nosso trabalho. Tem aquelas outras também, que assim que a gente termina o trabalho, abre a porta da casa, convida pra entrar para dentro, oferece um café. Tem a satisfação da gente conversar um pouquinho… das crianças mais pequenas ver a matraca.

Às vezes, era difícil pro grupo se reunir. Eu aprendi muitas rezas nos trajetos a pé, do intervalo de uma casa e outra. Tinha e tenho curiosidade de aprendê canto até hoje.

Pra fazer os trabalhos, o que é necessário, o que é indispensável é uma toalha branca. De resto poderá ter um uniforme ou não. nunca pensamos em ser obrigatório. A toalha é o seguinte: ela pode até atrapalhar na cabeça, a audição, quem acha que atrapalha, usa no pescoço.”

Filosofando

“Olha, uma entrevista que tive, já deve fazer uns 10 anos, já disse isto daí: ‘A minha preocupação é no amanhã, hoje e amanhã, no reflorestamento. Cadê os jovens?’. Porque quando eu entrei, eu tinha 12 anos. Depois que eu entrei, não formou um sequer rezadô. Eu acho que já passou bem mais de 100 no nosso grupo, mas ainda não saiu um rezadô. Eu disse que eu fiquei emocionado quando eu vi a primeira vez o pessoal rezando na minha casa. Eu queria ter esta emoção novamente. De amanhã eu não poder rezar, uma hora as pernas não vai me dar condições, mas eu queria ouvir os rezadô rezar na minha casa. Este é o meu objetivo maior. Eu espero isto acontecer.”

Terço Cantado

“Agora o Terço Cantado surgiu depois, no dia 12 de outubro, em 1996. E começou por acaso no dia de nossa Senhora de Aparecida. o terço é nas casas de famílias; nas igrejas, é o ano todo. De lá pra cá expandiu muito. A gente fica muito satisfeito de participar junto com o pessoal, de ter sido aceito muito bem tanto aqui na nossa comunidade como nas comunidades vizinhas.

Temo um companheiro, o José Isaías Pereira, lá do bairro Maçaranduba [bairro rural de Pouso Alegre], que trouxe pra gente alguns detalhes, algumas orações.

E com o decorrer do tempo, graças a Deus, junto com meus companheiro, a gente também criou certas partes do Terço Cantado e vem fazendo a exibição dele.

O Terço Cantado, por exemplo, em determinado lugar que a gente vai, a gente não pode exibir ele completo, por questão do grupo ser em quantidade pequena. Por exemplo, eu precisava ter um companheiro que ajudasse a conduzir o Terço Cantado. na verdade hoje não está tendo, estou sendo o condutor.

Uma das coisas que chama bastante atenção do Terço Cantado é que fizemo esta montagem pra conduzir nas casas com pouco movimento; daí foi o contrário. Hoje está sendo exibido em lugar de bastante movimento. Tem determinados momentos que a gente chama o pessoal pra cantá, pra beijá o santo. Muita gente que não conhecia, se emociona e acaba emocionando até a gente.”

Pedro Donizete da Cruz, conhecido por Zete e Pedrão, 53 anos, mora no Pantano São José, distrito de Pouso Alegre. Entrevista realizada na residência do casal Juliana e Roberto, no Pantano, em 6 de setembro de 2009