Vozes múltiplas, histórias singulares

Making of

Nos bastidores

29/08/2009 (sábado)

Ana Beraldo

Manhã de sábado ensolarado. Nosso primeiro dia de campo. Lá vamos nós, Maria Eunice, Rique e eu a caminho do bairro dos Afonsos.

Maria Eunice é amiga de anos, já é uma amizade cristalizada. Cursamos a faculdade juntas e de lá para cá nunca mais nos desertamos. Realizamos alguns projetos profissionais e um deles, o livro-reportagem Sapucaí, O caminho das águas (1992), que até hoje nos rende boas lembranças e uma saudade. Saudade da Sarita, nossa companheira de empreitada e que em 1996 se foi para as bandas celestiais.

Este best seller regional nos rendeu 18 lançamentos de formatos dos mais variados:de tapete vermelho ao som de música clássica a mesas de botequim. Eta tempo bom…

Rique é amigo de dias, embora já sabíamos da existência um do outro há alguns anos. Até já me hospedei em sua pousada em São Tomé das Letras (cortesia) sem ele estar presente. É uma pessoa gostosa de conviver, transparente. Sua chegada ao projeto foi recebida com aplausos.

Há um ano e meio em Pouso Alegre, ele se ofereceu voluntariamente para integrar-se à nossa pequena equipe e sua contribuição será valiosa: cinegrafista, fotógrafo e além de tudo, motorista.

De cara, já constatamos que formamos um trio afinado! Abra a porteira…

Povo bão!


Chegamos à venda do Hélio (a venda verde) para certificarmos de nossa agenda (Hélio é nosso agendador das entrevistas daquele dia). Ele é referência no bairro. Quase todo mundo é parente dele e quem não o é o chama de tio. Ele dá as coordenadas. Uns cigarrinhos de palha para distrair-nos e fomos falar com dona Fracinete, a artesã das casinhas de barro. Andamos mais uns metros e fomos conhecer o a história do Zé Barcelos, o fazedor de jacás.

Almoço no restaurante do bairro e sobremesa (docinhos de mamão cristalizados) na casa da doceira dona Dita, a próxima entrevistada. Entre uma conversa e outra, gravamos em vários ângulos: dona Dita fazendo pasteis de farinha de milho, dona Dita ao lado do seu majestoso forno à lenha, dona Dita passando receitas de seus doces em calda. E Genésio, o filho adulto de alma pueril, o tempo todo por perto. E sempre arrumando uma brecha para nos pegar com suas brincadeiras. Eis que ele me chama e diz: - Vem ver o passarinho verde naquela árvore. –  Cadê?  - Madurou, diz ele soltando uma gostosa gargalhada.

Fomos embora ao pôr do sol com as gargalhadas do Genésio nos acompanhando. Rique sintetiza o nosso primeiro dia de trabalho: Que povo bão!!!

Dia 30/08 (domingo)

Maria Eunice

Casa do Dito Reis. Outro dia de sol. Fomos recebidos com viola, cantoria, dança e já com amizade. Lá estava Sr. Dito, com seu chapéu de aba larga e sua alegria de ouro que nos deixou totalmente à vontade, servindo café quentinho acompanhado de alguns fatos das longas viagens no seu caminhão. Presente estava também Sr. Lázaro. Com sua bota lustrosa nos conduziu a uma atmosfera de salão de dança – catira – e, com satisfação, declamou alguns versos da dança de São Gonçalo, entre um causo e outro… Foi um grande prazer conhecer vocês.

Tarde

Ana Beraldo

Fomos ao bairro dos Afonsos, agendarmos a entrevista com Zé Raimundo da Folia de Reis. E próximo à casa dele deparamos com uma movimentação diferente, que parecia uma briga. Desci do carro e…

Dia 5/09 (sábado)

Ana Beraldo

Novamente, Afonsos. Para sabermos sobre a Festa do Biscoito, vamos ao encontro do Geraldo, o presidente da associação de bairro. Ele narra sua trajetória na associação, conta detalhes da Festa do Biscoito e da Festa do Santo Afonso, que acontece naquele dia.

A seu convite, vamos para a casa da festa, onde somos recepcionados pelos festeiros e por cartuchos multicoloridos de rostos de bonecas, todos enfileiradinhos. Remeteu-me à infância e revivi a história dos soldadinhos de chumbo que ficavam guardados em uma caixa todos enfileirados e à noite… ganhavam vida.

A casa da festa é uma fartura: caixas e mais caixas de doces caseiros, roscas de vários tipos e sabores, quartos de leitoas no tempero. E no quintal, homens pelando mais leitoas e mulheres lavando os ‘miúdos’ entre prosas e risos.

No retorno, Evaniele, esposa do Geraldo e minha conterrânea (ela é natural de Silvianópolis), nos aguarda com um superalmoço. Agradecemos a gentileza e fomos nos ter com Pagodinho, nosso entrevistado multicultural.

Dia 6/09 (domingo)

Ana Beraldo

Destino: Pantano São José. Zete e seus companheiros da recomendação das almas e do terço cantado aguardam-nos em frente ao salão de festas da igreja do distrito.

Como preferíamos um local aberto para as entrevistas, Roberto, acompanhante do grupo, nos convida para irmos até sua casa. Quando chegamos, surpresa! Roberto é casado com Juliana, ex-diretora da escola do distrito e minha conhecida de anos. Estamos em casa. O quintal, todo decorado com flores, carro de boi e um pequeno altar de Nossa Senhora, é o cenário perfeito para as entrevistas.

Entrevistas feitas, queríamos mais: uma pessoa bem idosa que falasse da memória dos antigos. Juliana sugere: tia Damásia, uma senhorinha de mais de noventa anos que mora próximo dali, onde poderíamos também almoçar no pesqueiro de sua filha, a Ana Maria. O casal nos acompanha e o resto do dia foi mágico e produtivo. Ao invés de uma entrevista, duas. Dona Damásia rememora seus anos bem vividos e Ana Maria nos fala do seu artesanato.

Foi um dia muito especial.

Dia 7 de setembro (segunda-feira)

Maria Eunice

Rádio Difusora de Pouso Alegre. Fomos recebidos com poesia, a voz mansa do Sr. Luis de Castro deixou todos encantados. Fez rimas, cantou sucessos, relembrou os tempos idos, que inspiração!!!

O Rancheiro estava por perto, apresentou sucessos que compôs com antigo parceiro – Rancheirinho. Contou dos tempos da Rádio Mayrink Veiga; com saudades reviveu sua época de ouro, os parceiros, amigos e glórias.

Logo depois, a entrevista com Zé Batista e Bandeirante, uma dupla além do palco, companheiros desde a infância, dividindo mazelas e, finalmente, o reconhecimento. A equipe está torcendo para que todas estas entrevistas sejam bem aproveitadas, porque a locutora da “Rádio” entrou numa competição de timbre de voz com os entrevistados e que pode ter prejudicado a gravação. Tudo bem que estávamos no espaço de trabalho dela, mas numa área fora do seu estúdio. Surtou!!!

Tarde

Ana Beraldo

Almoço no pesqueiro recém-inaugurado, próximo a Pouso Alegre, e novas entrevistas na cidade. Na semana passada tomamos uma overdose de carne de porco e seus derivados e, neste fim de semana, estamos light, só peixinhos.

O senhor Zé Brasileu (mestre de Folia de Reis e avô do Rafael, secretário de Cultura de Pouso Alegre) nos recebe com cordialidade. Narra sua trajetória de vida, desde os tempos de menino no bairro do Picadô (em Silvianópolis), onde aprendeu os saberes da Folia, e os tempos de mascate, quando comercializava de casa em casa as cobertas tecidas no tear da sua esposa Nhana e de suas vizinhas. Ao final da entrevista, apresenta-nos seu livro: Memórias de um folião de reis, projeto executado em 2005, por meio da Lei Municipal de Cultura, também patrocinadora do nosso projeto.

Dona Dulce, a desconfiada

E para encerrar a série do fim de semana prolongado, fomos ouvir o senhor Zé Messias, residente no Bairro Santo Antônio. O assunto em pauta: a Festa de Santo Antônio. Com sua fala mansa, ele nos aguarda no alpendre. Adentramos. Quando íamos passar para o terraço, onde havia luz suficiente para a gravação, eis que sua esposa, dona Dulce, toda desconfiada, nos interpela. Quem são vocês? O que querem saber? Sobre a Festa de Santo Antônio? Ele não sabe nada, não.

Explicações e nada. Ela conta que, há algum tempo, chegou alguém estranho, todo conversado, em sua casa, e que estava a serviço da igreja e roubou-lhes R$ 200,00. Novas argumentações; ela parece acreditar em nossas verdadeiras intenções.

Conseguimos chegar ao terraço, a entrevista inicia. Ela sempre por perto, como a nos vigiar. Vez por outra, invade a entrevista, dá palpites. Abre e fecha o portão que dá para o outro lado da rua várias vezes, como um sinal de alerta. De repente, sai para a rua e momentos depois, retorna. E tira uma da nossa cara: vocês não são daqui nada. Vi a placa do carro, é de Belo Horizonte. Novas explicações, Maria Eunice e eu vamos falando de pessoas conhecidas nossas que moram por ali, as histórias vão se entrelaçando e, por fim, ela se rende. E ela se entrega totalmente. Vocês deviam é me entrevistar também!!! Fala até do corpo seco da casa do Custodinho. Seria uma lenda??

Dia 03/10 (sábado)

Maria Eunice

O dia começou com um telefonema da EPTV para agendar uma entrevista com a nossa equipe a respeito do projeto. Marcamos o encontro na casa do Sr. Geraldinho, um dos nossos entrevistados. Ele é o catireiro mais antigo da região e morador da zona rural de Congonhal. Fomos recebidos com almoço e na mesa uma carninha de porco deliciosa, preparada pelas suas filhas.

Convidamos o Sr. Dito Reis para participar da entrevista e tocar sua viola e, com isso, compor um cenário para a reportagem, Chegou o Sr. Dito, um parente dele e a viola e nada da TV. Fizemos a entrevista com ele e ficamos aguardando a TV que, no último instante, ligou dizendo que não daria tempo de chegar, pois estavam cobrindo uma outra matéria. Como a conversa estava boa, ficamos por lá mais um pouco e encerramos a visita com café e bolinhos de chuva. Eta povo bão!

Saímos dali e fomos para o churrasco na casa da Eliana, uma amiga que proporciona inesquecíveis recepções e estavam lá grandes amigos e terminamos o sábado com cerveja, dança e uma boa prosa com os amigos.

Dia 04/10 (domingo)

Maria Eunice

O destino desse dia foi o bairro dos Afonsos. Já era a terceira tentativa de entrevista com o Zé Raimundo, folião de reis e um grande brincalhão, mas valeu a pena esperar. Com clareza nas palavras e respeito pelo seu ofício, nos presenteia com uma ótima entrevista. Para encerrar, brindamos com café e um cigarrinho de palha.

Seguimos para Silvianópolis. O encontro agora era com outro Zé Raimundo, mestre de congada e sua filha Magda, herdeira desse estandarte e apaixonada por um terno de congo. No fundo da sua casa, ele construiu um cômodo para acomodar os elementos do seu terno e, em destaque, em cima de tantas caixas estava a bandeira de São Benedito, o grande mestre e homenageado dessa festa. Terminada a entrevista, fomos almoçar no restaurante às margens do lago da cidade; no cardápio frango caipira e a boa cachacinha.

Dia 10/10 (sábado)

Maria Eunice

A entrevista desse dia foi com Cíntia Kallás e como o assunto era a culinária tradicional, já fomos direto prá cozinha. Lá, ela preparava um pão recheado com lingüiça, receita tradicional da sua família. Ali mesmo já demos início à entrevista saboreando aquele prato maravilhoso. Depois das suas explicações sobre o pão, seguimos para a área de entrada da casa e demos continuidade à conversa. Terminada a entrevista, fomos convidados para o almoço e os comensais foram ao delírio com aquela couve, aquela carne, aquele quibebe e o charuto preparado pelo Dr. Luiz Felipe, esposo de Da Cíntia.

À tarde outro entrevistado já nos aguardava e fomos para a casa do Falito. Chegando lá descobrimos que a memória da câmera estava lotada, era preciso descarregar. Ainda estávamos num processo de adaptação com a máquina, mas o Rique descobriu o caminho para descarregá-la. Como não tínhamos disponível o equipamento adequado para isso naquele momento, pedimos ajuda à Maria Inês (uma amiga) que nos emprestou seu computador e então conseguimos resolver este problema.

Voltamos à casa do Falito embaixo de uma grande chuva e com a câmera pronta para ser novamente usada. O Falito foi muito generoso em nos esperar e acima de tudo falar das suas memórias de Pouso Alegre. Essa prosa rendeu outra boa entrevista.

11/10 (domingo)

Ana promete tudo para todos

 

Maria Eunice

A primeira entrevista desse dia foi com a Gláucia, artesã e moradora do bairro São Cristóvão. Nós a encontramos logo na entrada da sua rua, ela tinha ido buscar pão para nos esperar, levava também um galão de água num carrinho de feira e não aceitou carona, disse que já estava acostumada a subir o morro empurrando o carrinho pesado. Essa foi uma entrevista tocante. Ouvimos uma história de vida marcada por tristezas, decepções e luta incansável. Ficamos sem palavras diante da sua história, mas tínhamos que seguir em frente, outras entrevistas nos aguardavam.

Pegamos a estrada e fomos para Espírito Santo do Dourado procurar a casa do Sr. Agostinho, o raizeiro. Descobrimos sua casa no topo de um morro, fora da cidade. O lugar estava quieto, parecia não ter ninguém, mas logo apareceu sua esposa e nos convidou para entrar. Sr. Agostinho estava terminando de almoçar e logo nos chamou para a conversa. Terminamos a entrevista e não nos estendemos muito na prosa porque ele tinha compromisso em outra cidade. Tomamos café e descemos o morro.

Lá mesmo na cidade já estava marcada a entrevista com a Da Vita, devota de São Benedito e incentivadora das congadas. Outra figura bem humorada e com um jeito peculiar para contar histórias. Na hora de ir embora ela nos convidou para tomar café e comer o bolo que ela tinha feito para nos receber. Eh! Dona Vita, a senhora deixou boas lembranças!

Voltamos para a estrada e entramos no bairro dos Afonsos para entrevistar a Dona Natália, a benzedeira das crianças. Ela ajeitou umas cadeiras ali na entrada da sua casa e começamos a conversa. O sol já estava quase se pondo e as nossas energias também. Desligamos o equipamento, tomamos o tradicional cafezinho e nos despedimos.

12/10 (segunda-feira – feriado)

Maria Eunice

Em Pouso Alegre, nos encontramos com o cordelista Eugênio Toledo. Na sua casa e diante de sua esposa e musa, ele nos concedeu uma entrevista-aula sobre poesia e literatura. Uma ótima entrevista acompanhada de uma forte chuva. O temporal passou e seguimos para o outro lado da cidade.

No bairro Jardim Olímpico, Odilon Basílio, filho de Nonô e Naná, nos apresentou seus pais. Nos acomodamos em seu estúdio e a entrevista começou. Outra chuva caiu, acompanhada de alguns fogos para a santa e as memórias vieram, vieram e anoiteceu.

Partimos rapidamente para o centro da cidade, onde o grupo Imbuia ensaiava no Centro de Convivência do Idoso, antiga estação de trem. Chegamos lá e o ensaio estava no fim e a nossa entrevista começava. Com muita boa vontade, depois de um dia inteiro de ensaio, o grupo não nos concedeu só uma entrevista, mas uma melodia. Depois de duas horas de entrevista fomos comer uma pizza e tomar aquela cerveja, porque ninguém é de ferro, né?

Assim encerramos o trabalho de campo. Agora a tarefa é árdua: copiar as entrevistas, redigi-las e edita-las.