Vozes múltiplas, histórias singulares
Memória

Dona Damásia, quase um século de memórias

“Meu nome é Damásia Cândida de Oliveira e já tô com 92 ano. Nasci aqui memo nesse nosso lugarejo, o Pantano São José. Eu estranho muito a modernidade, minha fia! No meu tempo, meus fio não tinha nem bicicleta; hoje, as criança de 14 ano já tem até moto!

A minha infância era trabaiá na roça, semeá arroiz, plantá feijão, ará a terra e capiná mio. Os covero abria os buraco e a gente ia atráis semeano. Era um serviço difícil, que levava o dia intero. Nunca fui na escola, aqui não tinha escola, mais sei assiná meu nome. A nossa diversão naquele tempo era ir na casa dos vizinho pra rezá o terço pra São Pedro, Santo Antonio e São João. Nos domingo nóis brincava de batê peteca, feita de paia de mio e pena de galinha. A gente batia até acabá a peteca e depois fazia otra. Em junho e julho, tinha uns bailinho na roça, mais tinha que ir uma tia nossa junto pra vigiá nóis.

Quando chegava a Semana Santa, na véspera de Quarta-Feira de Cinzas, os violero tirava as corda da viola, enfiava ela no saco e pendurava na parede em sinal de respeito do silêncio da Quaresma. Aí só no Sábado de Aleluia que eles pegava a viola de novo. Na Sexta-Feira Santa ninguém trabaiava, não varria casa, nem penteava cabelo, a gente arrumava o cabelo na véspera, porque na sexta não podia não. Cedo bebia uma xícara de café ou chá, armoçava um tantinho de comida, depois comia só mais um poquinho às 5 hora e à noite ia rezá.”

Tempos de outrora

“O namoro daquele tempo era só de longe, não podia abraçá e nem beijá, só conversava.

Casei com 17 ano com um vizinho nosso que ia passeá na minha casa e vivi com ele 60 ano. Nóis tivemo nove fio e nunca discutimo. Quando nóis casamo, meu pai deu um terreno pra nóis construí nossa casa. E é aqui que eu moro até hoje e, se Deus quisé, é aqui que eu vou morrê .

O meu tempo foi bem diferente, não tinha máquina pra fazê as coisa, era tudo na enxada e no muque. Lavava ropa da casa intera num corguinho aqui pertinho, descacava mio pra levá no mujolo e trazia fubá, fazia coberta de tear, torrava café na panela, socava no pilão e passava numa penerinha pra fazê o pó de café. Era tudo difícil, minha fia! Prazer de vida a gente não tinha, não. Mais se tivesse que vivê essa vida de novo, eu vivia com o memo gosto.

Antigamente os fio respeitava os pai; hoje os fio é que manda nos pai! Meus pai era bão pra nóis. No tempo do frio, quando meu pai ia acordá nóis, ele quentava a mão no fogão de lenha e colocava assim no nosso rosto pra nóis acordá mais animado pra tirá leite.

Minha mãe me ensinô a fazê o tear, aprendi a descacá o algodão, cardá e fiá. Aprendi a bordá, fazê crochê e costurá. Eu costuro até hoje, mais as vista agora tão enfumaçando, por causa do diabete. Ela tinha paciência pra ensiná, mais morreu muito nova.”

Mais memórias

“Eu sei lê um poquinho porque meu pai comprô o livrinho ABC e a cartilha. Tinha um rapaiz que vinha ensiná nóis, mais foi por poco tempo.

A comida do nosso tempo era arroiz, feijão, batata, mandioca, carne de porco que ficava na lata com a banha. Ovo e frango tinha à vontade no terrero. Tudo era plantado e criado em casa, não tinha veneno. O porco era criado com farelo de mio, socado no mujolo.

Meu pai ia em Pouso Alegre e comprava saco de porvio pra fazê biscoito no forno de barro. Primero a gente tinha que lenhá, esquentava o forno, varria ele pra depois podê assá os biscoito, as rosca e o pão. Era as nossa mistura.

Tinha um bolo gostoso que nóis fazia, assava ele numa caçarola de ferro em cima da trempe do fogão e colocava brasa numa tampa em cima da panela. Ficava uma gostosura!

Quando precisava de arguma coisa, meu pai arriava os cavalo e ia pra cidade. Ele ia em Pouso Alegre comprá ropa pra nóis. Ele trazia um corte de riscado pra fazê carça pros menino e pras menina ele trazia chita pra fazê vestido. A gente tinha uma sandalinha pra passeá e ir na missa, mais na roça ficava descarça.

Minha primera viagem mais longe foi pra Aparecida do Norte e já faiz 74 ano. Ia de caminhão até o arto da serra, descia até Pinda e depois pegava o carro de ferro [trem] até Aparecida. Nóis saía às 6 hora da manhã e chegava lá às 8 hora da noite e não podia comê nada, se não passava mal, dava enjoo.

Uma veiz, na Semana Santa, nóis fomo pra Pouso Alegre de carro de boi e lá eu vi um automóvel pela primera veiz; era grande e baruiento. As pessoa pagava pra andá nele, mas eu não andei não, fiquei com medo. Morro de medo de avião tamém, nem que se ele tivesse aqui no terrero da minha casa eu não chegava perto. Eu vejo o mar na televisão, nunca vi ele de verdade, tenho medo tamém.

Otra coisa que eu lembro tamém é daquela doença, a gripe espanhola, morreu muita gente. Eles colocava os corpo num carro de boi, fazia uns buraco num terreno ali pra cima e colocava eles lá.

Depois, quando acabô a doença, eles esticaro um moirão ali em vorta do terreno e fizero um leilão pra comprá tijolo. Foi aí que começô o cemitério.”

Os causos de assombração

“No meu tempo tamém tinha muita história de assombração. Se oceis não têm medo eu vou contá então. Uma veiz, numa Sexta-Feira da Paixão, um homem saiu de casa e foi visitá um tio meu e era mato dos dois lado da estrada. Ele tinha um porretinho e um cachorrinho. Chegô lá, ele proseô bastante e na hora de ir embora meu tio falô pra ele ficá, mais ele disse que não tinha medo de nada.

Chegô no meio do caminho, desceu um cabrito branco na sua frente e otro preto atrais – ia chegando cada veiz mais perto dele. Então, ele bateu o porrete pra espantá os cabrito. Aí, saiu uma foguera e o cachorrinho ficou com os dente arreganhado e deitado perto dele. Ele correu, chegô em casa e contô pro pai dele e o pai falô que era por causa da candeia que não podia ter acendido na Sexta-Feira da Paixão. No outro dia ele foi procurá o cachorrinho e não achô mais.

Vô contá mais uma. Num terreno do vizinho nosso tinha um monte de lenha e uma criança que ficava chorando ali. Aí, juntou um monte de gente pra ir lá tirá a lenha pra campeá a criança. Quando eles terminava de tirá o úrtimo pau de lenha, a criança começava a chorá de novo no otro monte. Então, eles começaro a rezá a oração do Senhor Amado e o choro foi embora e não vortô mais. Meu tio falô que a criança chorava pra batizá e ele falava tamém que se ocê escutá um choro no cemitério, se fô de criança, pode batizá; mas se fô demônio, pode ir embora.

Hoje a gente não escuta mais história de assombração. Eu acho que o povo tá bem enlevado com otras coisa que até a assombração tem medo. Eu memo não tenho medo mais. Eu tenho medo é de entrá ladrão na minha casa. A gente escuta tanta coisa por aí, né, fia!

Não durmo sem rezá meu terço, faço bastante novena pra São José, gosto de fazê o bem e não implico com a vida de ninguém. É assim que eu vivo.”

Damásia Cândida de Oliveira, 92 anos, mora no Pantano São José, distrito de Pouso Alegre. Entrevista realizada em sua residência, em 6 de setembro de 2009