Vozes múltiplas, histórias singulares
Memória

Falito, um trem lotado de boas recordações

“Sou nascido e marcriado em Pouso Alegre. Fui o primeiro parto natural do Hospital Regional. Antes os partos eram feitos por parteiras, em casa, e só em último caso as parturientes iam pro hospital.

Meu pai, Rafael Alcoba, era espanhol e veio de Málaga, em 1950; dele herdei o nome. Minha mãe é filha de espanhol, neta de inglês e bisneta de alemão. Já não temos minha mãe entre a gente, mas, graças a Deus, ainda tenho pai.

A minha infância foi das mais ajeitada do mundo, num Pouso Alegre tranquilo, num Pouso Alegre de enchente, num Pouso Alegre de chuva na hora de chuva, sol na hora de sol.

Minha vida inteira foi lá perto da estação de trem. Meu avô Francisco Fernandez tinha uma firma que era um armazém grande de secos e molhados. Ele também era importador e exportador. Importava, na época, peças de arado, azeite, bacalhau e vinho.

E exportava polvilho e café. Enviava para as capitais o arroz, o feijão, o que era colhido na região. A exportação era feita pela linha férrea, a Rede Mineira de Viação – ‘Ruim, mas vai’ –, e o que vinha de fora era distribuído na região.

O armazém ficava no fim da Avenida Doutor Lisboa. Tinha uma parte que era virada pra avenida; outra parte ficava na Rua Adolfo Olinto, onde hoje é o Banco Itaú. Minha avó morava em cima.”
(…)

A avó

“A minha avó era uma figura espetacular, uma figura ajeitada. Minha avó funcionava como um esteio para uma área carente da cidade. Nos anos de 1950, em Pouso Alegre, o pobre era emplacado. Andavam com uma placa no peito escrito ‘mendigo’ e eram numerados também. Cada mendigo atuava numa área. Assim, as pessoas forneciam dinheiro só para os mendigos emplacados. Essas placas eram fornecidas pela Prefeitura.

Na escadaria da casa da minha avó, nos dias de sábado, era um terror. A gente não conseguia subir e descer sem encontrar com uns quatro ou cinco pelo caminho. Ela preparava uma cesta básica pra pessoa varar a semana. A frequência lá era meio brava! Apareciam umas pessoas que já eram tradicionais da cidade, como estas:

Pó de Arroz Perdido

“A Pó de Arroz Perdido era uma senhora que adorava uma pintura e usava um pó de arroz que, na verdade, era perdido, porque ela esparramava pela cara afora e aquilo ficava lá, perdido!

Um dia ela chegou na casa da minha avó e falou assim: ‘Oi, sá dona, a senhora não tem uma sombrinha véia pra me arrumá?’. Aí minha avó trouxe uma sombrinha pra ela. Ela abriu a sombrinha virada pro sol, fechou e devolveu pra minha avó e disse: ‘Caco véio que nem esse, eu tenho um monte lá em casa!’. A minha avó ficou uma fera com a muié: ‘Ah, mardita, que é isso?’.

Aí, ela passou muito tempo sem aparecer. Um dia ela apareceu e a minha avó perguntou por que ela tinha sumido, e ela respondeu: ‘Ah, sá dona, a senhora não viu eu de cama lá na carçada do seu Olavo?’.

Esse senhor Olavo era o dono da farmácia Queiroz e, nessa época, já existia a propaganda ‘Antes de nós, nossos avós já compravam na Farmácia e Drogaria Queiroz’. É um negócio antigo.”

Sá Dita

“E lá tinha também uma mulher, era uma mulatona que se chamava sá Dita. Ela não tinha nenhum dente na boca. Ela chegou lá e conversando com a minha avó e coisa e tal… E a minha avó sempre atenciosa com todo mundo. E a sá Dita falava assim: ‘Ai, sá dona, depois que o meu marido morreu, eu não quero casá mais não, eu não se dei com o casamento’. Era um troço que você ouvia, aquela voz murcha dentro da boca, eu nunca mais esqueci. Puxa! Isso é um negócio pra gente ter guardado.”

Rabo Verde

Rabo Verde“Embaixo da casa da minha avó tinha uma escada que hoje sobe para o bar República. Na época, essa escada tinha um vão embaixo com uma paredinha; então ficava ali como se fosse um quartinho e esse era o quarto do Rabo Verde. Ele foi uma figura tradicional da cidade. Era um cara que andava com uma roupa sujíssima e de sapato. Nunca vi o Rabo Verde descalço. E todo sapato dele era com o contraforte quebrado – e ele usava como um chinelão.

Era um homem forte, branco e do zóio azul. O pessoal chamava ele de ‘zoinho azul’; ele virava um veneno e jogava o que tinha na mão.

O apelido ‘Rabo Verde’ ninguém sabe de onde veio. Carregava uma lata, onde comia. Não aceitava comer em outro lugar. Uma vez o Orestes, chefe da estação de trem, foi fazer uma pescaria e trouxe uns peixes pro Rabo Verde. Ele foi num terreno vazio por ali, fez uma fogueira, pôs os peixes no fogo, assou e comeu. Depois de uns dias ele chegou no nosso amigo Lafaete e falou: ‘Eu tô com um garro na garganta, eu acho que foi o peixe que o Orestes deu e se eu chegá a fartá, eu mato o Orestes’.

Tem coisas que eu presenciei, então eu posso falar, mas tem outras que a gente não sabe se é verdade, como a história da jabuticaba. Dizem que ele chegou pra uma pessoa e perguntou se jabuticaba tinha asa e a pessoa respondeu que não.
‘Ah! Então eu comi um besouro’.

Ele era um caboclo que raramente perdia um enterro. Antigamente, os enterros saíam da catedral e iam pro cemitério, e ele acompanhava todos e sempre procurava ajudar a levar o caixão.

Uma vez a gente estava na janela da firma do meu avô e vimos o Rabo Verde lavar os pés com a urina. Então, ele apoiava a mão na parede e puxava o pé pra cima pra lavar. Mas rapaz! Aquilo parecia uma torneira, ele esfregava e jogava xixi em cima, aí calçava o sapato e depois pegava o outro pé e fazia a mesma coisa. Desse fato eu ainda tenho testemunha, que é o Chiquinho, ele está vivo ainda, graças a Deus, mas o Evaristo que estava lá junto, já não está entre a gente. São figuras que eu nunca mais vou esquecer!

Aqui tinha um rapaz que trabalhava com o Jô Soares, o Licínio Rios Neto, que deve ter levado as histórias do Rabo Verde pra lá, porque o Jô por várias vezes citou o nome do Rabo Verde no seu programa.

O tempo foi passando e o Rabo Verde começou a ter problemas de saúde. O Lafaete ajeitou pra ele ficar no asilo e me parece que ele morreu lá.

Tinha um médico em Pouso Alegre, o doutor Omar, que dizia que gostaria que o Rabo Verde morresse antes dele, só pra ele fazer a autópsia e ver o que ele tinha por dentro, porque ele bebia leite borbulhando de fervura.”

Histórias do “Lá em casa”

“Nesta época eu namorava a Ene, hoje minha esposa. Eu viajava vendendo móveis e ela trabalhava no Posto Confiança. Quando chegava sexta-feira, ela fazia frangos desossados e eu saía, dava uma volta na avenida e vendia os frangos. E o pessoal perguntava de onde era e eu respondia: ‘Ah! É lá em casa’. E essa frase acabou virando o nome do bar Lá em casa, que funcionou ali no final da avenida.

Era um bar de alta frequência. O bar mais musical de Pouso Alegre. Tocava todo tipo de música, desde moda de viola à música clássica.

Olha! Aquele bar forneceu pra gente muita coisa boa, muitos amigos bons. E a gente, num lugar desse, passa a ser um ouvinte. Eu ficava sentado numa mesa a noite inteira e nessa mesa tinha um banquinho. Quem chegava sozinho sentava nesse banquinho e ficava de prosa com a gente até a hora que chegava mais alguém. Aí já iam dois ocupar uma mesa. Foi um negócio ajeitado o nosso bar.

Tenho saudades das noitadas, das farras, das alegrias; das tristezas, não…

Boteco igual ao nosso eu acho que não vai ter outro não! O que atraía também o povo eram os tira-gostos que a Ene fazia: carne de lata, linguiça defumada que ela mesmo defumava na roça.”
(…)

Nonô Basílio

“O Nonô ia ao bar todo dia, chegava lá pelas 9 horas da manhã e levava um quilo de fígado pra Ene chapar pra ele. E ficava feliz da vida!

Ele fazia as músicas e levava pra gente ver. Um dia ele chegou lá com um calendário imenso com a letra da música Cavalinho escrita com carvão na cacunda do calendário. Ele falou que tinham acabado os lápis e as canetas da casa dele. Ele morava em um sítio. E ele sempre falava que ia fazer uma música pra esse cavalinho que era de um vizinho dele lá na roça. E um dia eu conheci esse cavalinho. Ele carpia, puxava o aradinho e a carroça.

Quando ele foi mostrar a letra pra gente, tinha esquecido a música. Então ele saiu, passou na padaria, no Marcílio Alves, no Chico Furna, que é o bar Recreio, e tomou uma cachaça em cada lugar desse. Na descida, foi a mesma coisa. Aí ele chegou feliz. Tinha lembrado a música. E aí foi aquela coisa maravilhosa.

O Nonô representa muita coisa pra mim. Ele era uma figura muito ajeitada, era um filósofo espetacular. Ele falava: ‘O ser humano não sabe ser humano’. Pra mim não precisava falar mais nada no mundo. Ele era uma figura muito chique.”

Reflexões

“Pouso Alegre está ficando ruim. Eu prefiro Pouso Alegre com 25 mil habitantes, agora tá beirando os 180, né? É um negócio meio brabo! Já deixa de ser o lugar da gente e passa a ser de todo mundo, aí fica ruim. Mas ainda tem o Pantano, tem o Itaim, tem uns lugarzinhos ajeitados pra gente enfurná. E aqui ainda tem uma vantagem, porque dá pra ouvir o canto do sabiá. Então, tá bão!”

Rafael Alcoba (Falito), 59 anos, mora no bairro Primavera, em Pouso Alegre. Entrevista realizada em sua residência, em 10 de outubro de 2009