Vozes múltiplas, histórias singulares
Música

Bandeirante e Zé Batista, a dupla do Fuscão Preto

Com a palavra, Bandeirante

“Sou nascido em Aparecida de Minas, distrito de frutal, no Triângulo Mineiro. fui criado numa vida simples, trabalhando na roça.

Depois, com 18 anos, eu vim para Pouso Alegre a convite do zé Batista, que estava morando com uma irmã dele. E aqui a nossa dupla foi formada. No começo, a gente sabia cantar duas músicas só. Eu fazia a primeira voz e o zé, a segunda. Depois, ele me ensinou a fazer a segunda voz, porque a primeira destacaria mais com ele; ele tem a voz mais forte e mais possante.

Quando eu vim pra cá, as coisas eram difíceis. Por três vezes, por não ter recursos financeiros pra me manter aqui, apesar da ajuda da Inês, irmã do zé Batista, eu tive que voltar pro Triângulo pra trabalhar na roça novamente, juntar um dinheirinho e vim pra Pouso Alegre pra continuar a luta, pra vê se um dia a gente conseguia gravar o primeiro disco.

A loucura pra cantar era tão grande que quando a gente trabalhava no canavial, a gente cortava a cana e fazia um rachadinho em cima dela, encaixava um pedaço menor ali e fazia um microfone. O capataz ficava bravo, porque o povo parava o serviço pra ouvir a gente cantar.

Valeu a pena todo o sacrifício e, em 1979, nós tivemos realmente a grande chance da nossa vida e hoje chegamos a 30 anos de carreira.”

A grande parceria

“Posso dizer que o Zé Batista foi meu mestre, foi ele que me ensinou a cantar e a tocar. Quando ele saía com meu irmão pra tocar na casa de um fazendeiro ou num festival lá no Triângulo, era só eles deixar o violão e eu já tava pegando pra tocar.

Na casa do zé era música o dia inteiro. Eles tinham um radinho que fazia mais barulho do que tudo e tinha uma eletrola daquelas de dar corda; quando ela tava com a corda forte, tocava na rotação certa, depois ela ia perdendo a força.

Naquela época, lá no Triângulo, tinha o demão, que era parecido com um mutirão daqui. Todo mundo reunia e ia ajudar a limpar a lavoura do vizinho e à noite fazia um bailão. Tinha um sanfoneiro, e a gente aprendeu muito nessas festas também.

Foi um fazendeiro de frutal, Gerônimo Heitor de Assunção, que criou o nome ‘Bandeirante e zé Batista’, na época que o zé cantava com meu irmão. Ele dava roupa, sapato e violões e levava os dois pra cantar nos festivais que tinha na região.

Tinha um festival muito importante na TV Rio Preto. lá eles se apresentaram várias vezes. E os dois vestiam igualzinho, lembravam muito Tonico e Tinoco.”

Vida de artista

“Começamos a cantar num showmício em Pouso Alegre em 1976 e daí fomos crescendo profissionalmente.

Começamos a cantar em festivais, todos importantes, mas o que realmente deu a grande oportunidade pra nós foi o Festival da Rádio Record de São Paulo, em 1979.

Fomos pra final no ginásio do Corinthians, não vencemos, porque tinha grandes feras, mas o proprietário da Gravadora Xororó, oscar Martins, vendo a nossa apresentação, que, na época, era um trio – o Darlon tava junto com a gente – nos convidou para gravar um disco.

E aí nasceu aquele disco que trouxe a grande oportunidade para o nosso trio, que foi a música Fuscão preto. fomos os primeiros no Brasil a gravar essa música de Jeca Mineiro e Atílio Versutti.

Na época, o Fuscão preto era mania no estado de Goiás. foi uma loucura e a gente não acreditava – da vida simples que nós saímos e fazer um show num estádio pra 15 mil pessoas…

Realmente aquilo deixava a gente trêmulo. Mas era muito bonito; todas as pessoas conheciam nosso trabalho. ‘Bandeirante e zé Batista’ ficava na casa das pessoas.

Naquela época, não existia disco de ouro e isso foi um pouco ruim pra nós dois, porque a venda realmente era pra ganhar disco de ouro.

Nós estivemos numa distribuidora de disco lá em Goiânia, junto com o dono da gravadora, e só lá vendemos 50 mil discos pra distribuir em Goiás e Mato Grosso. Com isso, nós atingimos, com certeza, de uns 150 a 200 mil discos vendidos.

Hoje, a nossa gravadora é a Garça Gravações, a mesma de Teodoro e Sampaio e do Trio Parada Dura. E Teodoro e Sampaio cantam com a gente, temos uma parceria muito boa com eles.

Aqui em Pouso Alegre, a cada lançamento nosso, nós vendemos em média 5 mil discos. nós temos vantagem de ter o rádio e a TV nas mãos e a gente negocia muito com as empresas, que compram até mil CDs pra distribuir pros clientes e ouvintes. Então, é um trabalho muito bonito que a gente faz. Presenteia o público e presenteia a nossa carreira também.

Tem artista em São Paulo, como a dupla Teodoro e Sampaio, que comenta que a gente tinha que botar o pé na estrada de novo, rodar esse país; mas os programas de rádio e TV seguram um pouco mais e estamos felizes aqui.

Nós temos a nossa banda, e o nosso maestro é o odilon Basílio [também entrevistado neste livro], filho do nonô Basílio.

Estamos com um CD novo aí, com o apoio da lei Municipal de Incentivo à Cultura de Pouso Alegre, comemorando 30 anos de carreira.”

Com a palavra, Zé Batista

“Nasci na cidade de Barretos e meus pais sempre trabalharam na roça. Meu pai vivia que nem cigano, trabalhava numa lavoura de arroz com meus irmãos e depois mudava de fazenda pra fazenda.

Roça é bom sim, mas pra quem é dono. na verdade, meu pai fazia um trabalho que podia ser considerado um serviço escravo, trabalhava em troca de comida.

Um tempo depois, chegamos em Aparecida de Minas, que naquele tempo deveria ter uns mil habitantes e lá nós ficamos por muito tempo, até meus 13 anos, trabalhando na roça que nem o Bandeirante, cortando cana e andando no caminhão de pau-de-arara.”

A lembrança da mãe

“Um dia na minha cama fiquei pensando quem me ensinou a cantar e percebi que era a minha mãe. A minha grande mestra foi a minha mãe.

Ela carregava água na cabeça numa distância mais ou menos de um quilômetro, pra jogar essa água no cruzeiro pra podê chover. naquele tempo ia aquelas mulheres na estrada e cantando Ave-Maria. Eu até hoje tenho a voz da minha mãe na minha cabeça.

Meus irmãos gostavam muito de tocar violão e, pra eu poder pegar o violão deles pra tocar, tinha que lavar a louça e ajudar em casa – sou o caçula de nove irmãos. Aí minha mãe deixava eu brincar um pouquinho com o violão, mas escondido.

Eu saí de casa com 12 anos e tinha um sonho de dar uma casa pra minha mãe, com piscina e tudo o mais. Quando ela faleceu, pra mim foi uma dor muito grande e eu descobri que ela tinha me dado muito mais do que eu podia dar pra ela.”

A música sempre presente

“Na minha casa era som o dia inteiro, todos os meus irmãos tocavam. Um fazia a primeira voz; o outro, a segunda; a minha irmã cantava alto. Aí você entrava e tinha que fazer a voz pra alguém, e isso era uma aula.

Era uma casa de pau a pique, que vivia em festa.

Um dia eu tava com meu irmão e eu pedi pra ele deixar eu tocar um pouco, aí ele disse: ‘Mas você não sabe!’. Então, eu comecei a tocar e ele gostou e começou a me ensinar. Daí o irmão do Bandeirante não saía lá de casa, sempre tocando e aprendendo também. Quando ele pegou a manha, nós começamos a cantar junto. E o Bandeirante sempre ia com a gente pra todo lugar.”

A mudança para Pouso Alegre

“Vim sozinho pra cá e comecei a fazer umas amizade muito boa. Eu amo tanto Pouso Alegre que eu considero aqui a minha cidade natal.

Fiquei um tempo aqui jogando futebol com a rapaziada e trabalhando de servente de pedreiro. Aí, uma vez, ano bairro da Tijuca [em Pouso Alegre], eu vi uma dupla cantando. Então, eu pedi pra eles deixarem eu tocar uma moda. Eles deixaram e gostaram, mas não deixaram eu tocar outra. Aí, o senhor Martins, um morador ali do bairro, perguntou se eu não queria cantar nos comícios do Simão Pedro [ex-prefeito de Pouso Alegre]. Então, eu disse que não cantava sozinho. Aí, me perguntaram com quem eu cantava e eu respondi que ele morava lá no Triângulo.

Nessa época, eu cantava com o irmão do Bandeirante. Quando eu cheguei lá, ele tava casado e a mulher dele não deixou ele vir comigo. Então, foi aí que eu convidei o Bandeirante e nós começamos a nossa carreira artística aqui em Pouso Alegre.

Uma pessoa de grande ajuda pra nós foi a minha irmã Inês. Ela tirava a comida da boca dos filhos dela e dividia com a gente. foi uma vida muito difícil, mas conseguimos superar tudo.”

O patrimônio

“o patrimônio, que nós conseguimos com a música, é uma riqueza imensa. nós estamos completando 30 anos de carreira e não é fácil pra uma dupla estar junto tanto tempo. Temos saúde e hoje cantamos talvez ainda melhor do que antes, porque hoje nós aprendemos técnicas novas.

Temos uma família linda. Temos as nossas casas pra morar, os nossos carros. E a gente vive daquilo que gosta: a música. Se nós tivéssemos feito o sucesso que nós fizemos lá atrás… Aí, financeiramente, a gente teria uma riqueza imensa, porque uma música hoje, se você acerta, deixa qualquer artista e qualquer dupla muito bem financeiramente. Mas a nossa amizade, a nossa família valem muito mais.

Um dia, o nonô Basílio falou pra mim que tinha artista em São Paulo e espalhado por este Brasil que fazia sucesso e tinha o dobro do nosso nome e que não tinha nem sequer onde morar. Isso porque fizeram muita extravagância e nós não fizemos isso.

Nós nunca bebemos e nunca fumamos, temos responsabilidade com o nosso trabalho.Todo homem que já sofreu na vida sabe dar valor ao que tem.”

Gilberto Felício da Silveira (Bandeirante), 52 anos, e José Carlos Cândido (Zé Batista), 53 anos, moram no Jardim América, em Pouso Alegre.Entrevista concedida na Rádio Difusora de Pouso Alegre, em 7 de setembro de 2009