Vozes múltiplas, histórias singulares
Música

Imbuia, uma árvore plantada no coração de Pouso Alegre

Mesquita, o início da polinização

“Meu nome é Marcos Mesquita, mais conhecido como ‘Mesquitão’. Eu nasci em Belo Horizonte e estou aqui em Pouso Alegre desde 1977. Eu já mexia com música em Belo Horizonte, tivemos um grupo chamado ‘Gabiroba’ e outro chamado ‘Grupo Escolar’.

Meus pais gostavam muito de música. Minha mãe tem uma memória musical impressionante. Meu pai tocava um violãozinho sem-vergonha! E tocava uma gaitinha também. na minha casa tinha muitos discos, aqueles discos 78. Aí, juntava os parentes, tinha as festas de cantoria e eu fui aprendendo a tocar violão com os meninos da minha rua.

A primeira pessoa do grupo que eu conheci foi o Jorge Carioca [falecido em 2003]. E ele tá aqui, bem , do lado! fui assistir ao desfile das escolas de samba e estava passando a Alterosa e, de repente, passou uma cabrocha desengonçada no ‘sambar’, tão cadeira dura, tão ruim de samba que eu não aguentei e comecei a rir. E, de repente, eu vejo um magrelinho do meu lado rolando de tanto rir. Era o Jorge Carioca. Começamos a comentar como ela era ruim de samba e, a partir dali, ficamos amigos. Saímos dali pra tomar cerveja e ele já foi almoçar lá em casa e começamos a tocar violão.

O Claret eu conheci via Beltar, através do pessoal da serenata que, no final da década de 70 e começo da 80, era uma coisa muito forte aqui em Pouso Alegre. o Beltar foi um dos maiores gênios da música que Pouso Alegre já teve e que perdeu precocemente para o alcoolismo, com 22 anos de idade.

Um dia, eu fui com a Vânia, minha esposa no bar Juriti e encontrei o Raimundão, que eu tinha conhecido no Teatro Municipal no dia da apresentação de uma peça dele, com o Tão Bonecão e o fernando fernandes. E foi ali que falamos sobre tocarmos juntos.

Como eu já conhecia o Claret, eu propus que a gente fizesse uma música pra concorrer no Festival de Itajubá. E resolvemos ir. o Maurício ainda não estava com a gente. fomos eu, o Raimundo, o Marquinho; o Claret iria, mas ele tinha uma peça do GTAC; então, ele mandou o Jorge no lugar. Aí, de repente, chega o Jorge sem ensaiar a música… mas como ele era danado, aprendeu rapidinho.

Fomos pro festival defender a música Atrás do sul, que fala um pouco da exploração das pessoas nas colheitas de café, das coisas da igreja, dessa parte mais falsa da religiosidade que busca conquistar lucros. E com essa música fomos pro festival e perdemos.
(…)

Resolvemos ensaiar diariamente, já que tínhamos várias composições do Jorge, do Raimundo e minhas também.

O Imbuia sempre existiu em volta de fogão, de amizade e de bebedeira. E a gente sempre falava que o mais importante de tudo era nossa amizade, tanto quesomos amigos até hoje. É uma amizade de 30 anos.

Começamos a compor e tínhamos a necessidade de falar o que a gente vivia e de onde vivia, que era o sul de Minas. nunca programamos fazer música pra fazer sucesso e ganhar dinheiro; nós gostávamos mesmo era de estar juntos. não tínhamos pretensão comercial, embora no fundo todos sonhassem com um pouco de sucesso.

A culinária sempre nos acompanhava também. Uma vez fiz uma música em homenagem ao fogão da casa do fabinho, aonde a gente ia sempre festar, e fiz um samba também em homenagem à comida que a Vânia faz… e na música fala o nome de todo mundo do grupo e de outros comensais.

Começamos em 79 e o primeiro show, Nossas Noites, foi em 80, no Teatro Municipal, considerado por nós a casa do grupo Imbuia.

Daí em diante, montávamos um show por ano, começando em Pouso Alegre e rodando a região. nunca gravamos um disco, temos uma faixa da música Imbuia no CD de 150 anos de Pouso Alegre. O Raimundão gravou um disco solo com algumas composições nossas, mas o grupo Imbuia nunca gravou um disco.

O Imbuia era agregador de artistas e muito generoso com todos. Então, todos os meninos que estavam começando a tocar, podia ser qualquer estilo, a gente convidava pra participar dos nossos shows. A gente apresentava, botava na roda… e dentro dessa roda apareceram o Helder Costa, o Wolf Borges, o Ivan Vilela, que era do grupo água Doce, mas que a gente trazia sempre aqui; tinha o Duo fernando, o conjunto do leco, o Geraldo que cantava Lua Solitária e muitos outros. Acredito que a amizade que rolava entre nós seduzia as pessoas; a turma gostava de conviver com essa energia boa.

Oficialmente, o grupo durou 6 anos. Depois, cada um seguiu seu caminho. Maurício foi tentar ser músico profissional em São Paulo. Raimundo foi pra Varginha fazer engenharia. Claret foi pra Itajubá estudar. Marquinho já tinha ido embora hámuito tempo. ficamos só eu e o Jorge aqui. Às vezes, nós dois íamos fazer um show e, de repente, tava o Maurício ali do lado tocando com a gente, mas não deu pra continuar.”

O retorno

“nós demos um show este ano [2009] na Univás [universidade de Pouso Alegre], no Festival de Inverno. Tínhamos ensaiado pouco e fomos eu, Maurício e Raimundo e aquelas 300 pessoas ali conheciam nossas músicas e cantavam junto com a gente.

Como escreveu o lauro, meu filho: ‘Quem tem mais de 30 anos e viveu os anos 80 aqui em Pouso Alegre conhece o nosso trabalho’.

Este ano o Wolf Borges nos procurou com a ideia de produzir um DVD ao vivo e então topamos na hora.

Passamos a rever os arranjos, porque muitos desses arranjos a gente não lembrava mais como era, a não ser aquelas que o povo sempre pede pra gente tocar. Aí sentamos eu, o Maurício e o Raimundo e fomos tirando um som. fizemos um repertório de 18 músicas. Convidamos o omar fontes Júnior, grande tecladista de Itajubá. Ele está dando uma grande força pra nós com seu piano maravilhoso. E as músicas ficaram lindas!

Tem também o Claudinho, de ouro fino, que faz a percussão; e o Marcão, que é baixista e mora em São Paulo, inclusive ele toca com o Marcelo Camelo do grupo los Hermanos. o Wolf e a Jucilene Borges fazem o backing vocal; e isso é uma grande honra pra nós, porque eles estão na estrada faz tempo. E temos dois convidados especiais que vão nos dar um auxílio luxuoso, que são o Ivan Vilela, uma das maiores autoridades em viola caipira do Brasil, e o Helder Costa, um grande instrumentista e fã do Imbuia.

Hoje nós somos um Imbuia mais velho, mas sem perder a ternura.”

Claret, a semente começa a brotar

“Meu nome é Antônio Claret Coutinho de oliveira. Eu tive um professor de violão clássico, o Beltar, e participava de grupos de serenata. Acabei indo tocar viola. fiz um pouco de Conservatório [Estadual de Música de Pouso Alegre], assim como o Maurício e o Raimundo. Conheci o Mesquita, o Raimundo e o Marquinhos e fomos defender uma música do Mesquita – Atrás do sul – no Festival de Itajubá. Depois, fomos defender a música Imbuia num festival em Santa Rita do Sapucaí. o Inatel exigia o nome do grupo de música, então o Mesquita falou que o grupo se chamava ‘Imbuia’.

O grupo tem composições lindas, mas a música Sapucaí tem uma melodia muito bonita e dá uma saudade daquele rio Sapucaí com seus peixes e suas canoas.

Tem um fato interessante que gostaria de ressaltar. Em 1989, quando estávamos fazendo a inscrição de três músicas no Festival de Música Popular da Faculdade de Medicina de Itajubá, quando eu disse o nome de uma delas – A triste história de Maria das Graças e Everaldo Procópio e a parede derrubada –, composta pelo Mesquita e por mim, o pessoal da organização começou a rir. Uma moça comentou que, se a música era assim, o título deveria ser engraçado também e perguntou: ‘Qual é o nome da música?’. Quando terminei de falar o nome, ela perguntou novamente: ‘Mas qual é o nome da música?’. Perguntei: ‘Qual?’. Disse ela: “Dessa que você acabou de falar a letra’. Respondi: ‘Esse é o título da música’. Ela começou a rir e disse: ‘Com um nome destes, faço a ideia do tamanho da letra’.

A proposta do Mesquita para a gravação desse DVD era que eu tocasse viola, mas já parei de tocar
há 14 anos; então, não deu.”

Raimundo, a árvore começa a crescer

“Meu nome é José Raimundo Andrade e a minha experiência de música vem de família também. Eu tinha uns tios que moravam no bairro Córrego dos Mulatos [município de Estiva] e as festas dali
sempre aconteciam na casa deles. Eles tocavam sanfona e meus primos tocavam uns tambores de
couro de animal. Depois de uma semana inteira de trabalho na roça, chegava o fim de semana e eles
viravam a noite tocando.

E tudo isso me marcou muito. nos fins de semana eu ia pra lá pra cantar e tocar com eles e assim me despertei pra música.

Era casamento de uma prima minha, a Marisa. Na casa dela tinha três quartos e uma cozinha e o
banheiro era lá nas mangueiras. A sala da casa tinha uma parede que dividia o cômodo ao meio e de
repente a festa foi ficando animada e foi chegando gente sem parar, ao ponto de não caber mais ninguém lá. Aí eles pararam a festa e derrubaram a parede pra aumentar o espaço. E a sala acabou virando um salão de dança – e esse fato acabou virando música.

Quando o Mesquita soube dessa história ele ficou encantado e fez a música A triste história de Maria das Graças e Everaldo Procópio e a parede derrubada [em parceria com Claret]. Esse tema contava também a história desse casal que começou a namorar nessa festa, mas não deu certo.

Essa convivência com os meus tios definiu a minha vida na música. Depois disso eu entrei no Conservatório e fui aluno de folclore de Inezita Barroso, uma pessoa que marcou muito a minha vida. Ela levava os alunos pra viajar aqui na região. Uma vez nós fomos a São Gonçalo do Sapucaí, numa festa de congo, e foi uma das coisas mais lindas que eu já tinha visto na minha vida. A partir daí não abandonei mais as congadas e o moçambique.

Outra professora marcante pra mim foi a dona Hercília, mãe do Miele. Ela dava aula de canto lírico, mas não era meu estilo, apesar de achar bonito. Mas ela me ajudou muito em matéria de dicção, respiração e técnicas vocais e acabei indo cantar no Imbuia mesmo.
(…)

O nosso repertório foi crescendo. Cada um compunha muito bem. não tínhamos a proposta de ser o grupo Imbuia. Tudo rolou muito naturalmente. As músicas em si já pediam uma identidade, as próprias canções trilharam o Imbuia. São músicas fortes, que a gente faz com o coração.

Nunca tivemos a pretensão de arrebentar, de ganhar dinheiro com música; era uma coisa do coração de cada um, do que cada um sentia.

Nós temos três músicas com o título de ‘Imbuia’. É Imbuia I, Imbuia II e Imbuia III. Essa música Imbuia I me emociona muito, tanto pela composição como pela convivência com o nandinho, com o Jorge e com o Henrique Gasolina.

Por mais que eu tente outras coisas na minha vida, a música está sempre me acompanhando e dando um rumo interessante à minha vida.

Agora com essa coisa do Imbuia estar gravando um DVD, puxa! De repente o Imbuia tomou conta de todos de novo e retomei tudo. Já estou compondo novamente, pensando no Imbuia. A nossa vontade é cair na estrada de novo e tocar muito!”

Marquinhos, surgem os galhos

“Meu nome é Marco Antônio de Carvalho Moura, vulgo ‘Kid Bacaninha’, apelido dado pelo Jorge Carioca, que fez parte do grupo e que nos deixou tão cedo. E ele tinha essa qualidade peculiar de apelidar as pessoas. Era um grande gozador.

Eu vim para Pouso Alegre em 80. Meu pai passou num concurso de supervisor do Estado e veio trabalhar com o Mesquita. nós somos de Alfenas [MG] e, na época que o meu pai veio pra cá, eu estava em Montes Claros [MG] e resolvi vir morar com ele.
(…)

Fiz amizade com o Mesquita e passei a tocar com eles, mas foi por pouco tempo, porque, em 81, minha mãe adoeceu e eu fui pra Belo Horizonte [MG] dar uma assistência a ela. Mas o período com o Imbuia foi uma das experiências mais maravilhosas da minha vida.

Em Alfenas, eu toquei com alguns amigos, mas eu considero a minha imersão na música a partir do Imbuia. Depois disso deixei praticamente a música de lado, fui morar no Rio de Janeiro e em outros lugares também. Em 2002, voltei para Belo Horizonte e fui estudar canto lírico no Centro de formação Artística do Palácio das Artes. fiz algumas apresentações em Belo Horizonte.

Na verdade, a flauta foi mais um hobby nessa trajetória musical. E tive a grata satisfação de receber a notícia da reunião do Imbuia novamente, da gravação do DVD, de poder tocarmos juntos de novo. Isso é fantástico!”

Maurício, as primeiras folhas

“Eu cresci numa família onde rolava muita música. Minha mãe tocava piano; minha vó, dona Josefa Azevedo, foi uma grande pianista aqui em Pouso Alegre, foi professora de vários pianistas da cidade. Minha mãe colocou minhas irmãs pra estudar piano e me colocou na aula de datilografia.

Realmente eu nunca entendi aquilo. E o curioso é que cada uma das minhas irmãs seguiu seu caminho longe da música e eu joguei fora a máquina de escrever e fui procurar tocar com os meus amigos.

Quando eu vi o grupo tocando a música Atrás do sul no Festival de Itajubá, decidi que era aquilo que eu queria e era com aquele povo que eu queria tocar. Aí comecei a aprender música na raça mesmo. Aprendi muito com o Beltar, com o Mesquita, com o Raimundo e com o Jorge Carioca. fiz um ano de Conservatório e não consegui entender nada de teoria musical.

Fiquei atrás deles, acompanhando as rodas de viola do Mesquita e do Jorge Carioca e pedindo pra tocar com eles. Depois de tanta insistência, acabei conseguindo e estou até hoje engastalhado com eles.

Essa história do Festival de Santa Rita foi incrível. Inscrevemos sete músicas e as sete foram classificadas. Eram duas semifinais, uma na sexta e outra no sábado. E a final era domingo. Estavam classificadas dez músicas para a final e as sete músicas nossas estavam lá, mas não ganhamos nem em primeiro, nem em segundo e nem em terceiro lugar.

É difícil dizer a música preferida do nosso repertório. Geralmente a gente gosta mais daquela que a gente toca melhor. Quando a música sai legal e tem o resultado bacana com o grupo tocando, ela marca muito a gente. Atualmente eu tô gostando muito da música Com os amigos, uma composição do Mesquita.

Eu quero encerrar dizendo que toda minha formação musical eu devo ao Imbuia, mas o mais importante é que devo ao grupo a minha formação como pessoa. Aprendi o valor da amizade e sou quem sou por causa do Imbuia.”

Grupo Imbuia: Marcos Mesquita Filho,Antônio Claret Coutinho de Oliveira, José Raimundo Andrade, Marco Antônio de Carvalho Moura e Maurício Brandão. Entrevistas realizadas em 12 de outubro de 2009 no Centro de Convivência do Idoso, em Pouso Alegre, durante os ensaios dogrupo para a gravação de seu primeiro DVD