Vozes múltiplas, histórias singulares
Música

Luiz de Castro, 40 anos de estrada, 1.500 canções compostas

“Oi gente! Eu sou o Luiz de Castro, nasci em Campo do Meio [cidade próxima à Varginha, MG] e cresci plantando árvore, enrestiando alho e quebrando pedra para a construção de um prédio na minha cidade. Minha família era pobre e tive que começar a trabalhar cedo; por isso, não pude continuar meus estudos – fiz até o quarto ano primário.

Cresci ouvindo artistas sertanejos nas rádios, como Torres e Lourenço, Tonico e Tinoco e Cascatinha e Inhana. Alimentava o sonho de ouvir uma composição minha nas vozes destes artistas.

Este gosto pelos versos eu herdei do meu pai, que deixou um livro de poesias editado. Como minha cidade era muito pequena, tivemos que mudar para Varginha pra arrumar trabalho. Consegui emprego numa metalúrgica e lá fiquei 4 anos. Na esperança de que alguma dupla sertaneja de lá pudesse gravar minhas músicas, comecei a frequentar os bares da cidade e levava minhas composições pra eles.

Um gerente da Casa Maracanã ouviu uma música minha uma vez e ficou encantado com a beleza dos meus versos e quis saber de quem era a música. Quando soube que era minha se ofereceu pra ajudar a divulgar meu trabalho em São Paulo. Na época eu tinha 30 músicas escritas num caderninho.”

A chegada a São Paulo

“Um tempo depois eu tirei férias da metalúrgica e segui pra São Paulo sem conhecer nada da cidade. Fui com Deus, a cara e a coragem. Na primeira porta que eu bati, a gravadora Continental, já veio a primeira decepção. O diretor me tratou com desprezo e disse que não tinha tempo a perder com vagabundo. Eu não tive tempo de dizer nenhuma palavra. Minha vontade foi de rasgar meu caderninho e voltar pra casa. Mas não desisti. Fui pra pensão onde morava e me lembrei que Cascatinha e Inhana tinham um programa na Rádio Record todas as quintas, das 7 às 8 da manhã. Fui bem recebido por Cascatinha, mas quando ele olhou a primeira música – Somente Tu –, disse que ela não prestava; na segunda música – Covarde –, perguntou se tinha melodia. Como tinha, ele disse que poderia aproveitar, mas teria que cortar o refrão que era muito longo.

Fiquei animado e comecei a buscar outros artistas da Rádio Record. Um dia cheguei lá faltando 20 minutos pra começar o programa do Palmeira, grande intérprete da época, mas o porteiro não me deixou entrar. Então, eu menti que tinha um encontro marcado com o cantor e que ele estava me aguardando. Não pude subir até o auditório. Fiquei esperando ali na rua, perto do portão de entrada.

Eu não conhecia ele pessoalmente, só das capas de discos. Quando ele chegou, eu me apresentei e disse que tinha um sonho de ver uma música minha gravada. Disse a ele que era mineiro e ele disse que gostava muito dos mineiros. Aí me convidou para subir com ele e esperar o final do programa e disse que depois daria uma olhada nas minhas composições.

Palmeira registrou minha presença no auditório e quando terminou o programa quis ver minhas músicas. Ele gostou muito da música Somente Tu e perguntou aos companheiros da rádio se eles tinham gostado. Disseram que era muito boa.

Ele ficou tão entusiasmado que declarou que não precisava correr atrás de sucessos, mas que o sucesso vinha até ele.”

O reconhecimento

“Parecia um sonho, mas não era. Começava ali uma nova história na minha vida. Palmeira agendou comigo uma visita até a Chantecler pra fazer o contrato de três músicas que seriam gravadas.

Aquela dor que eu senti na primeira porta que eu bati se transformou em satisfação. A música desprezada era bem acolhida por Palmeira, um dos maiores diretores de gravadora de todos os tempos. Ele lançou a música Somente Tu e, em um mês, ela já estava nos primeiros lugares das paradas de sucesso. Hoje essa música tem 36 gravações no Brasil e quatro no exterior.

Eu tenho 49 anos de estrada e mais de 1.500 composições; tenho algumas gravações independentes também. Hoje, eu sobrevivo dos direitos de execução das minhas músicas. Muitos famosos da época gravaram composições minhas, inclusive Cascatinha e Inhana; depois vieram Milionário e José Rico, Trio Parada Dura, Pedro Bento e Zé da Estrada, Lourenço e Lourival e muitos outros. Da nova safra, meus intérpretes são Daniel e Chitãozinho e Xororó. E tá bom assim.

Os novos artistas gravam músicas fabricadas, que não têm início, nem meio, nem fim. Minha satisfação não é fazer esse tipo de música, e sim seguir o dom que Deus me deu de ser um verdadeiro compositor, com conteúdo de versos e palavras. Esta é a minha alegria, junto com o reconhecimento do público. Por onde vou, eu sou convidado a dar entrevistas e tirar fotos com os fãs.

Com os direitos autorais, estudei meus filhos e construí duas casas. Poderia ter tido muito mais se aderisse à composição em massa, mas eu dispenso isso tudo, prefiro corresponder ao dom divino.

Eu vejo um futuro triste para os compositores. Acredito que é uma profissão em extinção. Hoje, o compositor sobrevive exclusivamente do direito de execução, porque a pirataria faz uma concorrência desleal com ele. Antigamente, disc jockey corria atrás dos compositores pra divulgar suas músicas. Hoje, pra tocar um lançamento nas rádios, somente mediante pagamento da gravadora. Dificilmente, surgirão novos compositores como na minha geração de sertanejos. A máfia das gravadoras não dá acesso a novos talentos.

Meu forte sempre foi a música de raiz. Minha vida no interior e o contato de perto com a natureza serviram de inspiração pra mim. Em 1965 compus a música Encanto da Natureza, gravada por Tião Carreiro e Pardinho e, recentemente, por Daniel e seu pai.

Já compus música para Pouso Alegre também, mas por ser um tema bairrista, sem valor comercial, não tive incentivo para gravar.

Sou um amante da natureza, até me fizeram um slogan: ‘Luiz de Castro, poeta da natureza’. fico preocupado com essa devastação desenfreada. Já estou com 72 anos e ainda tenho um sonho de transformar o meu poema João Ninguém em um filme. E essa vai ser uma outra história que eu vou contar.”

Luiz de Castro, 72 anos, mora em Pouso Alegre.Entrevista realizada na Rádio Difusora de Pouso Alegre, em 7 de setembro de 2009