Vozes múltiplas, histórias singulares
Música

Odilon, o fruto e a memória de Nonô e Naná

“Eu nasci em São Caetano do Sul e desde a minha infância eu já acompanhava meu pai ensaiando com a minha mãe. Minha casa sempre tinha dois ou três violões na sala. Cada vez que meu pai pegava um violão, eu já pegava outro e a gente ia brincando. Cresci nesse ambiente musical.

Quando numa determinada época, lá pelos meus 9 anos de idade, meu pai comprou uma escaleta pra mim, eu comecei a brincar com o instrumento. Acho que ele já fez isso meio de propósito. Então, comecei a acompanhar as introduções das músicas e foi aí que eu comecei profissionalmente. Passei a fazer parte dos shows nos circos e nos programas da Rádio nacional. Isso foi nos anos 60 e eu estava com 11 anos.

Mais tarde, nós formamos um grupo de música sertaneja, junto com meu primo e outros amigos. Tanto na família do meu pai como na família da minha mãe, ou tem alguém que canta ou alguém que toca algum instrumento. Mesmo com o grupo, eu sempre estava acompanhando meu pai. Em 1981, nós tínhamos um projeto na Secretaria de Cultura de São Paulo. Aí eu deixei de acompanhar meus pais e formei meu grupo, chamado ‘Cheiro da Terra’, cantando música sertaneja. Gravamos um disco pela Continental, em 1982.

Chegamos a gravar duas músicas do meu pai. Quando tudo estava engatilhado para o segundo disco, o grupo acabou.

Depois disso, fui tocar com outros artistas, fui tocar na noite, ‘pedágio’ que todo músico tem que pagar. Trabalhei um tempo com um grupo de música que se apresentava em jantares dançantes.

Depois de um tempo, meu pai se mudou para Pouso Alegre e eu continuei lá. Me casei em 1999 e fui trabalhar com a Sula Miranda. Trabalhei com ela durante 5 anos.

Meu pai vivia me chamando pra vir pra Pouso Alegre e as ideias foram amadurecendo. Então, resolvi vir.

Fiz faculdade de música em Três Corações [MG] e trabalho no Conservatório [de Pouso Alegre] como professor de viola caipira.

Atualmente, eu faço arranjos para outros artistas, faço jingles pra rádios e tudo com a ajuda da informática, que veio facilitar o trabalho do músico com novos materiais e boas informações. Também coordeno a banda de Bandeirante e zé Batista, dou aulas particulares e toco em casamentos.”

Nonô e Naná

Nonô e Naná, parceria na vida e na música. Ele faleceu em julho de 1999 e ela, em janeiro de 2002

“Meu pai é nascido em formiga [MG] e minha mãe, em Divinópolis [MG]. Ela sempre gostou de teatro.

Minha avó, mãe do meu pai, era uma pessoa muito conhecida em formiga. Ela era parteira e uma pessoa muito querida lá. o meu avô paterno era peão de boiadeiro, pegava tropa dos outros pra entregar. O contato que meu pai teve com o meio rural foi através dessa história do meu avô, um amante da música também.

Meu pai contava que minha avó pedia pro meu avô ir buscar uma mistura pra janta na venda. Ele saía às4 horas da tarde e só voltava às 3 horas da manhã. Às vezes, ela pedia pro meu pai ir buscar meu avô, ele ia e ficava também. Quando ele chegava à venda, meu avô o colocava ali na roda pra cantar junto.

Antes de conhecer minha mãe, meu pai já cantava com um irmão dele e eles já tinham ido para o Rio de Janeiro e São Paulo tentarem alguma coisa.

Certo dia minha mãe foi pra formiga para participar de um grupo de teatro. Eu não sei como, mas minha mãe acabou fazendo amizade com o pessoal do meu pai e se envolveu com a família dele, antes mesmo de conhecer meu pai. nessa época, meu pai estava em São Paulo e tinha ido passear em formiga, conheceu minha mãe e se encantou. Ela era uma mulher lindíssima! E o engraçado é que eles têm uma diferença de idade de 13 anos. logo se casaram e se mudaram para São Paulo.

A minha mãe nunca teve a pretensão de ser cantora. Começaram a cantar de brincadeira. Quando meu pai ia mostrar as músicas dele para a dupla Cascatinha e Inhana, ele ensaiava antes com a minha mãe e a levava junto pra apresentar a música.

Um dia, o Cascatinha falou pro meu pai que ele estava perdendo tempo, porque tinha uma mulher bonita e cantando bem. Por que então não faziam uma dupla? E daí passaram a ensaiar pra valer. o Cascatinha, além de ter sido padrinho de casamento dos meus pais, foi também padrinho artístico, porque foi ele que levou os dois para as primeiras gravações, os primeiros programas de rádio. Com a dupla formada, passaram a cantar pelo Brasil e fizeram muito sucesso em Goiás.

Nessa época, meus pais viajavam direto e eu ainda era bebê. Eles me colocavam pra dormir dentro da caixa de violão. Mais tarde, ainda fazendo muitos shows, eles ficavam 15 dias fora e nós ficávamos em casa, na companhia de dona Emília, uma vizinha que olhava a gente.

Eu tinha 3 anos, minha irmã tinha 2 e meu irmão [Henrique Basílio, também professor do Conservatório] não era nascido ainda.

Eles saíam pra gravar o programa da Rádio Record às 5 horas da manhã e deixavam a gente dormindo, trancavam toda a casa. Minha mãe deixava alguma coisinha pra gente comer, ali em cima da mesa, pra não ter o risco de ligar o fogão.”

A dupla em Pouso Alegre

“Depois de São Caetano [cidade do ABC paulista], mudamos para a zona leste de São Paulo e lá passei a minha adolescência. Daí fomos para o bairro de Santa Cecília e, depois, mudamos para Pouso Alegre. Meu pai já tinha a intenção de sair de São Paulo e ir pra formiga; ele estava cansado da cidade grande. E aí ele começou a procurar um sítio pra comprar, mas não achou nada em formiga. Então, como ele já tinha amizade com o luiz de Castro [compositor sertanejo, também entrevistado neste livro], que já morava em Pouso Alegre, um dia ele veio visitar a cidade e gostou.

No início, ele alugou uma casa no bairro Primavera. Começou a procurar um sítio pra comprar, acabou encontrando um sítio no bairro Cantagalo e lá viveu com a minha mãe um bom tempo.

Profissionalmente, eles já tinham atingido, para aquela época, o auge que se podia conseguir. Enquanto eles moravam aqui, faziam shows na região toda e, na época das eleições, fizeram muitos shows políticos em parceria com Bandeirante e zé Batista. Meu pai continuou compondo também.

nessa época, minha mãe já estava com problema sério de garganta e com dificuldade pra cantar, até que chegou o dia que ela não pôde mais cantar; já tinha feito três cirurgias.

Às vezes, vinham duplas de São Paulo procurar músicas com meu pai. Ele tinha um lado como compositor e um lado como intérprete. Como compositor era nonô Basílio, com uma infinidade de músicas gravadas, sendo Mágoa de Boiadeiro a música que o projetou. E com a minha mãe formou a dupla nonô e naná, assumindo assim seu lado de intérprete. o grande sucesso da dupla é Casa de
Caboclo, de autoria do meu pai.”

Nonô, o compositor filósofo

“Talvez, em função da sensibilidade mais apurada, compositores como meu pai e outros compositores e músicos, parece que têm um canal de comunicação com as coisas do universo. A convivência direta com a música desperta essa inspiração pra compor.

Quando a inspiração chegava para o meu pai, ele escrevia em qualquer papel que tivesse ali por perto. Às vezes acontecia de alguém pedir uma música pra ele, com um determinado tema, ele ficava pensando naquele tema, elaborando e desenvolvendo a música. Mas não acontece sempre assim, não tem receita, não é como fazer pastel.

E assim ele escreveu grandes sucessos. Suas composições foram gravadas por liu e léu, zico e zeca, Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana, Milionário e zé Rico, Chitãozinho e Xororó, Cezar e Paulinho, Matogrosso e Mathias e muitos outros.

A maioria das músicas de nonô e naná era composição do meu pai, mas eles interpretavam outros autores também. Gravaram 12 lPs, fora os de 78 rotações, que foram uns quatro ou cinco. Depois, teve um compacto simples, um disquinho de 45 rotações, era uma música de cada lado e, às vezes, duas.

Fomos sustentados com a música. Muitas vezes passamos dificuldades, porque nessa época não tinha cachê fixo, como hoje. Eles saíam de São Paulo e iam fazer show no circo em São José do Rio Preto com o acordo de 50% para o artista e 50% para o dono do circo. Se tivesse renda, todos ficavam satisfeitos; se não tivesse renda, cada um ia pra casa com seu prejuízo.

Ele tem composições inéditas e estão guardadas. Recebemos direitos autorais até hoje. não é nada significativo, mas já ajuda. Se o direito autoral no Brasil fosse pago corretamente como se deve, estaríamos milionários. A música Mágoa de Boiadeiro – não tem como contar as regravações que já foram feitas – foi até tema de filme, estrelado por Sérgio Reis. A história do filme foi feita em cima da letra da música do meu pai e, nesse filme, aparecem meus pais, meu irmão, eu e minha irmã. Se esse sucesso fosse nos Estados Unidos, estaríamos milionários com apenas essa música.

O repertório do meu pai é grande. Deve ter por volta de mil músicas gravadas. A música dele que eu mais gosto e que eles gravaram é Minha Riqueza. Esta música foi inspirada na casa deles, um ambiente de carinho, muito amor e música. Meus pais são o nosso esteio. Devo a eles minha formação musical, de caráter e de ser humano.

Meu pai era um homem inteligente, acima do seu tempo, um filósofo. Era uma pessoa com uma alma rica – e toda semente foi plantada em nós com muito vigor. Tento passar isso pros meus filhos também. Minha mãe já era mais enérgica, mas nunca apanhamos com desrespeito. Ela batia comintenção de educar. Às vezes, naquela surra a gente chorava muito; aí, à noite, ela vinha, sentava com a gente e explicava o motivo daquela surra. Ela nos educou para sermos gente de bem e prontos pra viver lá fora.”

A última lembrança

“o último CD dos meus pais foi todo produzido por mim e se chama A última lembrança. o objetivo era mesmo deixar um registro pra todos. Minha mãe já estava com dificuldades para cantar e foi emocionante produzir este trabalho.

Mesmo depois de pronto eu resistia em ouvir, porque, com a morte do meu pai e da minha mãe, dois anos depois, eu fiquei um bom tempo sem conseguir ouvir o CD. Se duas pessoas convivem por muito tempo, quando uma morre, dificilmente a outra resiste por muito tempo.

Meu pai gostava de ter tudo na mão e minha mãe fazia tudo com prazer: levava o café da manhã na cama, levava o cigarro e o chinelo. Então, ela se dedicava muito a ele e, com a morte dele, ela ficou meio sem chão, entrou numa depressão profunda.Às vezes, ela ficava um pouco aqui em casa, às vezes com meu irmão e outras vezes com a minha irmã, mas nada substituía aquela rotina dela junto com meu pai. E, com tudo isso, não teve jeito. A doença dela se agravou. Às vezes, a gente tinha que ser duro com ela pra tirá-la de casa e distrair um pouco. Ela estava apática, não queria nada. Aqui tinha uma cadeira de balanço em que ela gostava de ficar e, se deixasse, ela ficava horas ali sentada.

Pra quem teve a vida intensa que ela teve, com shows, viagens e tudo o mais, era triste vê-la daquele jeito. Ela já vinha se abalando desde quando não pôde mais cantar devido à flacidez nas pregas vocais. Depois, com a morte do meu pai, tudo ficou difícil demais pra ela.”

Odilon Baptista de Souza, 53 anos, reside no Jardim Olímpico, em PousoAlegre. Entrevista realizada em seuestúdio, em 12 de outubro de 2009