Vozes múltiplas, histórias singulares
Música

Rancheiro, 55 anos de música sertaneja

“Se tropeiro só fala em burro,
carreiro só fala em boi,
moça só fala em namoro
e velho conta o que foi.”

“Durante toda nossa trajetória de quase 60 anos de rádio, 6 a 7 anos de TV, o nosso Rancho do Rancheiro está sobrevivendo a todos estes anos. Só aqui na Rádio Difusora nós estamos há 22anos. É uma vida! fizemos agora um DVD dos 55 anos de carreira. o Rancheiro começou em 1900 e antigamente… Eu uso falar isto na Rádio há quase 60 anos, defendendo a fauna, a flora, a natureza, defendendo o vovô, a vovó, a dona de casa amiga.

Com 8 a 9 anos de idade, o meu pai me deu um violão. Veja bem! Como a nossa trajetória vem desde cedo. Ali, o Rancheiro foi aprendendo a tocar um violãozinho, depois uma viola e outros instrumentos de corda: cavaquinho, contrabaix0… E conseguimos fazer algumas músicas.

O Rancheiro nasceu na cidade Araraquara [SP], mas chegou em Pouso Alegre em 1955. E aqui adotei esta cidade como minha terra natal.”

Pé na estrada

“Aqui formamos a dupla Rancheiro e Rancheirinho e partimos para o Rio de Janeiro, onde ficamos durante 4 anos. no Rio, participamos da Rádio nacional, de programas sertanejos da Rádio Mundial, da Rádio Mayrink Veiga, da Rádio Mauá.

O Rio daquela época gostava de música sertaneja, mas não era muito fácil. A maior aceitação era humorismo. A dupla Alvarenga e Ranchinho estava no auge naquele tempo. Tivemos a felicidade de ficar conhecendo a dupla e gravar muitas músicas juntos. E ali, na Rádio Mayrink Veiga, tivemos a oportunidade de gravar na Columbia, uma gravadora multinacional.

Em São Paulo, a dupla Rancheiro e Rancheirinho esteve na Rádio Bandeirantes, na Rádio Piratininga.

O Rancheirinho, francisco de Barros Barata, que está vivo até hoje, mora em Pouso Alegre, e é mais novo que o Rancheiro 3 anos. Conheci o Rancheirinho há 40 anos e começamos cantando de brincadeira. E a dupla sobreviveu 35 anos.

Era mais que irmão. Rancheiro e Rancheirinho, uma dupla que viajou todo o Brasil, de norte a sul. Gravamos mais de 360 músicas, 99% composição própria. o nome ‘Rancheiro e Rancheirinho’ é registrado no Ministério do Trabalho e, além do francisco, tive um outro companheiro, por pouco tempo, que foi o João Rangel.”

Sucessos

“Um sucesso: Chuva Mansa. Uma música que esteve 20 anos na nossa gaveta e a gente não gravava porque achava a música muito séria. E ela surpreendeu a todos. no Rancho do Rancheiro, aqui na Rádio Difusora, todos os domingos, do meio-dia e quinze às 4 horas da tarde, não tem um domingo que não toca quatro a cinco vezes.

Aquela Mulher foi regravada no México. É tema de um filme – Os quatro assassinos de Sartana, banguebangue italiano.

Ela era tão bonita
dos cabelos soltos
nos ombros caídos
Era sereia pequena
da pele morena
de um amor vivido…

Várias duplas gravaram música minha. A músicaÚltimo peão de boiadeiro, de minha autoria e do luiz de Castro, foi gravada por Pedro Bento e zé da Estrada. Começa assim:

Este sertão conheço a casco de cavalo,
conheço o rio desde a foz até a nascente.
O descanso vai até o cantar do galo,
o meu trabalho vai até o sol poente…

Compor

“Compor é um estalo! É como os programas que faço em rádio, em televisão. não tenho nada escrito. Tem uma música que fiz recentemente. Eu precisava contar uma história da minha companheira, que é a dona Joana, minha esposa, com quase 40 anos de casamento. Tenho três filhos: Elaine Cristina, Mariângela e o Carlos Alberto. E eu sentei na mesa de minha casa e falei: ‘Joana, eu vou fazer aqui uma letra’. Enquanto ela foi na cozinha, passaram uns 15 minutos, eu estava com a música pronta.

Veja bem! Eu acho que é um dom divino. Eu converso com Deus do meu jeito: na igreja, na minha casa, debaixo de uma árvore. Só agradeço e digo o seguinte: ‘Meu Pai Celestial, olha, só quero te agradecer pela minha vida, pela saúde da minha família, dos meus amigos, dos meus irmãos. Por favor, meu Pai Celestial, não tire suas mãos de meu ombro, enquanto eu for útil’. E, graças a Deus, eu já dobrei a Mantiqueira, cheguei a pé a Aparecida do norte e tô voltando. Quero chegar aqui em 2020. Tá longe 2020, nós estamos em 2009 [risos].”

Saudade e amizade

“Tenho saudade de tudo, da nossa infância, da nossa mocidade. E quem não tem? os anos passando… eu acho que envelheci. Envelhecer é um presente de Deus. E aquelas viagens que a gente fazia por quase o Brasil todo… A gente tem saudades. Deixamos amigos neste mundo de meu Deus. E quando eu digo ‘amigos’, são aquelas pessoas que fizeram com que a gente chegasse até aqui, pela audiência do nosso programa, pelas nossas músicas cantadas até hoje pelos jovens e pelo vovô também.

A gente tem saudade de tudo, mas nem por isso deixa perder aquela garra, aquela vontade, porque é isto que movimenta o ser humano. Amizade não tem preço; amizade não se compra, se conquista. E quando você sai na rua, com todos estes anos de jornada, a gente encontra pessoas que para,cumprimenta e parabeniza. É um presente que a gente não esquece nunca.

A vida é cheia de tropeços, mas a gente tem que tirar de letra, tem que sorrir até dos tropeços de nossa vida.

Tenho saudade também daquelas topadas, quando a gente chegava com o disco debaixo do braço procurando uma emissora. E quando era bem recebido, o sujeito tocava na frente da gente. E hoje é uma máfia; se não pagar, não toca. não é o nosso caso. nunca cobrei de ninguém nos programas na TV libertas, na Rede Vida de Televisão.

Então, saudade… Quem não tem passado, não tem presente. Tenho saudade de tudo.”

Celso Faria, conhecido por Rancheiro, vive no sítio do Morro Grande, no bairro Santa Laura, em Pouso Alegre. Entrevistarealizada na Rádio Difusora de Pouso Alegre, em 7 de setembro de 2009