Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Alexandre de Araújo – O guardador de memórias

“Meu nome é Alexandre de Araújo. Nasci numa quinta-feira, às cinco horas da manhã, no dia 17 de abril de 1922. Estou atualmente com 89 primaveras nas costas [2011]. Meu pai é natural de Conservatória, estado do Rio de Janeiro. Ele foi policial em Uberaba, depois veio pra Pouso Alegre e se casou com a minha mãe.

Meu pai tinha tipografia, papelaria e livraria, ficava de frente ao Hotel Cometa. Eu morava ali. Trabalhei com meu pai na papelaria e livraria. Na tipografia, nunca trabalhei. As pessoas que trabalhavam na tipografia tinham que ter muita habilidade pra manusear aqueles tipos. Naquele tempo, tinha um jornal que se chamava Gazeta de Pouso Alegre. Depois de impresso, o jornal ia pra revisão e quando ele voltava corrigido, ia pra impressão final. Os redatores da época eram o doutor João Beraldo, o José Eduardo Costa e o João Queiroz. Os assinantes recebiam o jornal em casa.

Infelizmente, meu pai perdeu tudo, porque era comum as pessoas avalizarem outras pra retirar dinheiro no banco. E isso levou meu pai à ruína. Em 1951, ele foi pra São Paulo e lá trabalhou no Banco nacional de Minas Gerais. Em 1957, ele faleceu e foi sepultado no cemitério da Vila Mariana, em São Paulo.”

Educação enérgica

“Naquele tempo, a gente não ia pra mesa sem primeiro os pais estarem presentes. E ninguém mexia num talher se o pai não estivesse na mesa. A educação era primordial e, nas escolas, usavam-se palmatória, beliscões e coques na cabeça.

Os pais entregavam os filhos para o professor e diziam: ‘A partir de agora o filho é seu’. Se o filho reclamasse que tinha sido castigado na escola, quando chegava em casa, apanhava também.

Eu frequentei a escola Professor Ladislau. Naquela época, os castigos eram severos.

Qualquer deslize, você tinha que se ajoelhar para ler o livro e, qualquer erro, levava um coque na cabeça. Minha professora era filha do professor Ladislau. Eles eram de Silvianópolis. A escola era ali em frente às Lojas Americanas. Na época, tinha a escola da dona Francisca Libânio, mas era mais pra elite. Esse professor Ladislau tinha umas três ou quatro filhas e elas eram todas professoras. dali fui pro monsenhor José Paulino e, quando chegou a época de fazer os exames para a terceira série no Colégio são José, eu desisti dos estudos. Mas a leitura sempre me acompanhou. Gosto muito de ler e leio de tudo.”

Brincadeiras de infância

“Há oitenta anos, aqui [bairro Primavera], era só mato. Era meu lugar de caçar passarinho e fazer arapuca. Eu vinha pra cá na garupa do coronel Ribeirinho, que era dono disso tudo. No final da Avenida são Francisco, tinha um tanque com água que ia até o joelho. As lavadeiras do Alto das Cruzes vinham lavar roupa ali com sabão de cinza e levavam pra casa pra enxugar.

Minhas brincadeiras eram jogar bola de gude, bater peteca nas manhãs frias de inverno. Outra brincadeira comum era pular muro pra roubar jabuticabas. Eu ficava sempre pro lado de fora. Nunca roubei por roubar. Jogar pião era outra distração também.

Era comum colecionar anúncios de filme que saíam nos jornais. A gente recortava e punha no álbum. Colecionávamos ovos de passarinho também. A gente ia pro mato e pegava ovos de tudo quanto é tipo de passarinho, fazia dois orifícios nas extremidades, assoprava e o conteúdo saía. Depois guardava os ovos dentro de uma gaveta com algodão e colocava os nomes dos passarinhos. Outra coleção era a de borboletas.

Gostávamos de ir nadar no Lava Cavalo, onde os cavalos do regimento eram lavados. Em 1982, o prefeito João Batista Rosa construiu a Perimetral. Por isso, o Lava Cavalo, que era um trecho do rio Mandu, acabou.

Rodar pneus na rua era outra brincadeira da época. Outra brincadeira era pular sela. A pessoa ficava de cócoras e vinha outra, batia as mãos nas costas dela e pulava. Outra diversão era quebrar as lâmpadas dos postes com estilingue. A gente também gostava de brincar com carrinho de quatro rodas. Pegava uma tábua, colocava duas rodas na frente e duas atrás e íamos lá pro Alto das Cruzes – é esse morro que sai do mercado e vai até lá em cima – e lá do alto a gente descia com o carrinho até a Praça Senador José Bento.”

O namoro e a cidade

“Os namoros daquela época começavam no jardim da Praça senador José Bento. Enquanto os homens rodavam de um lado, as mulheres rodavam ao contrário. e aí aconteciam os flertes. O namoro era super-respeitoso e completamente diferente do namoro de hoje. Conheci minha esposa lá. Ficamos noivos em 1944 e, em 1946, nos casamos. Tivemos três filhos: Vanderlei, Lúcia Helena e Emerson. E a família continua com seis netos e dois bisnetos.

Era comum, na minha época, ver a partida do trem. Ele chegava em Pouso Alegre às 10 horas da noite e pernoitava aqui. Às três e meia da manhã, saía novamente e levava 36 horas pra chegar na capital mineira. Era costume a gente entrar no último vagão, que era da primeira classe. E quando o trem se aproximava da estação, a gente saltava.

Era muito comum a gente ir namorar em Santa Rita do Sapucaí. Pegávamos o trem das cinco horas aqui e chegávamos em Santa Rita às sete horas. Desembarcávamos na estação e subíamos a Rua da Ponte e ficávamos rodando ali na praça, flertando com as meninas de lá. Quando chegava dez horas, a gente embarcava de volta. Íamos de segunda classe, pois era mais barato. Passávamos gomalina no cabelo pra ficar mais durinho e chamar a atenção das meninas. Hoje, a moçada usa gel, né?

No meu tempo, tinha o Cine Éden, onde hoje é o Magazine Luiza. Na década de 1920, o cinema era mudo. Lá tinha uma pianola – era um piano e uma vitrola ao mesmo tempo – que a Dona Noêmia Duarte tocava para animar a filmagem da tela. Conforme o movimento da cena, ela tinha que acompanhar aquela ação.

Quando os roceiros vinham da roça aos domingos, eles deixavam as carroças e os carros de boi ali no Mercado. Nós pegávamos os cavalos e vínhamos trazer aqui pra pastar no pasto do Coronel Ribeirinho. Depois a gente levava pra colocar nas carroças de novo.”

“O Museu é minha vida”

“Em 1950 eu entrei pra trabalhar no DNER [o extinto Departamento Nacional de Estradas e Rodagem] e fiquei lá até 1978. Em 1964, fui convidado pelo Senhor Argentino de Paula, que era presidente da Câmara, pra ser secretário executivo da Câmara. Fiz esse trabalho sozinho até 1989, cuidando de 11 vereadores e depois de 15. Em 1984, nós fizemos o Museu e então eu pedi ao doutor José Luiz de Castro para que eu ficasse cuidando só do Museu. Na época, era apenas uma galeria com exposição de fotos e documentos da cidade.

A ideia de montar um acervo sobre Pouso Alegre foi minha. A primeira exposição de fotos foi em 1965, na Casa Vitale, quando Pouso Alegre completou 117 anos. Consegui reunir fotos, jornais e alguns objetos e fiz essa exposição.

Esse meu gosto por reunir esse acervo foi influência dos padres holandeses com os quais convivi durante um ano lá em Olinda, quando fui militar naquela cidade. E também da minha mãe, que era italiana e tinha uma outra mentalidade. Tudo isso incutiu no meu espírito e hoje estou aqui. E adoro isso.”

A construção do acervo

“Os primeiros objetos do Museu foram fotografias que eu recebi dos Puccini e aí depois fui reunindo outros objetos. O nome do museu – Museu Histórico Municipal Tuany Toledo – foi sugestão minha para homenagear Tuany Toledo, pai do político Simão Pedro Toledo. Tuany era natural de Congonhal, mas atuou politicamente em Pouso Alegre. Foi presidente da Câmara, prefeito e historiador.

Hoje, nós temos aqui até um carro de boi, objeto ignorado pela maioria das pessoas. Uma vez veio um garoto aqui, de uns 14 anos, e eu perguntei pra ele de onde vinha o leite e ele respondeu que a mãe dele trazia do Center Box, numa caixinha. Então, ele não sabe nem o que é vaca e que o leite vem dela. Tem que levar essa moçada pra ver uma rotina na roça, não basta ler, tem que ver também.

Eu tenho muita estimação pelos documentos escritos que estão aqui, como estes de 1832. Quando eu olho, fico imaginando como foi escrito, quem escreveu, como é que ele pegou na pena, como estava sentado, se estava chovendo ou fazendo sol. Meu espírito vaga no espaço. Por falar em espaço, eu sou deslumbrado por esse espaço. Tudo é história.

O Museu é minha vida, é a minha história. A história toda de Pouso Alegre repousa aqui nesse ambiente de 900 metros quadrados. Lamento muito por muitos visitantes que passam rapidamente por aqui não permanecem pra ver, ler e saber a história de cada objeto que está aqui. Tem que sentir.”

Alexandre de Araújo, 89 anos, residente no bairro Primavera, em Pouso Alegre, é fundador do Museu Histórico Tuany Toledo, onde concedeu essa entrevista em outubro de 2011