Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Antônio Theodoro – Servir é seu estilo de vida

“Nasci em um lugarejo no município de Caconde, SP. lá estudei até a sétima série. Parei, porque precisava ajudar meus pais a criar os filhos menores. Somos uma família muito pobre, de 11 irmãos. Sempre fui muito apegado a minha família. Com sete anos, já ia apanhar algodão depois da escola. Ajudava a arar a terra. Papai só tinha um alqueire de terra.

Com 17 anos, fui para Caconde e lá eu ingressei nas Casas Pernambucanas como vendedor, onde fiquei por cinco anos. Depois, fui gerente da loja por três anos. Fui o gerente mais novo do estado de São Paulo.

Naquele meio de tempo, eu me casei com a minha senhora, Almerinda de Faria Mendes. nós criamos um filho que se chama Antônio Carlos Mendes.

De Caconde, fomos para Poços de Caldas, MG, onde fiquei nove anos. Trabalhei como representante comercial e viajei os estados de Minas, São Paulo e Paraná.”

Vinda para Pouso Alegre

“Meu filho terminou os estudos do colegial em Poços e veio para cá para fazer cursinho para entrar na Faculdade de Medicina. Nós viemos visitá-lo. Ele estava numa pensão fraquinha, e minha mulher foi chorando embora. Filho único, acostumado com tudo… Aí eu falei para ela: ‘Bem, você quer mudar para Pouso Alegre? no fim de semana, você e o Antônio Carlos descem para Poços e nos encontramos lá’.

E assim fizemos. Só que no primeiro mês ela não quis mais voltar para Poços. E aí ficamos aqui, na propriedade onde a gente mora até hoje.

Aqui, eu tive duas lojas da Levis. Fui eu que trouxe a loja para cá. Era uma pequena rede que eu tinha em sociedade. A gente tinha lojas em outras cidades da região e também fazia a distribuição. Era muito difícil comprar da fábrica, tivemos que penhorar até casa. Depois que eu entrei na política, meu filho, que acabou fazendo advocacia, não quis mexer com loja. E assim encerrei essa etapa da minha vida.”

Vida política

“Naquele meio de tempo, no ano de 1982, teve as Missões em Pouso Alegre e eu participei bastante, inclusive oferecendo ônibus para a população ir para as Missões em Cambuí, MG, e em Pedreira, SP. E com isso fui ficando conhecido.

A saudosa Magui [esposa do ex-prefeito João Batista Rosa] esteve aqui em casa e me convidou para ser candidato a vereador. Eu disse para ela que não teria condições, pois só tinha três anos que eu estava em Pouso Alegre. Mesmo assim, fiz minha proposta: ‘Se o doutor João [João Batista Rosa, prefeito de Pouso Alegre na época] prometer dar um terreno para o posto de saúde e um terreno para construir a igreja, eu vou aceitar o convite e vou ajudar ele e o Antônio Célio’, que era então candidato a prefeito.

Achava que não iria passar na convenção, mas acabei passando em oitavo lugar. Fiz uma campanha muito correta e fui eleito com 404 votos. nessa eleição, o Dr. Simão Pedro derrotou o Antônio Célio e foi eleito prefeito.

Aqui no bairro Santo Antônio, tive uma grande participação como vereador.

Aqui não tinha calçamento, era muito pouquinho. Conseguimos o calçamento. Conseguimos um belo posto de saúde para o bairro.

A abertura lá no Hotel Teixeira [caixa d´água antiga], que vem para o Santa Luzia, foi trabalho meu junto com o prefeito João Rosa. A iluminação a mercúrio, que vem lá da Garcia Coutinho até a Cemig, foi obra dele também e da qual também participei.

A ampliação da Avenida São Francisco até a Esplanada na gestão do prefeito Simão Pedro… também participei.

A reforma do INSS foi um trabalho incansável do Brant, quando era Secretário da Fazenda de Minas Gerais [1994], e meu também. Até recebi uma grande honraria no dia da entrega do prédio.

A construção da escola Dom Otávio, no bairro Esplanada, e da Josefa Torres, no bairro São Camilo, no governo Azeredo, foram obras que tiveram minha participação. A escola do bairro Santa Edwirges foi ampliada também no meu mandato.

Muitas linhas de ônibus foram criadas a meu pedido. o Rogério da Princesa do Sul [empresa de ônibus urbano] dizia que todas as linhas de ônibus que eu pedia a ele para criar dava sorte, pois dava muito movimento. Também criei muitos nomes de ruas.

As funerárias era uma briga danada. Propus uma lei para plantão que foi aprovada e acabaram as brigas. Fiz muita coisa.

Depois que construíram os gabinetes na Câmara, eu atendia em média umas 40 pessoas por dia. Eles pediam ônibus para levar para o cemitério Jardim do Céu, eu arrumava com a Princesa do Sul um a dois ônibus por velório. Passes de ônibus, eu dava 48 cartelas de passes do meu bolso por mês para as pessoas, as mais pobrezinhas, deficientes, que faziam hemodiálise. Até que eu fiz um projeto na Câmara, que está vigorando até hoje, para buscar os pacientes em casa para fazer hemodiálise no hospital. Fiz o projeto do guincho para tabelar o serviço. Fiz o projeto do IPTU [1992] junto com o vereador Geraldinho Cunha. Por esse projeto, aposentado que tem um único imóvel não paga IPTU. O ano que começou a vigorar o projeto foi o ano que mais tive voto.

O projeto da Câmara-mirim também foi meu e do vereador André Antunes. Fomos conhecer o projeto na Câmara de Blumenau, SC. Trouxemos o projeto para cá e a Câmara aprovou. está em vigor até hoje.

O que me dá mais alegria é ser vereador, pois tenho o poder para ajudar as pessoas mais necessitadas. mesmo não estando na Câmara hoje, eu consigo ajudar muitas pessoas.

Fui vereador durante cinco mandatos, de muito nome, de muita história, de muitos projetos. Fui presidente da Câmara, fui assessor de alguns políticos…

O título que mais me traz alegria é o título de Cidadão Pousoalegrense dado pelo vereador Oswaldo Rebelo. Me sinto honrado de morar em Pouso Alegre.

Quando saí, deixamos um milhão e oitocentos mil reais para começar a construção do prédio novo da Câmara.”

A construção da igreja e a Festa de Santo Antônio

“Compramos o terreno da Alice Custodinho, irmã do Geraldo Custodinho. Era um terreno muito grande. Tiramos uma parte para a igreja e vendemos oito lotes. Com o dinheiro arrecadado, investimos na igreja. Eu pedi para os moradores do bairro que deixassem a gente vender os terrenos que era para construir a igreja. E todos concordaram.

Quando foi para começar a construção da igreja, o cônego Benedito – que Deus o tenha! –, o Senhor João Marques de oliveira [engenheiro] e o doutor Artigas [arquiteto], me procuraram para a gente marcar a construção da igreja.

A gente não tinha dinheiro para fazer a igreja. Mas eu disse para eles que Santo Antônio iria nos ajudar e saímos fazendo as campanhas. Eu fui na Carioca, empresa que estava trabalhando na duplicação da Fernão Dias. O engenheiro da empresa, para o qual eu já tinha feito um favor na Prefeitura disse: ‘Olha, sô Antônio, eu vou dar toda a brita para a construção da igreja’.

Outra pessoa que nos ajudou muito foi o saudoso Orlando Português.

Na época da construção, o deputado Bellato veio nos visitar durante uma festa e doou todos os vidros para a igreja. A Magui deu a porta. O Tiago, irmão do Murilo Maia, deu os ventiladores. o Toninho da Gardênia deu o altar – o mais bonito de Pouso Alegre. Ficou em 6 mil dólares. Foi um padre de São João Del Rei que fez. levou quase um ano e meio para fazer. os bancos foram doados pelas famílias, cada três famílias doou um.”

A pracinha do Santo Antônio

“A pracinha do Santo Antônio era um buraco. A criançada brincava na terra. Era a Magui [esposa do prefeito João Rosa] que tomava conta das praças. Pedi a ela para fazer a reforma. Foi feita a reforma na gestão do João Rosa.

Tempos depois, precisava de uma cobertura e eu procurei o Jair Siqueira, que era prefeito na época, e foi feita a cobertura e a reforma. A cobertura foi ficando velha, aí eu procurei o Perugini, que é o atual prefeito e ele fez a reforma. E hoje a praça é a mais bonitinha de Pouso Alegre, a mais frequentada. Daqui até a avenida Dr. Lisboa, toda pracinha que tem foi obra que participei.”

A Festa de Santo Antônio

“Nós fazíamos a Festa de Santo Antônio, que era a maior festa da região, aqui no bairro. Era eu que marcava as barracas. Vinha barraqueiros de todos os lados, até de outros estados.

Às vezes, cinco meses antes, já me telefonavam pedindo para guardar lugar. Primeiro, eu dava preferência para os barraqueiros de Pouso Alegre. Desde lá do alto da Dona Zica até para baixo de casa, eu colocava cerca de 80 barracas todos os anos.

Todo ano, na missa da noite do dia 13 de junho, dia de Santo Antônio, que celebrava o final da Festa, já nomeava os festeiros para o próximo ano.

A Festa sempre foi tradicional, mas ficou maior, mais famosa foi depois que nós começamos a construir a igreja nova. Lembro de um fato que aconteceu na Festa: mataram um mocinho na porta do açougue. Foi no penúltimo ano. A igreja já estava pronta e foi aí que diminuímos o tamanho da Festa.

Fizeram uma honraria para mim na igreja. Veio até o bispo e aí eu entreguei a Festa. Durante 14 anos, eu fui o presidente da Festa. Foi o tempo que durou a construção, de 1982 a 1996. Depois, fizeram a casa paroquial, mas aí eu já não participei.

Hoje, a Festa tem umas quatro ou cinco barraquinhas: de quentão, de salgadinho… E tem o bingo onde era a igrejinha velha. não tem mais festeiros. É o próprio pessoal da catequese que faz.

Tenho lembrança muito boa dessa época. Nós construímos a igreja com o amor, com o suor do povo da comunidade e do centro.”

Antônio Theodoro Mendes, 74 anos, reside no bairro Santo Antônio, onde concedeu essa entrevista em setembro de 2011