Vozes múltiplas, histórias singulares

Apresentação do livro

Apresentação do livro Memória do Povo – Vozes do Século XX

Autora: Suely Ferrer

 

Segundo Gabriel García Márquez, “a vida não é o que a gente viveu, mas o que a gente tem para contar”.

Este livro reúne aquilo que seus personagens têm de mais singular para contar. Lembranças que descortinam os bastidores da política, do lazer, do comércio, dos bairros e de outros espaços que dão vida e movimento à pronta e acabada história oficial.

Podemos afirmar que, atualmente, a História Oral é uma ferramenta importante para compreendermos o cotidiano dos sujeitos. Não é mais uma forma de dar voz e vez aos excluídos da História, mas de ouvir a todos que dela participaram e que, de alguma forma, ajudaram ou ajudam a construí-la. Ela nos permite refazer as pegadas históricas do passado, evidenciando fatos que não foram mencionados devido a interesses mais ou menos bem articulados entre forças hegemônicas presentes em cada época.

Também é uma forma de conhecer o cotidiano da comunidade, seus hábitos, suas peculiaridades e suas formas de fazer que, aos poucos, vão se transformando com o advento das novas tecnologias.

A referência espacial deste livro é a microrregião de Pouso Alegre. A cidade é o palco dos acontecimentos presentes na narrativa dos entrevistados, pessoas que, de alguma forma, representam e dão voz à comunidade. Algumas por sua liderança, sua atuação profissional, sua competência e sua arte. Outras se tornaram conhecidas por sua solidariedade ou sua maneira de viver, pela capacidade de surpreender ou transferir conhecimento.

As lembranças e histórias de mais de vinte personagens ganham materialidade neste livro e nos brindam com diferentes ivências, casos, visões de um século que ficou para trás, mas configurou a cidade que somos hoje.

São vozes do século XX. São reminiscências dispersas que, quando reunidas, tornam-se um acervo memorável e ajudam a compreender nosso passado.

Aqui estão os relatos de personagens que abriram suas vidas e seus lares para provocar nossas próprias lembranças e nos provar que nossas raízes não podem se perder com o tempo.

Suely Ferrer, jornalista e historiadora, atua como assessora de comunicação do Museu Histórico Municipal Tuany Toledo, Pouso Alegre, MG.

Um breve olhar sobre a história de Pouso Alegre

Autor: Rubens Barros Laraia

 

Tarefa nada fácil reconstruir em poucos caracteres cem anos de história de Pouso Alegre. Coube-me este desafio. Então, convido-o(a) para embarcar nesta viagem povoada de personagens, sonhos, determinação, coragem, superação, desafios…

De origem folclórica ou real, o nome Pouso Alegre traduz bem a que veio: lugar de geografia privilegiada e de pessoas felizes e acolhedoras, sejam elas nativas ou não.

Sua história está vinculada à descoberta do ouro na região, na segunda metade do século XVIII. Nestas terras é instalado um posto fiscal para controlar a produção do valioso minério. A evolução é rápida. Já no início do século XIX, o arraial torna-se freguesia graças ao prestígio e trabalho do senador José Bento. Tempos depois, torna-se distrito e, em 1848, é elevado à categoria de cidade.

No final do século XIX, a cidade é sede de comarca. Com um sistema logístico – transportes ferroviário e fluvial – bem estruturado, atrai imigrantes europeus que aqui se instalam e muito contribuem para a evolução do lugarejo.

À frente de seu tempo, é uma das primeiras cidades do Sul de Minas Gerais a utilizar a

energia elétrica, ainda no início do século XX. Nessa época, seu sistema educacional se destaca. Além de um grupo escolar e colégios, conta com três faculdades. Possui também uma unidade do Exército Nacional, além de ser a sede de uma Diocese.

Nos anos vinte do século passado, a história de Pouso Alegre tem como marco a construção do Hospital das Clínicas Samuel Libânio, quando a cidade já é um importante centro comercial, cultural e religioso da região.

É a partir desse período que os personagens desta obra vêm ao mundo, o mundo das terras do Mandu, das terras dali ou de acolá.

Com o início da Era Vargas (1930), encerra-se o surto de desenvolvimento. Fica para trás o prestígio que a cidade possuía durante a República Velha, época de influentes líderes políticos, como Bernardino de Campos e o senador Eduardo Amaral.

Em 1932, com a Revolução Constitucionalista, as forças revolucionárias invadem a região, com o objetivo de conquistar Pouso Alegre. A cidade se apresenta, então, como um importante centro estratégico por estar localizada em um entroncamento ferroviário e fluvial. O combate, que dura cerca de 20 horas, acontece no morro da Vendinha, atual bairro São João. As forças legalistas derrotam as forças revolucionárias, que se retiram em direção ao estado de São Paulo.

Mas não só a Revolução deixa marcas sombrias. Nessa mesma década, a cidade perde suas faculdades e o transporte fluvial.

Em 1948, Pouso Alegre comemora seu primeiro centenário e se prepara para novos tempos e desafios, entre os quais a criação de novas faculdades.

Nos anos de 1950, a política desenvolvimentista implantada pelo presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira contribui – e muito – para o progresso pousoalegrense. É desse fértil período a construção da Rodovia Fernão Dias, ligando Belo Horizonte a São Paulo, e da BR-459, que liga Poços de Caldas (MG) a Lorena (SP), interligando a região à Via Dutra. Essas estradas convertem a cidade em um importante entroncamento rodoviário. E, em função disso, amplia-se o desenvolvimento.

Nasce a Faculdade de Direito do Sul de Minas. A Diocese é elevada à categoria de Arquidiocese. Pouco tempo depois, cria-se a Faculdade de Medicina.

Nos anos de 1970, tempos prósperos se anunciam para Pouso Alegre. É o boom da industrialização, que provoca ampla corrente migratória, atraindo para estas terras pessoas de várias regiões do País. Desenvolve-se o comércio. Nasce a Faculdade de Filosofia [hoje, assim como a Faculdade de Medicina e o Hospital das Clínicas Samuel Libânio, pertencente à Universidade do Vale do Sapucaí – Univas].

Nos anos 1980, conhecidos como década perdida, Pouso alegre também vive momentos de estagnação econômica e até de retrocesso, pois algumas fábricas encerram suas atividades. A malha ferroviária que serve a região é desativada.

No prenúncio de um novo século, uma nova era surge para o município. Cria-se a Universidade do Vale do Sapucaí, surgem novos colégios, novas indústrias são instaladas, cresce o comércio. A cidade se transforma em centro de referência das ciências médicas e do ensino. Uma nova onda migratória se inicia.

Hoje, com o fortalecimento da agricultura e do comércio e com a instalação de grandes indústrias, o município vive novamente um boom econômico.

É nesse contexto da história local que transitam ou transitaram os personagens desta obra – alguns pousoalegrenses de nascimento, outros de coração [Seu Zezito e Sô Paulino faleceram durante a finalização deste trabalho].

Esses personagens nos presenteiam com histórias singulares, ricas de significados, de ações e de poesia. São homens e mulheres que muito contribuem ou contribuíram para fazer de Pouso Alegre uma cidade mais progressista, mais humana e mais feliz.

Rubens Barros Laraia, graduado em Direito pela Faculdade de Direito do Sul de Minas e em História pela Universidade do Vale do Sapucaí (Univas). Possui especialização em Historiografia e em História, Sociedade e Cultura. É professor da Univas.