Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Batan – O homem do Café Zé Nunes

“Não aprendi fazer outra coisa a não ser torrar café. Desde criança, mexo com isso. Até quando eu puder, vou continuar.

A primeira torrefação de Pouso Alegre foi o Café Tapi, de José de Carvalho, instalado ao lado do Cine Eldorado.

Meu pai já tinha tido torrefação há muitos anos atrás, mas não deu certo devido ao hábito das pessoas torrarem café em casa. Ele parou e só depois de muitos anos que voltou.

Desde os 13 anos, eu ajudava meu pai. Eu era o único filho homem. Era um grande companheiro do meu pai. Faz 61 anos que estou nesse ramo.

A nossa torrefação começou em 1945, no ano que terminou a guerra.

Naquela época, era muito difícil, porque as pessoas torravam café em casa na panela e moíam no moinho de mão. Quase não se vendia café no varejo.

Entregávamos o café de bicicleta e íamos entregar até na Vendinha (hoje, bairro São João). Depois da bicicleta, compramos uma bagageira e depois uma camionete Ford 51. Compramos do Jorge Andere, que era importador.

Começamos vendendo só no município de Pouso Alegre e depois passamos a vender em

Silvanópolis, Congonhal, São Gonçalo e Careaçu. A produção era pouca, umas dez sacas. O café era vendido na banca do mercado a granel (café cru), e não era por peso, era por litro. Nessa época, também já vendíamos o café empacotado. Eram pacotes de meio quilo em saquinho de papel.”

O maquinário e a crise

“O maquinário era muito simples e depois fomos melhorando. Compramos o maquinário do José Carvalho, do Café Tapi. Eles tiveram problema e o café teve que sair do mercado. Ficamos uns vinte anos com esse maquinário. Depois é que eu comprei esse torrefador maior que usamos até hoje.

Tinha uma caixinha de madeira, colocava o saquinho e socava. Ficava como um tijolinho (bem compactado). Hoje tem o silo. O café vai para o moinho e o empacotamento é a vácuo.

Houve uma ocasião em que o que a gente construiu em vinte anos perdemos em seis meses, porque tabelarem o café e o pó de café não era tabelado. Comprava-se café caro e vendia barato. Mas meu pai não parou com a torrefação e continuou servindo os fregueses, mas teve que vender muitas propriedades para manter a empresa. Muitas torrefações pararam. Era o que deveríamos ter feito. Crescer é um risco, uma responsabilidade muito grande.”

Época do IBC

“O IBC [Instituto Brasileiro do Café] entrou oferecendo o café bem barato e tinha que ter escrito na rotulagem do café: “Campanha do aumento do consumo interno do café.” Era para estimular o consumo do café. Pintavam os grãos e as sacarias de vermelho para identificá-los. Não podia vender café cru, tinha que torrar. Na época que o IBC entrou, não tinha embalagem a vácuo (aluminizada). Era difícil, porque o IBC só dava o prazo de validade de dez dias. Então, se eles chegassem na torrefação e tivessem mil quilos empacotados com um dia adiantado, tinha que desmanchar toda a embalagem e empacotar novamente com nova data.

Se chegassem no armazém e tivesse café vencido, eles pegavam duas testemunhas, faziam um laudo, davam uma cópia para o comerciante e ficavam com a outra. Pegavam o café, colocavam querosene e jogavam no rio. Então, a gente tinha que ter muito cuidado para não deixar vencer o café nas prateleiras.

Quando o Collor entrou, acabou com o IBC.”

O Café hoje

“Hoje, torramos de oito a dez mil quilos por mês. o café Zé Nunes é o café mais caro que tem na região. Em todos os supermercados de Pouso Alegre, nós colocamos nosso produto.

Antes, eu entregava o produto e o cliente é que se virava para expô-lo. Hoje, é a gente que expõe o produto no supermercado. Toda semana tem que ir lá verificar o estoque, repor. Ficou mais oneroso para a torrefação.

Minha equipe é composta por sete pessoas, que cuidam da produção e da entrega.

Atendemos as cidades de Pouso Alegre, Silvanópolis, Congonhal, Ipuiuna, Careaçu e Espírito Santo do Dourado.

Minha preocupação hoje é a continuidade disto aqui. Não tem ninguém da família trabalhando aqui.”

Infância na rua de terra

“Na época, a gente brincava aqui na rua, que era de terra. As casas era de pau a pique. A rua era fechada. Tinha um paredão que separava a rua da linha férrea. o trem passava duas vezes por dia.

Entre tantas brincadeiras, gostávamos de jogar futebol. Carro quase não tinha para perturbar nossa brincadeira. Nessa época, minha mãe fazia muita festa junina. A noiva vinha de carro de boi. Tinha muita quitanda, muita fartura de comestíveis juninos. A fogueira era feita no meio da rua. Amanhecíamos ali.

Nadava no Mandu, no Sapucaí. Era uma infância sadia. Pouso Alegre era bem pequena, explodiu de poucos anos para cá. O passeio nosso naquela época era no jardim da Catedral: os homens de um lado e as mulheres de outro.

Naquela época, tinha muita discriminação entre brancos e negros. Era os próprios negros que se discriminavam. Os negros tinham o passeio deles, que era do lado do Cine Glória, Casas Pernambucanas. Os brancos ficavam girando no jardim.

Estudei no São José até o científico. A minha esposa era amiga de uma irmã adotiva minha. Ela vinha muito em casa, onde nos conhecemos e nos casamos. Tivemos três filhos. Ficamos casados 51 anos. Ela faleceu recentemente.”

Só restou a seresta

“Naquela época, tinha muita serenata. Mandávamos cartão nas casas pedindo colaboração para ajudar os pobres: fazer mercado para eles e, na época do frio, para comprar cobertores. Arrecadávamos muito. Percorríamos de quatro a cinco casas toda noite. o grupo de seresta não tinha nome; hoje, chama-se Tom da Saudade. Foi o Milton

Reis que colocou este nome. Este grupo é muito antigo, existia muito antes de eu nascer. Hoje, reunimos a cada 15 dias na antiga estação, mas não saímos mais para as ruas.

Eu gostava muito de caçar, foi proibido. Gostava de pescar, acabou o peixe. Só restou a seresta.”

Ubiratan Nunes de Oliveira, conhecido por Batan, proprietário do Café Zé Nunes, 74 anos, reside na rua João Basílio, em Pouso Alegre, onde também funciona a torrefação. Entrevista realizada em outubro de 2011