Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Bié – O construtor de lembranças

Tempos de meninice

“Quando eu era menino, morava ali na Rua Dom Lafaiete Libânio, perto da Rua São João. Eu morava ali do lado esquerdo e, do lado direito, tinha a Vila Dornelles, no fundo do asilo. A gente brincava muito ali naquele pedaço e vinha também aqui pra rua de baixo, na Olegário Maciel. A gente vinha brincar e buscar água na casa do Tenente Jovino, porque lá em cima faltava muita água.

Só tinha dois grupos, o Hermantina Beraldo e o Monsenhor José Paulino. Eu estudei no Hermantina, que ficava no fim da Olegário Maciel. Era uma casa velha de esquina. Minha professora era a Dona Geraldina Tosta. Ela era uma boa professora, brava e enérgica.

A Rua Adolfo Olinto era a Rua das Pedras naquela época. Era calçada com aquelas pedras de mão e no meio corria uma água. onde é o escritório da Cemig, era o Santo Cruzeiro. A gente ia muito brincar ali também. no Ribeirão das Mortes, a gente gostava de nadar e pescar.

Depois, meu pai construiu uma casa numa rua de fundo pro asilo. Do lado dessa casa, tinha uma caixa d’água e essa água vinha canalizada lá de cima, onde hoje é a Casa São Rafael. À noite, eles enchiam essa caixa e, à tarde, jogava pras casa lá de baixo, distribuía.

A gente gostava de jogar baralho, dadinho e palitinho. Teve uma passagem, uma vez, quando veio uma freira nova pro asilo e eu tava jogando bola lá na rua, sem camisa, e ela achou aquilo interessante e falou: ‘nossa, ele é índio, veio do mato’.

Nessa época, eu ia muito lá no pasto do Ribeirinho pra brincar. Aqui, onde é a Sotegel, tinha um lago que a gente gostava de nadar. Vinha um ribeirão descendo a Rua São Francisco que nascia ali na chácara do Luiz Reis, mas antigamente era a chácara do Ribeirinho. Ainda existe esse ribeirão, mas tá canalizado. Ele descia até o bequinho entre a Rua Bom Jesus e a Coronel Ribeiro de Abreu e encontrava com um outro que vinha lá de cima, lá de trás da Casa São Rafael, e os dois desciam até o Mandu. Ali, onde os dois encontravam, a gente ia pescar uns lambarizinho e uns bagrinho.

Eu vinha muito com os meus irmãos pegar banana do brejo e nadar. Quando chegava em casa, o couro comia, porque a gente chegava cheio de barro nas pernas.

Aqui na Primavera era um atolador danado e, de vez em quando, a gente ia ajudar o Senhor Antonio Pereira a desatolar a carroça dele. Ali, morria até cavalo atolado.

Minha infância foi muito ali na porta do Mercadão também. Tinha um obelisco ali em homenagem ao centenário da cidade. Até o Milton Reis fez um hino bonito pra cidade. na escola, era obrigatório cantar esse hino.

Na calçada da loja Morato e do açougue do Cristóvão, pai do Zicão, a gente ia muito brincar de bolinha de gude. Não tinha nenhum calçamento e ali ficava cheio de engraxate.

Do outro lado da rua, tinha a casa Ferraciolli. Onde é a Pastelaria Chinesa, era a bicicletaria do Campanella. E onde era o Pacheco, tinha a casa de jogo do bicho do Zé Elias.

Outro lugar que a gente frequentava muito era o Beco do Crime. Ali, junto com meu amigo Derichi, nós formamos um time de futebol chamado América. De vez em quando, a gente ia jogar lá em Santa Rita do Sapucaí; pegava o trem e ia.

A gente treinava ali no beco mesmo. nessa época, ele era fechado.”

A tragédia do Beco do Crime

“O rapaz – o nome dele era Jésus Damasceno – que cometeu o famoso crime no Beco do Crime, era amigo nosso. Trabalhava nesse açougue do Cristóvão.

Teve um natal que eu tava voltando pra casa, era umas 10 horas da noite, e eu vi o Murilo Coutinho e outras pessoas correndo ali, mas na hora eu não liguei. No outro dia, fiquei sabendo que o Jésus tinha matado a namorada – o nome dela era Jacira. Ele matou por ciúmes. Ela era muito bonita e ele já não tinha tanta apresentação. Ele tinha planejado matar a moça e depois suicidar, mas quando ele tentou furar ele mesmo, não teve coragem e fugiu.

No fundo do cemitério, tinha uns eucaliptos e dizem que ele ficou escondido ali assistindo o enterro da moça. Ele foi preso e cumpriu pena aqui e, depois, foi embora pra Campinas. nunca mais eu vi ele.”

Mudança para a Rua São Francisco

“Quando eu mudei pra São Francisco, a rua ia até a minha casa só, ali em frente da chácara do Luiz Reis. E, dali pra cima, não tinha mais nada. Nessa época, pra você entrar nas casas que ficava do lado esquerdo da Rua São Francisco, tinha que passar numa pinguela, por causa desse ribeirão que descia a rua. Já tem 45 anos que eu moro na São Francisco.

Tenho quatro filhos e três netos. Conheci minha esposa em Borda da Mata (MG) quando fui jogar futebol lá. Eu jogava num time chamado Rebelde.”

Construção da Faculdade de Medicina

“Ali onde é o açougue do Giovani, na Rua Coronel Ribeiro de Abreu, tinha a mina dos Andery. Aquele predinho que tem ali, era uma fábrica de calçados antigamente. Eu ia muito ali levar café (em uma chaleirinha) pro meu pai e pros outros pedreiros. Depois que eu saía da escola, eu ficava ali ajudando eles a carregar tijolo. Foi ali que eu comecei a trabalhar como construtor.

Nessa época, Pouso Alegre começou a embalar na construção. Meu pai tinha um bom nome na construção e começou a dividir os filhos nas obras que ia aparecendo. Até que começamos a construção da Faculdade de Medicina.

Ali, atrás do campo da lema, tinha um mangueiro de criação de porcos que era do Argentino de Paula. Lá na igreja da Vila São Vicente, tinha um lago grande e, aqui, onde tá a Faculdade até a Comendador José Garcia, era só bambu. Ali onde é o INSS, não tinha rua, não tinha nada.

Desse lago da Vila São Vicente, descia um ribeirãozinho que passava por dentro da Faculdade, passava em frente onde é o Center Box, ia até onde é o farol da Comendador e descia até o curtume do Laraia.

O material para a construção da Faculdade vinha na carroça do Luiz Scodeller. o tijolo foi fornecido pelo Geraldinho Reis. Então ele colocava tudo na carroça pra poder chegar lá, porque o caminhão não passava.

A frente da Faculdade não era nivelada, era uma vala grande. Em 1966, começou a construção da Faculdade. Em 1970, o Jorge Andery se candidatou pra prefeito de Pouso Alegre e ganhou. Uma das obras dele foi retirar os bambus dali, aterrar tudo, fez o asfalto e mandou tirar uns tocos que ficavam ali na esquina da Comendador José Garcia com a Rua São João (fazenda do Alfredo de Paula). Depois dessa obra do prefeito, os caminhões começaram a chegar até a Faculdade.

Por falar em Jorge Andery, ele foi um grande prefeito. Deu um impulso pra cidade crescer, mas foi cassado e o Antonio Ribeiro assumiu a Prefeitura.

Nessa época, não tinha engenheiro e o coordenador da obra foi o João Piffer. Quem lutou muito pela construção da Faculdade foi o Dr. Jésus. Ele ia pra São Paulo, Belo Horizonte, Brasília… Quem cuidava da parte financeira era o Gil Teixeira.”

O início da Faculdade

“Quando foi liberado o primeiro vestibular, nós ainda estava lá fazendo muita coisa. Eu lembro bem do primeiro vestibular da Medicina, fiquei conhecendo todos os vestibulandos. o Dr. Hugo, médico de vista, morava aqui em frente de casa numa república ali. Tinha ele, o Chico, genro do Dr. Rômulo Coelho, o Jairo, o Ubiraci e o Lauro. Tinha o professor Adilson, dava aula de Anatomia.

O Hugo era um companheirão de pescaria e esse professor Adilson não acreditava que a gente pegava traíra com balaio. Aí ele foi com a gente e pegou o peixe no balaio. Ele nunca mais esqueceu aquilo e contava essa história lá em Belo horizonte. Eles foram pioneiros.

Quando entrou a primeira turma, ainda tinha muita coisa pra terminar. A sala de Anatomia, por exemplo, nós fizemos aqueles tanques pra colocar os cadáver e vieram 17 cadáver de Belo horizonte. eles vieram numa Kombi, e os serventes e os pedreiros que colocaram eles nos tanques e depois queimaram as roupas deles.

O Tião, que é funcionário da Anatomia até hoje, era servente nosso lá e ele morava lá no bairro das Cabritas, ali nos Afonsos. Ele vinha a pé todo dia trabalhar.

Então esses estudantes ficavam muito ali com a gente e, de vez em quando, a gente jogava um futebolzinho. era os pedreiros contra os estudante. Era tudo boa gente.

A obra continuou até entrar a terceira turma na Faculdade.”

“Sei que cada rua da cidade tem uma obra nossa”

“Depois da Faculdade, eu, meu pai e meus irmãos continuamos a fazer obra na cidade. ia cada um pra um lado. Pouso Alegre tava crescendo bastante e tinha muita obra.

Meu pai tinha um bom nome na cidade, era bom pedreiro e sempre era chamado pra trabalhar. tinha outros pedreiros bons também nessa época. tinha o Zé Kersul, Afonso sinhá, Zé Canela… e aí começou a aparecer outros.

Nessa época, não tinha engenheiro, era construtor licenciado. Fazia um curso em itajubá e pegava um diploma e tocava as obras. eu cheguei a fazer o curso. Então a gente ficava na responsabilidade.

Outra obra grande que eu peguei foi o Hotel Dias. Ali era uma casa velha, eu demoli a casa e fiz uma primeira parte com meu pai. nós fizemos três partes lá, fiquei três anos trabalhando.

Depois, fui trabalhar na construção do Shopping, mas nessa época já tinha engenheiro.

Trabalhei lá até a última laje. Aí fui chamado pra trabalhar na Cemig. Reformava e construía as casa de funcionários que trabalhavam em usina.

A última obra que eu participei foi na demolição daquelas casas no fim da avenida, ali onde abriram mais a avenida e emendou com o trevo do Aterrado. Sei que cada rua da cidade tem uma obra nossa.

Tudo que sei de construção devo ao meu pai e faço muita força pra honrar o nome dele. Foi um pai enérgico, mas muito amoroso também. Ele fazia a gente levantar às seis horas da manhã e apertava a gente no serviço mesmo, mas era carinhoso com os filhos.”

Presidente da Associação

“Hoje, eu sou presidente da Associação dos Moradores do Bairro Primavera. Quando o Agnaldo Falcão era vivo, a associação era bem ativa, a gente participava de reunião com o prefeito… Mas, com a morte do Agnaldo, a associação perdeu a força.

Ali, em frente o bar Pé de Porco, tinha um canteiro e, no Dia da árvore, o Adelino, que era dono do bar, o barbeiro, que tinha ali debaixo da União operária, e o Carlos Nei Matos resolveram plantar aquela árvore ali no canteiro. A Associação conseguiu na Prefeitura que a Rua Coronel Ribeiro de Abreu fosse fechada e ali, onde estava o canteiro, fosse construída uma pracinha. no dia da inauguração, teve uma grande festa, foi uma beleza.

Outro movimento da Associação era, de vez em quando, fazer um almoço pros velhinhos do asilo. Às vezes, a gente fazia umas festinha pras crianças ali na pracinha da Rua São Pedro.

Eu adoro o bairro Primavera e a cidade de Pouso Alegre. Só saio daqui pra ir pro cemitério.  Aqui, nós somos uma grande família. A vizinhança nossa aqui é de trinta anos pra cima. O Seu João da Padaria, a Dona Dirce, a família do João Leitoa, a Dona Dalva, o Senhor Ernani Vilela são todos moradores antigos daqui.

Eu tenho um amor por esse bairro. Aqui, é tudo uma irmandade só.”

Gabriel Barboni, 73 anos, mora no bairro Primavera, em Pouso Alegre, onde concedeu essa entrevista em agosto de 2011