Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Dirce Carvalho – Uma vida de lutas e cores

“Eu nasci aqui na Rua João Basílio, que antigamente se chamava Rua do Brejo, porque não tinha calçamento e, quando chovia, ficava um brejo só. Vivi a maior parte da minha vida nessa casa aqui mesmo.

A minha infância foi alegre e triste ao mesmo tempo. Com 12 anos perdi minha mãe – morreu com apenas 37 anos. Ela morreu no parto dos gêmeos Claret e Tereza. A Neia tinha dois anos de idade. Eu tinha duas tias, uma levou o Claret e a outra levou a Tereza pra ajudar a cuidar. Eles moravam aqui perto de casa e tínhamos contato sempre com esses irmãos.”

Vida de lutas

“Eu sou a mais velha e criei meus irmãos. Eram nove abaixo de mim. Foi uma vida de sacrifício, porque meu pai, coitado, tinha que trabalhar sozinho pra criar a gente. Não pude terminar meus estudos, fiz só o primário. Depois me colocaram pra estudar na Santa Terezinha, pra aprender prendas domésticas.

E a vida foi seguindo, fomos crescendo e os irmãos foram se casando e eu ficando. Eu tinha um irmão que não era saudável e eu cuidava dele. Tinha um namorado, mas não tinha condição de casar enquanto esse irmão estivesse por minha conta. Até que ele veio a falecer. A gente já sabia que ele partiria logo. Depois que ele faleceu, eu me casei. Já não estava tão nova, casei com 38 anos. Namorei 17 anos com meu marido, Francisco Paiva, e fiquei casada por 23 anos. Não tive filhos e meu marido morreu em 1991. Ele tinha uma oficina mecânica nesse barracão e ele gostava de inventar coisas. Era chamado de Professor Pardal.”

O pai

“Muito tempo depois que meu pai ficou viúvo, ele se casou com a Dona Ordália. nessa época nós já estávamos adultos. Já tem 18 anos que meu pai faleceu e sinto saudades dele até hoje. Ele foi um homem muito bom. Veio de Portugal com 15 anos de idade. Ele era muito trabalhador e foi economizando o dinheirinho dele e, com o tempo, foi comprando imóveis aqui no centro de Pouso Alegre. Antes de morrer, ele já deixou tudo certinho pra todo mundo e tudo o que temos hoje devemos a ele.

No início, ele teve uma fábrica de banha, depois teve açougue e, por fim, teve uma loja de móveis. Tinha uma visão danada pra negócio.”

O encontro com o carnaval

“E a gente foi levando a vida. Quando chegou a mocidade, fomos nos envolvendo com carnaval. Eu tenho uma irmã, a Neia, que saía no bloco do Aristocrático [o bloco foi criado em 1937 e interrompido durante a Segunda Guerra Mundial] e esse foi o primeiro bloco que eu entrei pra ajudar. Era um bloco fechado. A gente podia ajudar, mas não podia entrar pra desfilar, porque tinha outro bloco na cidade e eles tinham medo que descobrissem as fantasias. Aquelas coisas de rivalidade. Mas como a Neia participava, eu comecei a ajudar e gostei. Daí eles viram que eu tinha jeito pra coisa e eu fiquei trabalhando com eles.

Foi uma das épocas melhores da minha vida. Nós ficávamos trabalhando na casa da Dona Ciomara de Paula. Era uma turma muito boa. Era sábado e domingo e, às vezes, alguns dias da semana, fazendo aquelas fantasias lindas. Quem viveu naquela época sabe como foi bonito o bloco do Aristocrático.

Ele saía junto com o Sossega Leão, que era o bloco adversário. Teve um desfile marcante do Aristocrático, quando o bloco resolveu homenagear o aniversário do Sossega Leão. Foi maravilhoso. A gente não sabia qual dos dois era o mais bonito. Esse desfile foi bonito porque não teve aquela rivalidade. Estávamos saindo pra homenagear o aniversário do adversário. Foram fantasias lindas que ficaram expostas na Casa Andare e na Casa Vitale. O povo queria ver de perto aqueles bordados. Naquele tempo, não se usava cola. Era tudo costurado na agulha mesmo. Eram só paetês e eram minúsculos. Não tinha lantejoula grande. Os dois blocos usavam esses paetês bem pequenos e eram os dois blocos mais famosos da cidade.”

“Trabalhem, formiguinhas, porque o dinheiro está chegando.”

“Nesse tempo, o comércio da cidade ajudava bastante. A gente passava uma lista, fazia rifa de carro e todos colaboravam. Então era um carnaval muito bonito. Vinha gente de fora assistir os desfiles, como é em Santa Rita do Sapucaí hoje. Tinha muita gente que nos ajudava, como o Senhor Sebastião Dudora, ele era o nosso tesoureiro. Ele passava de carro em frente à casa da Dona Ciomara com o megafone e gritava: ‘Trabalhem, formiguinhas, porque o dinheiro está chegando’. Falava isso pra incentivar a gente.

Quando terminava o desfile na rua, a gente entrava no salão do Clube Literário e lá era aquela rivalidade boa. Era muito gostoso. Nesse tempo, o pessoal usava o lança-perfume pra perfumar as pessoas e não pra cheirar.

O Aristocrático desfilou de 1962 a 1972.”

O Iluayê e o Skindô

“Com o passar do tempo, o Sossega acabou, pois a Dona Virgínia Brandão, do Hotel Pouso Alegre, e o pessoal que colaborava com ela foi envelhecendo e foram largando mão. Aí fundaram o Iluayê e os blocos continuaram com gente mais nova. O mesmo aconteceu com o Aristocrático. As pessoas que trabalhavam no bloco e que eram mais velhas, como a Dona Ciomara de Paula, a Dona Maria, mãe do Saponara, e a minha tia Maria, uma portuguesa que ajudava também, foram falecendo e foi acabando aquele vínculo, aquela coisa. E nós, os mais novos, que fazíamos parte dessa comissão, resolvemos montar um bloco separado e fundamos, junto com a Nilzinha, o Bloco do Skindô. Contamos muito com a ajuda da Dona Maria Nunes também. Ela foi uma grande colaboradora e carnavalesca.

Sempre gostei muito de trabalhos manuais. Então continuei fazendo o mesmo trabalho no

Skindô. Nunca quis desfilar, gostava mesmo de ajudar. Meu cargo no Skindô era de vice-presidente, nunca saí pra desfilar, gostava mesmo de confeccionar as fantasias.

O bloco saía duas noites e, cada noite, havia um tema diferente. A nossa turma era tão unida e amiga que essa coisa de função não tinha importância nenhuma.

Uma pessoa que ajudou muito a gente foi o Harley Costa. Ele tinha muito bom gosto e sempre acrescentava um detalhe que fazia o bloco ficar mais bonito. Outros, como os filhos da Guida, o Valtinho e o Zé Saponara também ajudaram muito a gente, mas quem ficava no batente mesmo eram as mulheres.

Nós tínhamos bateria, mas não tinha quem tocasse. Então tínhamos que ir atrás do Biscoito lá do Mandu, o pessoal das Alterosas. Por fim, resolvemos vender os instrumentos e contratar gente pra tocar pra nós.

Nosso bloco era azul e branco. Tivemos um desfile marcante com o tema Balada das Cores. Era feito um arco-íris, tinha todas as cores. Outro ano marcante também foi quando saímos de soldados romanos. Foi uma maravilha, tinha até a Cleópatra. Durante esse desfile, tinha um trecho da ópera Aída. Então foi lindo, eles marchando e todos de vermelho. Foi fantástico. A gente escutava o povo gritando: ‘Aída, Aída’! Aí parava a música de carnaval e vinha a ópera. Esse desfile ficou na história de Pouso Alegre.

Eu adorava participar dessa beleza e, à noite, quando todos iam embora, eu ficava lá no barracão bordando. Quando chegava no outro  dia, o povo ficava espantado: ‘nossa, você já fez tudo isso?’. Nessa época, já existia a cola quente e então eu dizia: ‘Ah, bendita cola quente!”.

As funções eram divididas por turma: a turma que fazia os chapéus, a que fazia as calças e a das saias. Depois, juntava tudo num salão da casa de alguém pra vestir os foliões. Tinha a maquiadora também.

A Nilzinha tinha uma criatividade enorme. Ela pegava o papel laminado do maço de cigarros e ia guardando. Depois, ela cortava e enrolava formando um canutilho bem pequeno. Teve até uma fantasia que foi todinha bordada com isso. Naquela época, não existia arquibancada e o povo ficava bravo porque queria ficar o mais perto possível dos blocos, pra poder ver aquelas maravilhas.

O Skindô teve uma curiosidade bem bonita. Dali saíram uns cinco ou seis casamentos. Esse bloco maravilhoso começou em 1972 e foi até 1980.”

O Skindozinho

“Com o tempo passando, aconteceu com o Skindô o mesmo que havia acontecido com o

Aristocrático. A moçada começou a não querer mais desfilar, mas a criançada queria sair e as mães queriam ver seus filhos na avenida.

Como o juiz não deixava que elas saíssem no bloco de adultos, nós fundamos o Skindozinho. Essa foi a minha paixão, onde eu mais gostei de trabalhar. Era eu, a Nilzinha, a Guida e a Anita Meyer. Nós trabalhávamos nesse barracão aqui do lado da minha casa e tínhamos uma costureira também.

O Skindozinho abria o carnaval no domingo. A minha maior alegria era ver a felicidade daquelas crianças, em média umas cem. Mas a criançada foi crescendo e perdendo o interesse de desfilar. O Skindozinho fez seu ultimo desfile no carnaval de 2006.

Ainda tenho paixão por carnaval. Gosto de ver os desfiles das escolas na televisão e gosto de ir ver aqui na rua também. Já fui várias vezes ao Rio de Janeiro assistir os desfiles de lá.

Hoje, não participo mais das festas de carnaval, mas meu prazer em participar de festas ainda continua. Sempre nas épocas festivas, eu procuro me envolver na decoração das festas na família.

Sou muito querida pela família, funciono como uma avó. Gosto de estar com meus sobrinhos, de fazer festa para eles. E vou aproveitar cada momento com eles, pois amanhã posso não estar mais aqui.”

Dirce Carvalho Paiva, 80 anos, reside no centro de Pouso Alegre, onde concedeu essa entrevista em setembro de 2011