Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Dona Clara – Infância, diversão e arte

“Eu nasci no bairro do Itaim, município de Cachoeira de Minas. na roça, não tinha farmácia e nem médico. Então, na hora que uma pessoa ficava com febre, eles procuravam meu pai e ele fazia remédio de homeopatia.

Ele era português. Serviu o quartel lá e veio embora pro Brasil junto com meu avô e minha avó. Eu gostava muito dele e ele de mim. o dia que eu fiz 15 anos, ele mandou tocar na Rádio Clube de Pouso Alegre uma hora de música portuguesa pra mim. A rádio tinha acabado de ser inaugurada.

Foi o meu avô Antonio Gomes Tavares que fundou o bairro do Itaim. Ele era um homem com uma barba que ia até na barriga. Minha avó era Rosa Maria de Jesus. Eles foram para lá e fizeram uma igrejinha. Montaram uma loja onde você encontrava de tudo pra comprar, desde ferradura de cavalo até agulha de costura. Aí, mais tarde, mudou um senhor de Paraisópolis pra lá e montou outra loja.

Eu e meus irmãos nascemos no Itaim. Os três mais velhos foram pra Brasília na época da construção da cidade. Tenho um irmão que está lá até hoje. Só tem ele vivo agora, os outros já morreram.”

Infância levada

“Tenho muitas lembranças da minha infância. Uma vez, teve uma enchente muita alta lá no Itaim e eu fui ver a enchente, escondida da minha mãe. Entrei na canoa e fui remando e a canoa virou comigo. Meus irmãos foram correndo me acudir.

Fui pra casa morrendo de medo da minha mãe ficar sabendo e me bater. Aí eu dei um cacho de banana pra vizinha não contar pra ela o que tinha acontecido. Peguei a escada, pulei a janela e troquei de roupa. Quando encontrei minha mãe, ela falou que já sabia de tudo.

Ela me bateu tanto com vara, que fiquei toda marcada. Tive que tomar banho de salmoura pra poder sarar os vergões.

Teve outra vez que eu fui na bica d’água que tinha ali pra baixo da minha casa e dei de cara com uma urutu enorme. Eu saí correndo e o meu cachorro foi me salvar e avançou na cobra. E, naquela luta, ela picou meu cachorro e ele morreu. o nome dele era leão. É por isso que eu gosto de cachorro até hoje.

Antes do meu pai ter carro, a gente vinha pra cidade de charrete. Meu pai trazia a gente até ali onde é a Unilever. Tirava o cavalo da charrete e deixava ele ali comendo milho. A gente acabava de chegar a pé. A gente vinha ver as festas da igreja e fazer compras no Mercadão. Depois, ia dormir no Hotel Cometa.”

Arte e cultura

“A minha infância foi no meio dos livros. Meu pai incentivava a gente a ler. Ele assinava o Jornal do Brasil e o estafeta (carteiro) ia levar o jornal pra ele. Coitado dele! Aquilo era um peso enorme.

Eu estudei na escolinha do Itaim, que existe até hoje. Fiz até a quarta série e parei, porque meu pai não deixou eu vir estudar no Colégio das Doroteias. Naquela época, filha solteira não podia dormir fora de casa.

Tinha um missionário espanhol lá no Itaim que incentivava meu pai pra matricular eu e minha irmã nas Doroteias, mas ele respondeu que filha dele não pousava fora de casa. Eu queria tanto ter estudado canto no colégio. Meus irmãos homens estudaram aqui na cidade, no Colégio São José.

Lá na escolinha do Itaim, tinha uma professora muito boa. Ela dava aula de teatro pra nós e a gente participava das peças. Eu já saí de espanhola, de japonesa, fiz muitos personagens.Uma vez, eu saí de gueixa, com aquele quimono estampado e todo godê que a minha mãe tinha feito. Aí um rapaz comentou lá que achava um absurdo a professora deixar a gente sair que nem prostituta.

A gente fazia as apresentações e ganhava dinheiro. Com essa renda, construímos um teatro pra nós lá no Itaim. A gente fazia comédia com três e quatro atos. Era uma beleza!

Essa nossa professora – o nome dela era Marieta Campos, de Conceição dos Ouros – era muito boa, levou o teatro pra nossa vida. O marido dela gostava muito de artes também. Tinha o João Lopes que tocava clarineta e acompanhava as peças que a gente fazia, e o meu cunhado tocava saxofone. A gente ensaiava mais de um mês pra poder apresentar a peça. Minha mãe fazia os figurinos das peças. Costurava muito bem.

Gosto muito de artes e uma vez fiz uma poesia que fez todo mundo chorar.

Eu cantava lá na igreja também. Quando esse missionário espanhol esteve lá, ele queria que alguém cantasse uma música sozinha pra depois entrar o coro. Eu fui escolhida pra cantar. O povo até chorava de me ver cantar!”

Outras lembranças

“Eu conheci meu marido lá no Itaim mesmo. Fui levar um recado pra ele de uma moça de lá que queria namorar com ele. Aí ele falou que estava muito bem ali conversando comigo… aí começamos a namorar. o namoro era na sala de casa e com muito respeito. namoramos uns seis meses e casamos lá em Aparecida do Norte, com música e tudo. Tivemos sete filhos, cinco homens e duas mulheres. Um morreu.

Outra recordação dessa época do Itaim foi a Revolução de 32. O Itaim amarelou de tanto soldado paulista que chegou lá. O uniforme deles era amarelo, né? Eles entraram na loja do meu pai e comeram de tudo que tinha lá e deixaram meu pai sem nada. Meu pai tinha um caminhão na garagem, e eles pediram a chave da garagem. Aí meu pai falou que o caminhão não tava funcionando, e eles falaram que tinham mecânico, pois pegaram o caminhão do meu pai e levaram.”

A mudança para Pouso Alegre

“Tive meus filhos todos lá no Itaim. Uma vez, chegou um homem lá e deu conselho pra nós mudar pra Pouso Alegre. Ele dizia que as minhas crianças eram muito inteligentes e tinha que estudar na cidade. Aí nós entramos no caminhão e viemos pra cá.

Fomos morar numa casinha branca aqui no Foch. Era uma casa de janela de tábua e o chão de tijolo que o meu marido comprou. Na casa não tinha água e nem luz, tinha que pegar água na cisterna. Aqui só tinha a nossa casa e mais umas três só. Moramos nessa casinha até construir essa que a gente mora agora. Os tijolo dessa casa aqui foi tudo feito na olaria do meu marido lá no Itaim.

Chegando aqui, montamos um barzinho. Eu fazia uma média de uns duzentos pasteis de farinha de milho por dia pra vender no bar. Depois, colocamos açougue.

Os filhos foram crescendo e seguindo o caminho deles. Um dia, meu irmão, que mora em Brasília, chegou aqui e levou meu filho com ele pra trabalhar no posto de gasolina dele. Outro filho meu, o César, estudou no seminário lá em Sapucaí-Mirim. De lá, mandaram ele pra estudar em Jerusalém. Quando ele chegou lá na faculdade pra fazer Teologia, conheceu uma moça alemã e se casou com ela. O nome dela é Eva. Hoje, eles moram em São Paulo.”

O bairro

“Aqui era um pasto grande. Era da Dona nenê Rios. E já tinha a escola Vinicius Meyer. Pra ir ao centro, a gente ia a pé. Eu morria de medo de atravessar o Aterrado, mas não tinha perigo nenhum, era cisma só.

Eu vendia Avon e saía a pé vendendo. Ia até na Vendinha pra vender os produtos.

O bairro aqui cresceu muito. Hoje, não tem nenhum lote vazio. E apareceram mais outros bairros por aqui perto. Agora, tem o bairro Santa Rita, Jatobá, Jardim Olímpico, Árvore Grande e outros aí que nem sei o nome. Parece que tem uns 15 bairros aqui em volta. Ali na curva do japonês, tinha um comércio que vendia picolé e gelo, e a gente ia comprar gelo lá, porque não tinha geladeira em casa. A gente ia muito fazer compras na Nicemara e no Seu Paulino.

Eu tô com 84 anos e tenho vontade de fazer muita coisa ainda. Eu queria muito ir em Fátima, lá em Portugal.

Sou muito feliz com meus filhos e tive uma vida muita abençoada, graças a Deus. Tive um pai e uma mãe muito bons e sinto muita falta deles. levo a vida na esportiva e é por isso que tenho saúde.”

Clara Maria da Cruz Ferreira, 84 anos, mora no bairro Foch, em Pouso Alegre, onde concedeu essa entrevista em setembro de 2011