Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Dr. Gabriel – “Nós, homens, verdadeiros deuses”

“Eu nasci em Belo Horizonte, embora meus pais já morassem em Pouso Alegre. Meu avô Olinto Deodato dos Reis Meirelles, que era médico e foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte [foi também prefeito de Belo Horizonte de 1910 a 1914], levou minha mãe para dar a luz lá. Sou o filho mais velho. Meu avô nasceu em Cruzília. Foi estudar no Colégio Caraça, cursou Medicina no Rio de Janeiro e foi trabalhar em Belo Horizonte no início da cidade.”

O pai, médico e prefeito

“Meu pai, Custódio Ribeiro de Miranda, nasceu em Leopoldina, MG, e minha mãe, em Belo Horizonte. Ele estudou Medicina em Belo Horizonte até o terceiro ano e concluiu o curso no Rio de Janeiro. Depois, de formado, foi trabalhar em Carangola, MG. Depois foi admitido para o serviço de Saneamento Rural em Santa Rita do Sapucaí.

Nessa época, recebeu um telegrama do médico Samuel Libânio, que era o diretor de Higiene do Estado de Minas Gerais, que fora seu professor em Belo Horizonte e seu padrinho de casamento. O telegrama dizia que o Estado iria construir três hospitais, entre eles, o hospital de Pouso Alegre, e deu a meu pai a incumbência de construí-lo.

E assim, em 1920, 1921, meu pai veio para Pouso Alegre e começou a construção do hospital com recursos doados pela Fundação Rockfeller. Em 1922, foi a inauguração. Até pouco tempo, tinha uma placa no Hospital com o nome da Fundação.

O projeto, em forma de cruz, dava possibilidade para o Hospital expandir-se – como expandiu, de fato –, sem precisar fazer aqueles famosos puxadinhos. Meu pai foi eleito prefeito de Pouso Alegre em 1951 e governou até 1956. Foi um grande prefeito. Foi ele que trouxe o serviço de telefonia, a Companhia Sul Mineira de Eletricidade (…).

Para a construção do campo de aviação, ele foi ao Rio de Janeiro falar com o presidente Getúlio Vargas pessoalmente. E conseguiu seu objetivo. Meu pai foi também um grande apaziguador da política local – nessa época era a UDN e o PSD.”

Infância em Pouso Alegre

“Quando criança, deveria ter uns cinco, seis anos, gostava de brincar no pátio do Hospital. Próximo, tinha uma cocheira e uma charrete. O charreteiro, chamado José Gonçalves, fazia o serviço de correio para o Hospital. Ele ia buscar os “conhecimentos” (documentos) na estação e eu gostava de ir com ele. Era um sujeito formidável. Quando sobrava tempo, ele me levava para tomar garapa em um engenho no Ribeirão das Mortes.

Foi meu pai que me ensinou a ler, tinha uns seis anos. Aprendi na cartilha de autoria de Tomaz Galhardo. Até gostaria de encontrar essa cartilha em algum sebo. Aos sete anos fui estudar na Escola nossa Senhora aqui em Pouso Alegre. Minha professora era Dona Francisca Libânio. lembro-me do meu colega Francisquinho Junqueira, que sentava comigo no mesmo banco. Já morreu, faz uns seis anos. Depois, Dona Francisca fechou a escola e foi para o convento. Fui estudar em outra escola, onde concluí o quarto ano.”

Longe de casa

“Aos onze anos, meu pai resolveu me mandar para um colégio interno no Rio de Janeiro. Coisa que não gostei mesmo, pois perdi minha ligação com meus amigos, me privei da presença de minha mãe, gostava muito dela. Ia no trem da Rede Mineira de Viação. Embarcava às três da madrugada e chegava ao Rio às oito horas da noite. Meus irmãos, entre eles o Elísio, que também é médico, estudaram no mesmo Colégio. Minhas irmãs ficaram aqui e estudaram no Colégio das Doroteias.

Em 1939, me formei no curso ginasial e já tinha definido que queria fazer Medicina. Fui estudar no Colégio Universitário, no Rio, criado por Getúlio Vargas. Gostei muito desse colégio e aprendi até gostar de Matemática, pois tinha um ótimo professor que nos convencia que Matemática não tinha mistério.

Fiz vestibular para Medicina na Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, que era a melhor escola da época. Depois, foi demolida e a escola foi transferida para o Fundão. Uma data inesquecível foi quando vi meu nome na lista dos aprovados. Iniciei o curso e, nas férias, quando vinha para cá, comecei a frequentar o Hospital daqui e a tomar gosto pela profissão.

Conheci a Aparecida, minha esposa, em Pouso Alegre, casualmente, quando cursava o quarto ano de Medicina. o cunhado dela era prefeito de Pouso Alegre na época.

Assim que terminei o curso, fui trabalhar numa companhia de petróleo, no Rio mesmo, como médico do trabalho. Fiquei apenas oito meses, pois meu objetivo era clinicar.”

Família e carreira em Pouso Alegre

“Em 1950 voltei de vez para Pouso Alegre, depois de ter permanecido 16 anos fora.

Casei-me e comecei a trabalhar no Samuel Libânio, junto com meu pai.

Fui para São Paulo me aperfeiçoar em cirurgia com o Dr. Maris Deime, que era médico da Santa Casa e do Hospital Matarazzo. Aprendi muito com ele.

Especializei-me em cirurgia geral. nessa época, eu fazia muitas cirurgias no Hospital com pacientes que tinham sido esfaqueados ou recebido tiros. Também me especializei em clínica geral, pediatria e obstetrícia. Fazia só os partos complicados; os mais simples eram feitos por parteiras. Tinha a Dona Josefa, que era a parteira mais famosa da região.

Lembro de um caso que ficou fixado em minha mente. Tive que operar às pressas uma paciente que tinha uma gravidez nas trompas. Era um domingo e não tinha nenhum médico de plantão. Foram o Dr. Gustavo, que era pediatra, e a irmã Delfina, que era enfermeira, que me ajudaram. Salvamos a mãe.

O tempo foi passando e foi aumentando o número de médicos. Havia dois médicos do 8º Regimento de Artilharia Montada, Dr. José Rodrigues e Dr. Leonino, que prestavam serviços voluntários no Hospital. Lembro-me do Dr. Fagundes, Dr. Clemildes, Dr. Takara, Dr. Mosconi, que chegaram mais tarde.

Com a chegada do Dr. Vítor Romeiro, eu deixei a ortopedia; com a chegada da Dr. Fábio Magalhães, eu deixei a pediatria e fiquei só com a ginecologia. E o Hospital foi crescendo, sempre renovando.

Fui diretor do Hospital uns cinco anos; depois, o Dr. Omar assumiu. Retornei ao cargo até o Hospital ser doado à Faculdade de Medicina pela Secretaria de Saúde do Estado.

Montei meu consultório na Avenida Dr. Lisboa. Depois, passei para a Praça Senador José Bento, onde hoje está o Edifício Dr. Miranda. Em 1960, mudei-me para minha casa, aqui na Adolfo Olinto, e montei meu consultório aqui. Naquela época, era comum consultório em casa. Hoje, tem as clínicas. Uma evolução! Fechei o consultório em 2002, 2003.”

Dr. Gabriel, professor

“Quando construíram a Faculdade de Medicina, em 1969, o Dr. Jésus me convidou para assumir a cadeira de cirurgia geral. Não queria aceitar, mas ele insistiu. A secretária da Faculdade fez uma relação das cirurgias que eu havia feito, enviou para o MEC e fui aprovado.

Como a Faculdade estava começando, e essa disciplina só seria oferecida no terceiro ano, comecei a lecionar Propedêutica Clínica – métodos de examinar os pacientes. no início da década de 1970, assumi minha cadeira e fiquei durante muitos anos.

O Dr. Takara era professor de Propedêutica Cirúrgica – métodos de ensino de técnicas cirúrgicas – e tiraram a disciplina dele do currículo. O Machado, que era diretor da Faculdade, me chamou e fez-me um convite: ‘como o senhor tem prática de obstetrícia e Ginecologia, não quer ir para o Departamento de obstetrícia e Ginecologia e deixar sua cadeira para o Dr. Takara?’. E eu passei a ser professor adjunto do Departamento. Fiquei lá até o final de minhas atividades no Hospital. Era chefe de plantão. A Medicina ficou muito complicada…

Mas continuei como professor de Ginecologia para alunos da Faculdade no CAIC São João (convênio Hospital e Prefeitura) até o dia 27 de dezembro de 2010. Portanto, faz apenas seis meses que me aposentei.”

Menotti Del Picchia

“Conheci o Menotti na fazenda da família da Aparecida, em Guaxupé. Ele era sogro do irmão da Aparecida. Encontrávamo-nos lá. Era um indivíduo inteligentíssimo. Acho até que ele era pouco referenciado na Semana de Arte Moderna. Quando jovem, estudou no Colégio São José, aqui em Pouso Alegre, que era dirigido pelo bispo. Ele era tão distinguido, gostava de artes, de literatura, que o bispo o levou para morar no Palácio.”

Cotidiano 

“Levanto cedo. Gosto de trabalhar na cozinha, gosto de preparar a minha alimentação e de minha família. Na época em que eu trabalhava, não tinha tempo para me cuidar. Não sei como sobrevivi. Tinha tudo para ter um infarto. Fui poupado.

Leio os editoriais do Estado de São Paulo, tomo meu banho, preparo o almoço, vou ao banco, ao supermercado, faço minhas caminhadas. Já viajei muito. Hoje, estou mais caseiro, por causa da doença da Aparecida. Gosto muito de ler Machado de Assis, os clássicos franceses.”

Deus

“Hoje em dia, estou mais cético. Comungo com o pensamento do grande filósofo alemão: ‘Se os deuses existissem, como eu suportaria não ser um deus?’ Sou um deslumbrado pelo que vejo hoje: o celular, por exemplo, o mundo inteiro fala pelo celular e ninguém se confunde, a invenção do pendrive e de tantas coisas. E quem fez tudo isto?

Nós, homens, verdadeiros deuses.”

Dr. Gabriel Meirelles de Miranda, 89 anos, reside no centro de Pouso Alegre, onde concedeu essa entrevista em julho de 2011