Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Eduardo Toledo – “Pouso Alegre está em mim”

“Eu nasci em Pouso Alegre, na antiga Rua do Brejo. Aqui é origem de toda a minha família: meus tataravôs, meus bisavôs, meus avôs…

Enfim, minha relação com Pouso Alegre remonta, como eu disse na trova, há mais de duzentos anos, desde o início do Arraial do Bom Jesus do Mandu até os tempos de hoje.

Entre o Rio de Janeiro e Pouso Alegre

“Quando eu tinha um ano de idade, meu pai, que tinha passado no concurso para promotor, foi transferido para o Rio de Janeiro. E para lá foi toda a minha família. Depois, ele foi juiz e, no final da carreira, foi desembargador.

Então, começou meu ciclo de viagens para Pouso Alegre. Em todas as férias de janeiro e de julho, minha mãe vinha comigo e meus irmãos passar as férias aqui. Assim foi durante toda a minha meninice e a minha juventude nas décadas de 1940 e 1950. Vinha de trem na maioria das vezes. Quando meu pai vinha, vínhamos de carro.

Nessa época, Pouso Alegre era uma cidade bucólica, pequena, cheia de encantos, agradável, ordeira. Eu me hospedava no casarão do senador Eduardo Amaral, nosso avô, que era ao lado da Catedral. A casa tinha 25 janelas na frente, abrigava todo o quarteirão onde está hoje o edifício Teixeira.

O meu tio, Dr. José Marques de oliveira, que era médico, me dava uma moeda. Minha primeira providência era alugar uma charrete e ia andar na cidade, eu mesmo dirigindo. A cidade não tinha a correria dos tempos modernos.

Até que um dia eu me formei em Direito na Universidade Federal do Rio. Eu trabalhava no Tribunal Eleitoral lá e resolvi vir embora para Pouso Alegre para advogar. Mas aí teve um concurso para fiscal do imposto de renda no Rio, fiz e passei. Deixei de advogar para começar a trabalhar. Para ficar perto de Pouso Alegre, consegui uma transferência para Resende.

Essa ligação com a serra da Mantiqueira é muito forte, inclusive eu fiz um poema intitulado Lá por trás da Mantiqueira. Nesse poema, eu conto das minhas peripécias quando vinha para cá e quando voltava para o Rio.”

Afeição pela história da cidade

“Fui me afeiçoando pela história de Pouso Alegre. Até que um dia morreu meu tio Eduardo Amaral de Oliveira, irmão da mamãe. Ele morava no Rio, mas tinha fortes ligações com Pouso Alegre. ele era historiador, tinha muitos documentos de Pouso Alegre. E a minha tia transferiu o acervo dele para mim. Uma coisa fantástica, inclusive documentos de duzentos anos sobre a história de Pouso Alegre. em função disto, fui me afeiçoando mais à história da minha terra.

Fui pesquisando, adquirindo outros documentos. Fundei um jornal – O Jornal de Pouso Alegre –, que circulou de 1967 a 1982. era o único jornal daquela época, além do jornal Semana Religiosa, que tratava só de assuntos pertinentes à igreja Católica.

Era um jornal combativo, independente, assim como foi a nossa vida em Pouso Alegre, sem estar preso a nenhum grupo político.

E assim fui me ligando intimamente à história da cidade. o acervo aumentou sobremaneira. Acredito que seja o maior acervo particular da cidade, criado a partir da minha ligação e da minha família com a cidade de Pouso Alegre.”

Festival da TV Tupi

“Nós participamos de alguns momentos importantes na cidade. eu me lembro bem de um deles. Foi em 1972.

Eu e um amigo meu, o José Otávio, que é médico em Itajubá, participávamos de vários festivais de música na região. Eu fazia a letra e ele, a música. Nós nos inscrevemos num festival da TV Tupi. Fomos classificados para a final. Eram 12 músicas, tinha vários compositores famosos participando, a televisão transmitindo. Naquela época, os festivais eram muito fortes no Brasil.

No dia que fomos apresentar nossa música, saíram dois ônibus lotados – cedidos pelo então prefeito Breno Coutinho – de jovens de frente do restaurante Uirapuru para a TV Tupi, lá no alto de Sumaré, São Paulo.

E, para nossa grande alegria, ganhamos o primeiro lugar e foi uma festa na cidade. A música chamava-se Onde o amor ficou, inclusive quem deu esse título foi o Vinicius de Moraes. O Luis Otávio estudava Medicina em São José do Rio Preto [SP] e participou de um festival lá no qual o Vinicius estava. Ele pediu para o Vinicius dar o nome.

A cidade inteirinha acompanhou pela televisão. Quando chegamos de volta, eram mais ou menos umas quatro horas da manhã, tinha uma multidão nos esperando. Foi uma festa na cidade. No sábado seguinte, o Clube Literário fez uma festa de comemoração para a gente.

Foi o momento… talvez o mais importante da história artística de Pouso Alegre. Logo depois, trouxemos a Jane, da dupla Jane e Herondy, que, na época, fazia parte de um trio – Os três Morais – para cantar a música aqui no Clube literário lotado.”

“Devolva o teatro para o povo”

“Na década de 1970, tentaram vender o Teatro Municipal, que foi fundado em 1875. o Teatro estava fechado havia alguns anos. A Prefeitura tinha alugado primeiro para uma loja de móveis, depois para a Rádio Clube, depois funcionou a delegacia, inclusive houve até o assassinato de um preso.

Veja bem como era estranha a história de Pouso Alegre: como uma casa como o Teatro, que é o centro cultural da formação da inteligência artística, poderia abrigar uma delegacia?

Eu tinha o jornal nessa época e comecei uma campanha para devolver o teatro ao povo e tirar a delegacia de lá. A manchete era a seguinte: ‘Teatro x delegacia x crime. Devolva o teatro para o povo’.

Começamos uma campanha colhendo assinaturas. Fomos até o cartório para ver a escritura do teatro.

Faço uma pausa aqui para contar a história do Teatro e a minha relação com ele. O teatro foi construído por um grupo de jovens, entre eles o senador Eduardo Amaral, meu avô, e Manoel de Abreu, meu tio-avô. Eram cinco jovens artistas que sentiram a necessidade de ter uma casa de espetáculo. E com o dinheiro das apresentações construíram o Teatro. E quando eles ficaram mais velhos, doaram o Teatro à Câmara Municipal com uma cláusula: que não poderia deixar de ser teatro, senão voltaria para os herdeiros, entre eles, eu.

Foi uma campanha acirrada. Fomos ver a escritura, tinham sumido com ela, porque realmente a Prefeitura estava querendo vendê-lo. E começaram a vender a imagem para a população de que o Banco do Brasil estava comprando o Teatro e, se eles não comprassem, iriam embora de Pouso Alegre. Começaram a vender essa mentira para induzir o povo a não apoiar o nosso movimento.

Ora, como se pudesse o Banco do Brasil ir embora de uma cidade que estava crescendo!

E depois havia um terreno ali próximo, dos irmãos Andare, da Casa Andare, onde poderia ser instalado o Banco do Brasil.”

A vigília

“Eu liderava o movimento, não apenas por causa do jornal. É que nós tínhamos realizado, pouco antes, no Clube literário, a 1ª Semana de Arte de Pouso Alegre, que foi um sucesso.

Resolvemos fazer uma noite de vigília em frente ao Teatro, pois iria ser votado na Câmara Municipal – que, naquela época, funcionava numa sala do antigo fórum – a venda do teatro para o Banco do Brasil. E, segundo todos os comentários, a Prefeitura tinha a maioria na Câmara e estava praticamente vendido o Teatro.

Era tempo de inverno, um frio de rachar. Num domingo à noite, resolvemos fazer a noite da vigília pelo Teatro.

Juntamos a juventude artística, pintores, poetas, músicos, juntamente com duas personalidades muito fortes, homens da cultura e arte, o ex-prefeito Tuany Toledo e o farmacêutico Jacinto Libânio, que se juntaram a nós dando uma força moral muito grande. Fizemos abaixo-assinado. Havia quase oitenta pessoas. Começamos às oito horas da noite e varamos a noite, evidentemente, com um bom conhaque, porque ninguém é de ferro. Lá pelo meio-dia, levamos os dois para casa.

Continuamos lá aguardando a sessão da Câmara à noite. Às dez para as oito, em frente ao Teatro, convoquei todos os moços: vamos todos para a Câmara Municipal com faixas, cartazes. Estávamos em mais de cem. Subimos a escadaria do fórum e entramos na Câmara. Fomos recebidos com muita fidalguia pelo então presidente da Câmara, o vereador Simão Pedro Toledo, que cedeu a palavra para os manifestantes.

Eu fui à tribuna defender a não venda do Teatro. Evidentemente, não apenas pelas nossas palavras ditas naquele instante, cheias de entusiasmo e ideal, mas também pela pressão psicológica da massa ali presente, nós modificamos o resultado. Os vereadores voltaram atrás, e vencemos naquela oportunidade por dez votos a um. Saímos dali vitoriosos. A cidade inteira aplaudindo. Fomos para o Teatro e fizemos a última manifestação.

Enfim, passado pouco tempo, a delegacia saiu de lá. O Simão Pedro foi eleito prefeito e reformou o Teatro, que está aí até hoje. E o terreno baldio que enfeiava a Avenida Dr. Lisboa, o Banco do Brasil comprou e construiu o prédio que está aí hoje.

E o nosso Teatro continua aí presente há 137anos. É um dos mais belos teatros do interior de Minas Gerais.”

Falta de zelo pela história

“Pouso Alegre tem cuidado pouco de sua história. Eu me lembro, em 1998, eu fui à Catedral e falei com o padre Paulo que a Catedral iria completar duzentos anos no dia 6 de agosto daquele ano. Eles não sabiam. Eu levei documentos e fizeram uma missa, inclusive eu participei da missa e até declamei uma poesia. Mas não houve as comemorações devidas.

Lamento também, entre outras coisas, a não preocupação dos homens públicos de Pouso Alegre com a história da cidade, acontecimentos. Por exemplo, Nossa Senhora dos Namorados, um dos símbolos do coração de Pouso Alegre, que é a Praça Senador José Bento. Aquela imagem completou cem anos, se não me engano, há seis, sete anos atrás, e ninguém colocou uma plaquetinha, nem nada. Essas coisas só nos dão desânimo, porque o nosso amor e carinho pela nossa terra e pela nossa história é muito maior.”

Pouso Alegre, muitas histórias

“Pouso Alegre tem um lugar preponderante na história cultural e literária do Brasil. Vários acontecimentos levaram Pouso Alegre a projetar esse cenário. O primeiro aconteceu quando foi elaborada a primeira Constituição do Império. O senador José Bento, que era de Pouso Alegre, foi senador do Império. Quando foi discutida a primeira Constituição do Império, o senador levou um projeto de lei que ficou conhecido como A Constituição de Pouso Alegre.

Esse projeto de lei foi publicado no primeiro jornal do Sul de Minas, que foi O Pregoeiro Constitucional, que era dirigido pelo senador José Bento e pelo padre Quadros Aranha. O jornal era impresso na Gráfica João da Silva, onde funciona a Foto Puccini. O senador ia para o Rio de Janeiro e levava o jornal. Ele era um homem de uma oratória eloquente. Isto em 1830 aproximadamente.

Em 1930, mais ou menos, a Academia Brasileira de Letras premiava o livro do poeta do ano e dava este primeiro lugar a um poeta de Pouso Alegre: o poeta Vinicius Meyer. Isto projetou Pouso Alegre no cenário literário do Brasil.

Em 1961, a Arcádia de Pouso Alegre, fundada pelo Dr. Jorge Beltrão, realizou seus primeiros jogos florais. Depois de Friburgo, em 1960, Pouso Alegre foi a segunda cidade do Brasil a realizar os jogos florais. Era uma festa na praça. Poetas falando poesia.

Depois, com a morte do Dr. Jorge Beltrão, acabou a Arcádia. E nós criamos, em 1992, a Academia Pousoalegrense de letras e me tornei seu presidente. Resgatamos os jogos florais. Em 1993, nós realizamos os XVI Jogos Florais. Dr. Jorge tinha feito quinze. nós enchíamos a praça com trovas, poesias. Era uma festa anual, realizada até 2007. Por falta de apoio, não realizamos mais. Durante muito tempo, era a Academia que pagava.

Fui presidente nacional da União Brasileira dos Trovadores (UBT) durante oito anos e, nesse período, Pouso Alegre foi a sede. Nós expandimos a entidade para o exterior, fizemos vários concursos. Deixei a presidência em 1º de janeiro deste ano [2011].

Enfim, nós sempre projetamos Pouso Alegre como uma cidade que irá tornar-se a mais importante do sul de Minas. Eu já preconizei, inclusive em artigos, que Pouso Alegre tem tudo para se tornar futuramente a capital do novo estado da Mantiqueira, por ser uma cidade plana, num vale verdejante, uma natureza pródiga.”

Eduardo Toledo reside no centro de Pouso Alegre. Entrevista realizada no Clube Literário e Recreativo de Pouso Alegre, em outubro de 2011