Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Expedito Paraná – “Eu só trabalhei para a comunidade”

“Eu nasci em 26 de janeiro de 1937. Sou filho de Afonso José Pereira e Henrica Cândida Pereira. A Fazenda Grande era tudo do meu bisavô, era tudo isto aqui, ia até perto de Pouso Alegre. Nasci aqui do lado. A vivência nossa em criança, naquele tempo antigo, era de muito trabalho.

Escola era pouca. Entrei na escola com oito anos, na escolinha rural aqui do bairro, onde hoje é a escola Porfírio Ribeiro de Andrade. Estudei até o terceiro ano. Meu pai tirou a gente da escola por causa do serviço.

E já comecei no serviço pesado, destocando brejo para plantar arroz. Naquele tempo, não tinha exigência de obrigar os pais a colocar os filhos na escola. Estudava até certo ponto.

Fui convidado pelo tenente Couto – ele queria que meu pai me cedesse para eu trabalhar com ele na cidade [Pouso Alegre] em troca de estudo para mim, mas meu pai não aceitou. Eu era filho caçula, tinha 18 irmãos.

Meu pai não sabia nem ler, nem escrever. Já minha mãe estudou em colégio.”

Candeeiro, o primeiro trabalho

“Nós tinha um terreno lá em Borda da Mata [MG], onde a gente plantava milho e feijão.

Aqui, era só campo, só produzia arroz. Tinha um carreiro que morava lá na Borda e plantava a meia com meu pai. Eu era candeeiro dele. Quando ele ia buscá a colheita lá na Borda, eu ia junto. Candeeiro é aquele que abre as porteiras e que vai aprendendo a carrear.

Fui crescendo e comecei a trabalhar lá com meu irmão e meu cunhado Joaquim. Ficava num ranchinho na beira da roça durante a semana e voltava no fim de semana para aqui, na casa do meu pai.

Em 56, casei e continuei a trabalhar lá. Fiquei 25 anos lá. Meu pai dividiu as terras pra gente em vida. Herdei uma parte de cultura lá e uma parte aqui no campo. Troquei as terras de lá com meu irmão e fiquei só aqui. Adquiri mais uma parte de outro irmão. Ao todo são 35 alqueires.

Fiquei zelando de meu pai, minha mãe e meu irmão, que era mudo. Em 68, meu pai morreu; em 71, minha mãe; e em 75, meu irmão.”

Plantar morango, adesão coletiva

“Em 76, comecei a plantar morango. Um vizinho nosso trouxe umas mudas lá de Atibaia [SP]. Eu me interessei por aquilo, era muito curioso. Comecei a dar de meia pra plantar mais. Aqui, era tudo pequeno produtor.

Em 80, plantei 320 mil pés. Tinha época que eu tinha 30, 40 pessoas trabalhando comigo. Ficava tudo na minha casa, eu dava comida. Já comecei como um grande produtor.

Começamos a feira agrícola na Avenida Dr. João Beraldo no centro de Pouso Alegre, com assistência técnica da Emater [Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais]. A Emater me colocou como líder dos plantadores de morango. Inauguramos a feira com quase 50 barracas.

O morango mudou a vida do bairro. Quase todos aqui plantam morango. É difícil uma família aqui que não esteja ligada à plantação de morango.

De uns três anos pra cá, a vigilância sanitária começou a interferir. O Ministério do Trabalho também. Hoje, não pode levar criança para trabalhar na roça. Empregados só podem trabalhar com carteira assinada. Antes, o empregado vinha de fora e ficava em qualquer ranchinho. Tá difícil, mas, aos poucos, todos estão enquadrando, entrando no esquema.

A minha liderança foi crescendo. O Simão Pedro [prefeito da época] me convidou para entrar para a política. Em 1988, entrei como candidato a vereador e perdi por 16 votos. Em 92, perdi de novo e, em 96, entrei firme e ganhei e, em 2000, também.

Continuo disputando. na próxima eleição sou candidato de novo. Estou com a idade avançada, mas, graças a Deus, minha liderança e minhas amizades são fortes.”

A Festa do Morango

“Como era líder, todas as reuniões do bairro eu estava envolvido. Começamos com a criação da escola. Nessa época, não tinha nem a Fernão Dias. Depois foi feito um barracão para celebrar as primeiras missas. Depois criamos a Festa do Morango. Este ano [2011], a Festa fez 31 anos.

De primeiro, a festa era regional, abrangia Pouso Alegre, Estiva e Cambuí. o povo era unido. A Prefeitura de Pouso Alegre bancava quase tudo. A gente ganhava patrocínio, os produtores doavam morangos para vender na festa.

Com o dinheiro das primeiras festas, nós construímos a igreja. Foram necessárias três a quatro festas.

A barraca da comunidade juntava o Algodão, Cruz Alta e Maçaranduba. Tinha show muito melhor que hoje, só que tinha mais patrocínio. Vinha verba do Estado, da Prefeitura. Hoje, não tem mais isso, os shows são caríssimos. Antes, não cobrava portaria, hoje cobra. As despesas são muito grandes. A festa está fracassando. o próprio produtor se desinteressou. Ele só está pensando em si e não na comunidade.”

A Associação

“Criamos a Associação dos Produtores de Morango de Pouso Alegre. no primeiro mandato, eu fui o presidente. A Associação começou a vender para Curitiba, aí já entrou os atravessadores. Tinha um comprador de Curitiba que quis dar cano na gente. Fomos lá para acertar as contas e ele só tinha um caminhão. Pegamos o caminhão e vendemos para pagar os produtores.

Nos primeiros anos, não tivemos lucro. Depois, começamos a vender para o Rio. Aí apareceu de novo os atravessadores oferecendo preço mais barato. O que aconteceu? Cada associado foi descambando para um lado e buscando um comprador.”

Comunidade

“Conheço o bairro inteirinho. Vi o crescimento de Pouso Alegre. Acompanhei o crescimento de São Geraldo, Cidade Jardim, vi construir o Jardim São João (…).

Hoje, não planto mais morango. Doei minhas terras para o meu filho e ele aluga para outros plantadores.

Trabalhei mais para os outros do que para mim. Ajudei a construir o Algodão, a Cruz Alta, a Fazendinha, Limeira, Limeirinha. Eu só trabalhei para a comunidade. nunca tirei proveito para mim.”

Expedito José Pereira, conhecido como Expedito Paraná, 74 anos, reside no Sítio Santa Rita, no bairro Cruz Alta, em Pouso Alegre, onde concedeu essa entrevista em outubro de 2011