Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Grapete – Com a bola no pé

“Eu nasci em Silvianópolis, em 1943, e vim pra Pouso Alegre com cinco anos de idade. Meu pai, José Borges do Couto, adquiriu o Hotel Cometa ali perto da Catedral, e viemos morar aqui.

O Hotel recebia muitos viajantes, tinha muito português. Lá servia comida também. Minha mãe era uma cozinheira de mão cheia. Naquela época, meu pai criava porco e frango ali no fundo do Hotel. Quando a Prefeitura proibiu a criação de porcos na cidade, nós passamos a criação lá pro Aterrado.

Minha família era grande, eram muitos filhos. Faleceu o mais velho, que era o Messias. Meu pai foi casado três vezes. Da primeira esposa, ele teve quatro filhos; da segunda, só teve o Wagner; e eu sou um dos doze filhos do último casamento dele.

O apelido Grapete surgiu na época que meu pai tinha um bar ali na praça e, como eu gostava muito daquele refrigerante chamado ‘Grapete’, o Bié e o Sinhana colocaram esse apelido em mim.”

Os primeiros dribles

“A minha infância foi ali perto da Catedral, jogando bola. Ali em frente às lojas Cem, tinha um gramado e a gente jogava ali. Depois passamos a jogar lá na praça da antiga rodoviária. Ali era uma espécie de clube [pertencia à Prefeitura]. Tinha basquete, vôlei, piscina e pingue-pongue. Nessa época, tinha o Sargento Moraes, que ficava doido quando não ganhava da gente. De um lado era eu e o Adãozinho e do outro era o Sargento e o ‘Cabrito’. O Adãozinho era muito bom de bola e eu levei ele pro Atlético em 1964.

Estudei no Colégio São José e lá se jogava muita bola. Ali no colégio, tinha vários campeonatos de futebol e vôlei. No São José, era internato só pra homens; onde é o Colégio Estadual era escola de padres. Então jogava o time deles, o nosso e mais uns quatro de fora. o Colégio São José teve muita influência na minha carreira de jogador.

Depois que foi criada a Lema (liga Esportiva Municipal de Amadores), passei a fazer parte do time do Senhor Raimundo Cocada. Jogava como lateral esquerdo e ali eu recebi meu primeiro salário como jogador. Depois, fui jogar no Palmeirinha, que era do Derichi. Mais tarde, fui jogar no Rodoviário, que era do Senhor José Ferro, pai do Paulo da Pinta. nessa época, o estádio ficava lotado. Quem queria assistir os campeonatos tinha que ir bem cedo pra lá e guardar um lugar.

Depois, fui eu e o Adãozinho fazer teste no Corinthians, em São José do Rio Preto. Ficamos trinta dias lá. No dia de assinar o contrato com o time, chegou o Minelli e dispensou nós dois. O Adãozinho chorou demais, e eu falei pra gente pegar a passagem com os caras e tomar o trem pra São Paulo. E fomos. Treinamos no Corinthians, de São Paulo, e não deu certo. Fomos pra Portuguesa e não deu também. Aí nós fomos treinar em Pará de Minas. Passamos nos testes, mas eu não gostei da cidade e voltei. o Adão ficou.”

Tempos do Atlético Mineiro

“Passei uns dois ou três meses jogando aqui na Lema, quando um fiscal do INSS me viu jogando e me levou pro Atlético. Fui morar com o meu irmão, o Wagner, que já morava em Belo Horizonte. Fiquei no Atlético jogando como lateral esquerdo e dei sorte porque o Décio Teixeira, que era o titular, estava machucado e eu entrei no lugar dele. Aí passou uns três meses, fui jogar como zagueiro e não saí mais dessa posição. Cheguei no Atlético com 19 anos. Hoje, os clubes não aceitam mais essa idade, tem que ser mais novo e sair das categorias de base.

Fiz minha carreira no Atlético, mas naquela época não se ganhava dinheiro como hoje. Foi uma época de bons jogadores, como o Zé Dario, Odair, Beto Monteiro, Tostão, Nirceu, Pelé, Coutinho, Clodoaldo, Rivelino, Gerson, Toninho Cerezo…

Fiquei no Atlético 12 anos e consegui levar o Adãozinho pra lá também. Quando ele chegou pra fazer o teste, os dirigentes gostaram muito dele, mas pra ele ficar no clube teria que desfazer o contrato dele lá em Pará de Minas e isso ia ficar caro. Ele acabou voltando pra Pouso Alegre e infelizmente morreu, mas jogava muita bola, viu? Mesmo assim ele jogou um ano pelo Atlético como amador.

Um dia, o Cruzeiro me convidou pra treinar e eles me perguntaram se eu tinha assinado alguma coisa no Atlético e eu disse que sim. Aí fui tentar pegar o contrato de volta e eles não me entregaram. Eles ficaram com medo, pois, até então, não tinham assinado meu contrato e igualaram meu salário com o dos outros jogadores. Meu contrato estava lá na gaveta. Eles queriam ver o que eu ia dar de futebol… Quando viram que eu seria bom jogador, melhoraram minha situação lá.

Pelo Atlético eu nunca tinha jogado no Mineirão, joguei lá pela seleção mineira. Eram vários jogadores de vários times. Era a seleção mineira, o Santos, o River Plate e o Botafogo. No último jogo, contra o Santos, eu torci o joelho logo no primeiro tempo e tive que sair. Foi um jogo pra comemorar a inauguração do Mineirão.

Na copa de 1970, estava eu, o Dadá Maravilha e o Montana, do Vasco, pra ser convocado pra seleção. Aí os dois foram e eu fiquei. Uma única vez joguei pela seleção brasileira contra a República Tcheca, era o Atlético representando a seleção.

A grande diferença do futebol da minha época e o de hoje é que, no meu tempo, tinha que ter habilidade e, hoje, tem que ter força física. A gente treinava muito com bola. Hoje, os caras erram passes demais e isso não pode.

A gente fazia educação física pra aguentar o tempo de jogo, mas depois era só bola, bola, bola. Outra coisa pra ser um bom atleta é ter disciplina. Hoje, você treina a criançada e, quando eles completam 14 anos ou 15, já vão pra noitada e abandonam o futebol. Tem que gostar muito e dedicar e, se possível, estudar também.”

O Varanda

“Depois que eu encerrei minha carreira de jogador, eu voltei pra Pouso Alegre e montei o restaurante Varanda e a boate também. Lá fiquei 19 anos; depois vendi o prédio. Eu iniciei servindo pizza e tira-gosto e, mais tarde, seguindo o conselho do meu sogro, contratei o Senhor João Cozinheiro e expandi o restaurante. Ali tinha música ao vivo e, na época que o Thomaz [Thomaz Green Morton, paranormal pousoalegrense] estava no auge, ia muito artista lá. A Rita Lee mesmo deu um show lá. As primeiras festas de réveillon em Pouso Alegre aconteceram lá.

Na parte de baixo, funcionava a boate e o Beto, meu cunhado, me ajudava ali. no princípio, eu tinha montado pra casais, tinha as mesas…

Depois resolvi, junto com a filha do Zé Luiz Amaral, transformar num lugar dançante mesmo. Aí pegou!”

O esporte em Pouso Alegre

“Sempre gostei muito de futebol. Eu e o Paulo, meu irmão, criamos uma Associação de Futebol aqui e montamos dois times, o infantil e o juvenil, pela Federação Mineira. Difícil é o patrocínio. O que nós conseguimos este ano [2011] foi só o ônibus, através do João do Karatê, que é secretário de Esportes. Este ano, eles jogaram em Uberlândia e Araguari, mas não passaram pra outra fase. Se passassem, iriam jogar com os grandes times mineiros. A nossa sede fica no patrimônio do Paulo e eu sou o presidente. Nós temos a função de colocar esses meninos num grande time, mas não é fácil porque tem muito empresário na disputa.

Nós temos um projeto desse 1% do imposto devido pelas empresas [lei de Incentivo ao

Esporte/Ministério do Esporte] e estamos negociando pra conseguir esse recurso pro nosso esporte. Esse recurso será destinado para as categorias de base, a moçada de 1999, 98 e 97.

Hoje, futebol é coisa cara, tem viagem, arbitragem… Uma arbitragem pra jogo infantil e juvenil custa mil e oitocentos reais. Pra levar um time até Uberlândia pra disputar um campeonato, só o ônibus fica em cinco mil reais.

O esporte em Pouso Alegre poderia ser mais dinâmico. O ideal pro nosso esporte era entregar a Lema pro Hospital [campo de futebol desativado ao lado do Hospital das Clínicas Samuel Libânio] e requerer em troca um centro de treinamento pros nossos times. Aquele espaço ali é da Liga de Futebol Pousoalegrense, foi doação e hoje está nas mãos dos Chaves. Parece que tá tendo uma negociação com o hospital pra fazer essa troca. Seria muito bom, pois Pouso Alegre está carente de um time profissional.

Na época do Zé Chaves, teve um grande time aqui e chegou a ganhar até do Atlético Mineiro. Hoje, tem quatro times aqui e nenhum deles joga mais. O único que tá na ativa é o nosso time, mas disputa somente o infantil e o juvenil mineiro pela Federação Mineira.”

José Borges do Couto, conhecido por Grapete, 68 anos, reside no bairro de Fátima, em Pouso Alegre, onde concedeu essa entrevista em agosto de 2011