Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Irmãos Munhoz – Vida em comunhão com a terra e com Deus

ANÉSIA: “Tenho total liberdade”

“Nasci aqui. Minha infância foi da época de uma família grande. Com seis anos, comecei a ajudar minha mãe nas tarefas domésticas, fui babá de um irmão. Depois, vieram tantos.

Participei da educação de todos eles. Saí da escola no terceiro ano e não tive mais como voltar. Apesar das dificuldades, fui muito feliz.

Fui crescendo e me entusiasmando por outras coisas. Fiz o curso de corte e costura por correspondência.

Em 1974, com 34 anos, eu entrei na Alpargatas como costureira. Trabalhei lá 14 anos. Depois fui para a Sigra, onde me aposentei. Voltei para a roça e hoje sou uma pequena produtora. Tenho uma plantação de pés de amora. Tudo que vem da amora é gostoso e é rentável também.

O bairro aqui era superanimado. A gente levava o leite lá no posto num carrinho de cabrito. Não tinha ônibus. A gente ia de charrete pra cidade com meu pai. Depois, o transporte era caminhão. Aqui, sempre tinha circo, jogos de futebol. Meu pai deixava a gente ir, mas tinha horário para chegar em casa, às 8h30 da noite. Meu pai era muito enérgico, tinha que ser no cabresto curto.

Um fato que marcou minha juventude foi um show da dupla Liu e Léu em Pouso Alegre. nós aprontamos para ir, mas meu pai não deixou.

Com 64 anos, tomei a decisão de tirar minha carteira de motorista. Levei nove reprovas, mas consegui. Apesar de ter um pouco de insegurança para dirigir, estou muito feliz.

Não quis me casar. Queria casar para melhorar de vida, mas na altura que eu queria, não encontrei. Acostumei a viver sozinha. Para mim, está ótimo. Faço o que quero. Tenho total liberdade, apesar que nunca passei dos limites.”

AÍDA: “Aqui é o paraíso”

“Minha infância foi de menina pobre da roça. Brincava de peteca, de corda, de subir nas árvores. A gente morou com minha tia em Pouso Alegre para estudar. Vinha pra roça todo fim de semana, e meu pai levava a gente de volta no domingo à tarde de charrete.

Sempre fui meio revoltada. eu queria uma vida de rico. saí de casa com 27 anos. Morei em Campinas um mês. Voltei, mas não acostumava mais. Aqui, não tinha água gelada, luz elétrica; tinha acostumado com tudo isso na cidade.

Trabalhei no hospital regional de Pouso Alegre durante quatro anos. Depois, fui para são Paulo, trabalhei de doméstica um ano e meio. Depois entrei nas Lojas Americanas em São José dos Campos, onde fiquei 21 anos.

Faltava três anos para me aposentar, me mandaram embora e vim cuidar de meus tios.

Cuidei deles até falecerem. Continuei pagando o INSS até me aposentar.

Não tolero mais morar na cidade. Aqui é o paraíso. Frequento um grupo de terceira idade em Pouso Alegre e faço ioga também. Foi a coisa melhor que fiz na minha vida. Frequentamos, eu e meus irmãos, o Grupo Espírita Amor e humildade. Faço caminhada. Cuido da minha alimentação. Evito fritura, comer na gordura de porco, uso só óleo.

Sou feliz do meu jeito, gosto da minha vida, mas sinto que falta alguma coisa. Não é casamento. Quero é mais conforto.”

ADAIR: “A minha boneca era uma abóbora”

“A Infância era pobre. A minha boneca era uma abóbora, que eu carregava igual a um bebê. Fazia sandália de taboa. Eu tinha tantos sonhos. Brincava com minhas sobrinhas, pois minhas irmãs já eram grandes. Estudei até o terceiro ano aqui, depois fui estudar no Pantano.

Com 24 anos, entrei na Alpargatas, onde trabalhei 17 anos. Em 91, na época do Collor, demitiram um monte de gente da firma. Voltei para cá. Estudei no projeto Acertando o Passo [equivalente ao ensino fundamental] no Pantano. Depois, fiz o Caminhando com a Cidadania, em Pouso Alegre, concluindo assim o ensino médio. Ainda pretendo estudar mais: ser advogada.

Assim que saí da Alpargatas comecei a plantar morango e estou até hoje. Tenho 26 mil pés plantados. O retorno financeiro é rápido.

Sou feliz aqui, mas gostaria de ter mais coisa, ter mais tecnologia, estudar…”

ATAÍDE: “Eu nunca saí de casa”

“Nasci aqui. Estudei na escolinha do bairro; depois, fomos estudar na escola do Pantano.

Íamos a pé. A gente gostava de madrugar para dar tempo de brincar lá antes da aula. Meio-dia e meio, uma hora, a gente chegava aqui para almoçar.

Naquela época, o meu pai tinha criação de porcos soltos na várzea. A gente ia vigiar os porcos. Teve até uma vez que a gente teve que estudar à noite para ajudar meu pai.

A gente gostava de brincar de trole. A gente convidava os colegas e saía nos pastos, nos morros, para brincar. Gostava de montar em boi.

Meu pai vendia lenha na cidade. Ele ia de carroça puxada por burros. Eu fui um dos últimos filhos que foi com ele. Depois que saiu o asfalto, ele achou que estava ficando perigoso e ficou só cuidando aqui da roça.

Desde pequeno, eu saía com meu irmão para carrear. Deixava os carros de milho carregado e levava no bairro Algodão até a beira da rodovia.

Eu nunca saí de casa. Sempre fiquei ao lado de meu pai. Meu primo sempre me convidou para trabalhar na cidade, mas nunca quis.

Ajudo minha irmã a cuidar da plantação de morango e o meu irmão Atair a tirar leite. Sou feliz aqui.”

ATAIR: “A terra é meu sustento”

“Sou o caçula dos irmãos. A infância foi difícil, trabalhando desde pequeno. Comecei na escolinha aqui, depois fui estudar no Pantano.

Sempre tive uma visão diferente dos meus irmãos. Não gosto de andar para trás, gosto de ter êxito no que faço.

Trabalhei fora três anos na Alpargatas. Vi que não compensava e voltei. Adquiri a melhoria aqui, a energia elétrica, consegui comprar um microtrator, melhorei o gado, melhorei as terras, incentivei minha irmã e meus sobrinhos a plantar morango.

Hoje, produzimos também milho e feijão. Antes, a gente plantava em terra de terceiros.

Gosto de frequentar exposições agrícolas, participar de desfile de cavaleiros e gosto de assistir futebol.

A terra é meu sustento, a minha sobrevivência. não tenho vontade nenhuma de sair daqui.”

Irmãos Munhoz: Anésia, 73 anos, Aída, 72, Adair, 59, Ataíde, 57, e Atair, 55. Entrevista realizada no sítio Santa Adélia, localizado na zona rural do Pantano São José, em outubro de 2011. Anália, que vive em São José dos Campos (SP) e é casada, visitava os irmãos no dia das entrevistas