Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Joaquim e Mariana – Na alegria e na tristeza há setenta anos

DONA MARIANA: lembranças da infância e da juventude

“Nasci na fazenda Água Limpa, município de Borda da Mata [MG], em 22 de julho de 1922. Meu nome é Mariana Coutinho de Oliveira e meus pais eram João Pereira Coutinho e Balbina Rezende Coutinho. Éramos sete irmãos e todos fomos criados na fazenda. Eu sou a penúltima filha.

Lá na fazenda, tinha lavoura de arroz, feijão, milho, abóbora e chegou a ter até uma fábrica de queijo, mas depois acabou e passou a fazer queijo só pra despesa da casa.

Da fazenda até Pouso Alegre, dava uma distância de três léguas [18 quilômetros]. Não era longe, mas a condução era difícil. Quando precisava de alguma coisa da cidade, tinha que pegar o cavalo ou a charrete e ir até a estação da Imbuia e pegar o trem.

Mais tarde, meu pai conseguiu uma parada de trem dentro da fazenda, mas não tinha estação, não tinha nada. Quando o trem passava na fazenda, ele ia mais devagar, e aí a gente conseguia subir e descer.

Esse trem vinha de Itajubá e ia pra Sapucaí, lugarejo próximo a Jacutinga.

Pra ir pra escola eu morei com o meu irmão numa outra fazenda do meu pai. Nessa fazenda, tinha uma escolinha. Fiz até o quarto ano primário lá. Depois, quando nós mudamos pra Pouso Alegre, eu já tava moça e fiquei com vergonha de entrar na escola, porque eu ia ter que repetir o primário. Olha como que eu fui boba!”

A Revolução de 1932

“Em 1932, eu tinha dez anos, e estourou a Revolução [Revolução Constitucionalista]. Então meu pai mandou a gente pra casa de um colono da fazenda que ficava no alto da serra, porque ele ficou com medo que a guerra chegasse lá na sede.

De lá da casa desse colono, a gente via os pousoalegrenses lutando contra os paulistas, as balas trançando no ar e o avião passando bem baixinho. Não tive medo da guerra. Como eu era criança, foi uma distração ver aquele movimento.

Na fazenda, ficou só meu pai, um irmão e um empregado.

Um dia, chegou lá um vagão cheio de paulistas feridos e com fome. Eles foram pedir socorro pro meu pai. E como na fazenda tinha muito queijo e banana, meu pai mandou que servissem eles. Entre os feridos, tinha um soldado quase morto, e meu pai pediu que os levassem até Borda da Mata no carro de boi com mais outros cinco feridos, porque de lá eles podiam seguir viagem até o estado de São Paulo.”

A cidade

“Fiquei na fazenda até os meus vinte anos e aí mudamos para Pouso Alegre. Meu pai desgostou da fazenda quando meu irmão morreu picado por cobra. Em 1943, chegamos em Pouso Alegre e meu pai comprou a casa, onde hoje mora a minha irmã Filomena, na Rua Aristotelina Pires. Ali, era uma chácara.

Conheci o Joaquim na farmácia onde ele trabalhava. Eu fui levar um sobrinho meu pra tomar injeção e conheci ele. Aí, passado uns três dias, eu voltei na farmácia pra pegar remédio pra esse sobrinho, e o Joaquim me convidou pra ir no cinema. E assim começamos a namorar. Meu pai implicou um pouco com o namoro, mas depois que ele conheceu o Joaquim, ele amaciou.

Quando nós casamos, em 1948, fomos morar no Sertãozinho [distrito de Borda da Mata] e montamos farmácia lá. nessa época, nasceu o Flávio. Eu já tinha a Marilena e o João e eles eram muito levados. Então o Joaquim passou num sítio de uns conhecidos dele ali na Serrinha, perto do Sertãozinho, e pediu pro casal uma das filhas pra fazer companhia pra mim e me ajudar com as crianças.

Essa menina é a Dita, que veio pra ficar 15 dias e está comigo já tem 56 anos. Hoje, ela está com 75 anos e por causa de complicações na prótese que ela colocou no fêmur, não anda mais. Ela vive aqui em casa e é uma irmã que eu tenho.

Depois de seis meses lá no Sertãozinho, nosso amigo Machado Garcia indicou o meu marido para tomar conta de uma farmácia lá em Areado [cidade próxima a Alfenas, ambas localizadas em Minas Gerais].

Uma vez, meu pai foi nos visitar e achou longe demais, tinha que tomar quatro conduções pra chegar lá. Então ele pediu pro Joaquim não renovar o contrato e voltar pra Pouso Alegre, porque ele sentia muito a nossa falta.

Então viemos embora e, passado 14 dias, meu pai morreu. Parece que ele estava adivinhando que ia logo embora. Quando nós voltamos para Pouso Alegre, fomos morar com a minha mãe e a minha irmã Filomena.

Dali, nós fomos para Tocos do Mogi [na época, distrito de Borda da Mata], fomos pro Sertãozinho de novo e, depois, montamos a farmácia ali na praça da Catedral. Ele ficou 16 anos lá. Resolveu vender a farmácia e foi trabalhar com o Tiãozinho da Farmácia São Francisco. lá, ele se aposentou depois de 52 anos de serviço.”

SEU JOAQUIM: muita história para rememorar

“Meu nome é Joaquim Gomes de Oliveira, nasci em Silvianópolis [MG] em 1920. Mudei pra Pouso Alegre em 1938. Vim sozinho pra cá, a minha família ficou em Senador José Bento. Meu pai trabalhava com café e bicho-da-seda. Como eu tinha duas tias que moravam aqui, resolvi morar em Pouso Alegre. A minha tia Maria Francisca era funcionária do Hospital Regional e me chamou pra trabalhar lá. Então eu vim e morei no Hospital mesmo. Nós dois tínhamos a mesma função, mas eram enfermarias separadas.

Fiquei lá três anos e fui trabalhar na Farmácia Queiroz, com o Senhor Olavo, um homem muito educado e uma pessoa maravilhosa. Trabalhei com ele cinco anos.

Aí resolvi ir pra São Paulo, mas fiquei pouco tempo, tive muita preocupação com os meus pais, que já eram velhinhos. Então voltei logo e fui trabalhar na Drogaria Pouso Alegre, que era do Senhor Alberto dos Anjos e do Ataliba Coutinho. Lá fiquei cinco anos.

Estudei até o quarto ano primário. Mais tarde, eu, o Milton Reis, o Benedito Lopes, o Alaor de Barros Cobra e mais outros colegas fundamos a Escola de Comércio. A ideia de criar a escola foi do Monsenhor Mendonça.

Estudei três anos lá, mas a escola não era reconhecida pelo MEC. E quando foi reconhecida, eu tive que começar novamente. Fiquei lá pouco tempo e logo desisti. A escola funcionou uns tempos num prédio velho da Sociedade Italiana na Rua Afonso Pena. Depois, tivemos que entregar o prédio para os italianos. Aí fomos pro outro prédio, ao lado do Palácio do Bispo, e depois fomos pro Colégio São José.”

“A revolução de brasileiro contra brasileiro”

“Quando estourou a Revolução de 1932, eu estava morando em Senador José Bento [MG]. Lá, nós não sentimos os efeitos da guerra. A gente via só o movimento dos aviões. Foi a maior estupidez do mundo essa guerra. Foi a revolução de brasileiro contra brasileiro. O sargento Dutra, daqui de Pouso Alegre, era meu amigo e eu soube que ele ordenou a um cabo do seu regimento que atirasse com o canhão no trem que estava vindo com os paulistas. Esse regimento estava posicionado onde hoje é a caixa d’água da Copasa no bairro São João. o cabo se recusou a atirar nos seus irmãos, mesmo ameaçado de crime de guerra; no entanto, o sargento também não teve coragem e desviou a mira do canhão para outra direção.

Isso foi segredo até há pouco tempo, mas, agora, como todos já morreram, não é segredo mais.”

Diversão nas terras do Mandu

“Pouso Alegre, nessa época, era uma cidade bem pequena, com poucas casas. Só existia o centro, a Rua Comendador José Garcia, a Silviano Brandão e a praça da Catedral, que tinha uma cascata de pedra muito bonita. As ruas e a praça não eram calçadas, mas quando o prefeito Tuany Toledo assumiu a cidade, ele calçou tudo.

O Mercadão era um barracão velho sem divisória nenhuma e lá vendia todo tipo de cereais. O pessoal da zona rural vinha trazer suas mercadorias para vender ali naquele barracão. Então tinha um grande movimento de carro de boi e charrete. os cavalos ficavam amarrados atrás do Mercadão, onde hoje ficam os camelôs.

A nossa distração, naquela época, era o Mercadão, a igreja e o cinema do Sr. Licínio Rios, um homem bravo toda a vida. As quermesses do Bom Jesus eram animadas. A praça ficava cheia de barraquinhas. Vinha muita gente participar, porque a Catedral era a igreja-mãe de toda a Diocese. Hoje, Pouso Alegre está dividida em várias paróquias, então espalhou o povo e você não vê mais tanta gente nas festividades.

A enchente do Aterrado também era outra distração nossa. Na época da chuva, a enchente era maior do que as de hoje. Depois que desviou o rio, diminuiu a enchente. Mas, naquela época, a gente ia ver a enchente e andar de canoa.

Outro lazer, também, era viajar de trem. Eu e meus colegas da Escola de Comércio íamos todo sábado ou domingo à tardezinha pra Santa Rita do Sapucaí. A gente chegava lá, tomava uns goles e voltava tudo bêbado.

Uma vez, a gente estava voltando e viemos cantando, aí o chefe do trem chamou nossa atenção. Foi quando o Benedito Lopes, conhecido como Benê, declamou pro guarda: ‘parabéns, meu grande chefe, homem bom e trabalhador, que, com suas palavras, fez calar os cantador’. Aí todos no trem aplaudiram e o chefe ficou sem jeito. Ele disse para os outros guardas deixar pra lá, porque com aquela turma não tinha jeito não.

Num baile em Santa Rita, o Zé Loyola arrumou uma namorada. Ele era um sujeito de uma linha impecável, vaidoso. Quando ele não estava de terno de casimira, era terno de linho, gravata, sapato brilhando. Enquanto ele dançava com essa moça, ela perguntou de onde ele era. Ele disse que era do Rio de Janeiro e que estava em Pouso Alegre fazendo estágio no quartel e que era tenente.

Quando chegou segunda-feira, vieram três moças de Santa Rita pra cá e uma delas era a namorada do Zé. Elas desceram na estação de trem, subiram a avenida e viram o Zé Loyola fazer a barba de um cliente do seu salão em frente o Bar Recreio. Aí ela olhou bem pra ele e disse: ‘bom dia, tenente!’. Ele queria morrer de vergonha. Pouso Alegre tinha muita coisa boa.”

Rabo Verde

“Quem deixou história pra contar também foi o Rabo Verde, que, antes de adoecer, era um dos homens mais elegantes da cidade. Ele tinha uma irmã que também ficou perturbada como ele.

Segundo parentes deles, que eram amigos meus e da Mariana, o pai ficou viúvo e se casou novamente. A madrasta expulsou os dois irmãos de casa e eles foram morar na rua. o Rabo Verde era um coitado. A molecada provocava ele demais e ele ficava nervoso. Uma vez, tinha três moleques mexendo com ele, e o Geraldo Cunha, ainda novinho, saiu em defesa dele. E eu cheguei na hora ali e ajudei a espalhar com aquela molecada.

Tem uma passagem dele muito engraçada. Ele foi numa casa ali atrás do Santuário que tinha muito chuchu na horta e falou: ‘oh, Sá Dona, dá um chuchu pra mim?’. E ela então disse que ele podia pegar à vontade. E foi assim que ele fez. Encheu o saco de chuchu e pôs nas costas, foi até o fim da Silviano Brandão vendendo o chuchu. E voltou naquela mesma casa e ofereceu a mercadoria para a dona da casa. Então ela disse que não queria, porque tinha muito chuchu na horta dela, e ele respondeu: ‘Tinha!’.

Rabo Verde deixou saudades.”

Um pouco da política

“Na década de 40, quando eu trabalhava na Farmácia Queiroz, o prefeito aqui era o Tuany Toledo, um homem trabalhador que amava essa cidade. Nessa época, Congonhal e Senador José Bento eram distritos de Pouso Alegre. E ele saía daqui a cavalo e ia pra esses distritos e ficava por lá vários dias a serviço. Ele foi prefeito durante 15 anos.

Eu fui vereador de Pouso Alegre de 1966 a 1970, na gestão do Jorge Andere, um ótimo prefeito. Faço parte da Associação São Vicente de Paulo, uma sociedade beneficente que presta serviço aos idosos. os fundadores dessa Associação foram o Tuany Toledo e o Monsenhor Mendonça.

Sempre gostei de participar da política, da sociedade, dos movimentos da igreja e de encontrar os amigos na praça da Catedral, mas agora estou com um problema na perna e não posso sair muito. Então fico em casa lendo, que é outra coisa que eu gosto muito de fazer.

Me distraio muito também com a Larissa, uma menininha de cinco anos, filha da Sheila, nossa secretária. A Sheila é o nosso braço, a nossa perna e os nossos olhos e a estimamos como se fosse uma filha. Quando a Larissa chega da escola, ela quer brincar de escolinha; então, a Mariana, eu e a Dita somos os alunos dela. Ela é exigente, toma a lição e ai de nós se tiver errado.

E assim vai passando o dia.”

Mariana Coutinho de Oliveira, 87 anos, e Joaquim Gomes de Oliveira, 89 anos, residem no centro de Pouso Alegre, onde concederam essas entrevistas em abril de 2010