Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Martha Toledo – “Sou da educação por amor”

“Nasci em Congonhal e com seis meses vim para Pouso Alegre. Minha mãe era professora lá e veio transferida para a Escola Monsenhor José Paulino, de Pouso Alegre, onde se aposentou.

Estudei no Colégio Santa Doroteia, onde fiz do primário ao Magistério. Minha irmã e minha mãe também estudaram lá, sendo que minha mãe foi até interna.

Depois de formada, comecei a lecionar como contratada no Monsenhor José Paulino. Depois, fiz concurso, fui nomeada e fui lecionar no Presidente Bernardes. Fiz o curso de Administração Escolar no Instituto de Educação de Belo Horizonte, onde fiquei dois anos e, depois, o curso de Pedagogia na Faculdade de Três Corações.”

Vinicius Meyer, a primeira diretora

“Assim que retornei de Belo Horizonte, lecionei para professoras que iam tentar o concurso público. As que foram minhas alunas passaram nos primeiros lugares.

Logo que aqui retornei, fui nomeada para ser a primeira diretora do Vinicius Meyer. As primeiras classificadas no concurso a que me referi anteriormente foram chamadas para dar aula lá.

Lembro-me bem dessa época. Algumas vezes íamos para a escola de charrete, outras vezes íamos a pé. não havia calçamento nas ruas do bairro São Geraldo, onde está localizada a escola.

Eu abria a escola para as mulheres da comunidade do São Geraldo tomarem sopa. Havia muitas grávidas. Eu pensava assim: ‘As crianças que irão nascer serão alunas desta escola’.

O povo era muito caridoso. Recebíamos bastante doação para a merenda. Fazíamos muitas festas, como a Rainha da Primavera.

O primeiro prédio da escola era do pai da Fatinha Costa [pai também de Maria das Dores Costa (Santa), entrevistada deste livro]. Eu gostava muito desta família. lembro-me que na casa deles tinha um papagaio. Um dia, eu cheguei lá e o papagaio disse: ‘Dona Martha! Dona Martha!’ Ele ouvia as crianças me chamando e aprendeu também.”

Outras escolas

“Fiz concurso para a Escola Dr. José Marques de oliveira, onde lecionei Psicologia para alunas do curso normal. lá também fui vice-diretora durante vinte anos.

Fui também professora no Colégio Santa Doroteia. naquela época, era difícil professora com registro. lecionei também no antigo Cnec [Campanha nacional de Escolas da Comunidade]. Sempre lecionava à noite para os cursos de Magistério em paralelo com os outros cargos que ocupei em várias escolas do município.

Lecionei também no Presidente Bernardes, na quarta série. lembro-me que fazia festinha na entrega dos diplomas dos alunos. E assim fui subindo na carreira.”

Inspetora

“Fui convidada para ser inspetora escolar e comecei a trabalhar. Depois, fiz o concurso para inspeção e passei em primeiro lugar. Eu era inspetora em Pouso Alegre, que, nessa época, pertencia à jurisdição da Delegacia de Ensino de Itajubá. Era como se eu fosse uma delegada de ensino, pois quase tudo que se decidia na cidade em relação às escolas estaduais, perguntavam para mim. Acostumaram tanto que, até hoje, mesmo aposentada, as pessoas vêm atrás de mim para arrumar vagas em escolas, tirar dúvidas, ouvir minha opinião sobre vários assuntos educacionais.

Sou da educação por amor. A educação é essencialmente uma obra do amor.”

Bons tempos

“Tenho muitas lembranças e saudades do meu tempo de professora. os alunos eram muito bons, gostavam e respeitavam muito as professoras. Hoje, a realidade é outra.

Esta semana eu achei um caderno de planos de aula do tempo que lecionava no Monsenhor, da época que Dona Cleonice Caldas era a inspetora. Senti saudades desses tempos.

Nessa época, a mamãe também lecionava lá. Ela foi uma boa mãe não só para nós, seus filhos, como também para os alunos.

Eu gostava muito de cantar e ensinava meus alunos também. Tinha o clube de leitura chamado Rui Barbosa, que tinha como objetivo desenvolver  nos alunos o gosto pela leitura. Tinha um hino, cuja música foi escrita por mim e por minha mãe, que a gente cantava. Isso foi no começo da carreira. Minha mãe me ajudava muito.

Veja a letra:

Rui Barbosa, Rui Barbosa,
Teu nome é uma glória
O Brasil te considera
Um grande vulto da história.
O teu nome está gravado
Bem no nosso coração
Com orgulho, te chamamos
Defensor da abolição.”

Delegada de ensino

“Eu fui delegada de ensino em Pouso Alegre de 1991 a 1998. Fui indicada pelo meu irmão, Simão Pedro de Toledo, que, naquela época, era deputado estadual. Ele foi duas vezes deputado. Ele também foi prefeito de Pouso Alegre durante dez anos, divididos em dois mandatos.

Grande parte das professoras de Pouso Alegre havia sido minhas alunas, então já me conheciam. Foi um período muito rico e de grandes realizações.

Um dos projetos que mais me marcaram foi a Semana literária, criada na minha gestão.

A Semana literária consistia em um concurso literário envolvendo todas as escolas dos 29 municípios da Regional de Ensino. Trabalhamos vários temas: Violência contra a mulher; Idoso, uma lição de vida; Ser mineiro; entre outros. Os melhores textos de cada edição eram encenados no palco do Teatro Municipal de Pouso Alegre e publicados em um livro. Vários concursos literários criados nas escolas depois foram inspirados na nossa Semana Literária.”

Tuany Toledo, o pai

“Era bravo e enérgico, mas muito carinhoso. E muito inteligente também. Foi farmacêutico. Teve farmácia durante trinta anos em Congonhal, MG. Gostava de escrever. Escreveu vários artigos em jornais de Pouso Alegre. Escrevia muito bem. Foi aluno do professor Joaquim Queirós.

O papai foi um homem de sorte. Foi vereador durante quatro legislaturas em Congonhal.

Depois, foi prefeito de Pouso Alegre. Dentre as obras que deixou está o Parque municipal. Foi gerente de banco também.

Depois que ele faleceu, publicamos um livro com textos dele. Não deu tempo dele mesmo publicar o livro em vida. e nós, filhos, prestamos esta justa homenagem. Além da avenida da Univas, o museu da cidade leva o nome dele.

Tenho saudades também do meu irmão Simão Pedro Toledo, que foi um grande prefeito de Pouso Alegre. Foi ele que trouxe a industrialização para o município. ele foi deputado estadual também. Quando faleceu, trabalhava no tribunal de Contas de minas gerais.”

Martha Hermelinda Toledo, reside no centro de Pouso Alegre, onde concedeu essa entrevista em setembro de 2011