Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Santa – São Geraldo: seu lugar, sua história

“Eu nasci na zona rural, no bairro das Palmeiras, e estudei lá. A escola era longe de casa. Andava uma hora pra chegar lá, passava pela estrada, pelo campo, atravessava no meio do gado. Estudei lá dois anos e, em 1943, nós mudamos pra cidade. Fiz a terceira e quarta séries aqui. Viemos morar no bairro São Geraldo – só que não era esta casa – e fui estudar no Monsenhor José Paulino de 1944 a 1945.

Em 1943, as ruas do bairro eram de terra, as casas eram dentro da rua. E essas ruas eram bem estreitinhas. naquela época, podia contar as casas.

Para ir pra escola, tinha que passar debaixo da ponte, mas o rio não era ali ainda. A gente encontrava com vaca brava. Aí a gente tinha que correr e esconder dentro das manilhas. E quantas vezes a vaca bufou na manilha tentando pegar a gente. Passamos muitas dificuldades pra estudar. Quando chovia, fazia aquele barro.

Aí o Dr. Rosa calçou o bairro na primeira gestão dele [João Batista Rosa, prefeito de Pouso Alegre por duas gestões: 1977-1982 e 1993-1996] e afastou as casas, indenizou todo mundo e as ruas ficaram mais largas.”

O pai

“A fecularia do meu pai era aqui mesmo nesse terreno. Tinha as pessoas que torravam a farinha, o lugar de curtir e de limpar o milho. As pessoas vinham comprar a farinha aqui e ele vendia na cidade também. Aí acabou a fecularia e ele colocou marcenaria e os meus irmãos já adultos trabalhavam com ele.

Em 1954, meu pai foi trabalhar na Prefeitura de Pouso Alegre como fiscal de rua e depois foi trabalhar no mercado. Ele abria e fechava o mercado – e era o Mercadão antigo ainda. Foi na administração do prefeito Antonio Duarte Ribeiro [eleito vice-prefeito em 1967, tomou posse como prefeito em 1969, em virtude da cassação de Jorge Antônio Andere. Ribeiro exerceu o mandato até o final de 1971] que foi reformado o mercado.”

Santa, professora

“Aqui no bairro, tinha a escola da Dona Maria Dutra, mas aí ela se mudou pro Rio e acabou a escola. Então ficamos sem escola aqui no bairro e, durante muitos anos, ficou sem aula. O  prefeito, nessa época, era o Dr. Miranda [o médico Custódio Ribeiro de Miranda, fundador do Hospital das Clínicas Samuel Libânio, foi prefeito de Pouso Alegre de 1951 a 1956] e ele criou uma escola aqui no São Geraldo.

A escola ficava entre a minha casa e a fecularia do meu pai. Passei a dar aulas nessa escola. Isso foi em 1951. Eu não fiz o curso de Magistério, mas tinha vários cursos de férias, inclusive, em 1954, fui para Belo Horizonte na Fazenda Rosário e fiquei quatro meses lá estudando. Fui fazer o Magistério quando já estava trabalhando na Prefeitura.

Eu dava aula para o primeiro, o segundo e o terceiro anos. E era tudo junto, numa sala só. Como era muita criança, o senhor Joaquim Carvalho, que era o inspetor da época, resolveu dividir as turmas. Aí passei a dar aulas só pro primeiro ano, pois era mais difícil, e o segundo e o terceiro continuaram juntos.”

A fundação da Escola Vinicius Meyer

“Em 1961, meu pai construiu essa casa aqui e vieram o Cônego Aurélio e o prefeito Jorge Andere pedir para o meu pai arrumar a outra casa que nós morávamos pra montar a escola Vinicius Meyer. Meu pai alugou a casa para eles e a primeira diretora foi a Martha Toledo. As professoras eram a Terezinha Barroso, a Ivaneide Fonseca, Marisa Castro, a Tuca (Marialba) e a Nedir Duarte.

Nessa época, eu dava aula na escola do bairro Chapadão e no São João. Quando chegou na década de 1970, a Dail Carvalho, coordenadora das escolas da prefeitura, falou para o prefeito que não estava certo pagar o aluguel da casa para meu pai e eu não dar aula lá. Então, o Jorge Andere arrumou uma sala pra eu dar aula. Era um direito que eu tinha, pois meu pai cedeu a casa e eu já dava aula antes no Vinicius. Então, passei a ser professora da escola.

Em 1976, fui trabalhar na Secretaria de Educação a pedido da Dona Lourdes Andere.

Ela era coordenadora das escolas municipais. Enquanto trabalhei lá, passei por vários prefeitos, como Jair Siqueira, Simão Pedro, Jorge Andere, João Batista Rosa, e por várias secretárias também. Em 1995, eu me aposentei.

Hoje, eu não gostaria de dar aula, não. Do jeito que falam como são as crianças hoje, de jeito nenhum. Na época em que eu era professora, nós tínhamos apoio dos pais e havia mais respeito com as pessoas.”

Trabalho voluntário no bairro

“O bairro São Geraldo cresceu muito. Parece que tem trinta mil habitantes e tem gente de todo jeito. Tem muita gente de fora. Hoje, eu quase não conheço mais ninguém daqui, muitos dos antigos moradores já faleceram ou se mudaram.

Aqui, como em todo lugar, tem gente boa e gente ruim. Nós nunca tivemos problema com ninguém aqui e nunca fomos roubados.

Nós temos aqui a Igreja, as escolas, o CIEM [Centro Integrado de Ensino Municipal], a Policlínica e o Clube do Menor. Aqui tem um trabalho muito bonito que o padre Mário Zappa faz de recuperação de drogados e vem muita gente do centro da cidade ajudar aqui. O padre criou um Centro de Assistência aqui no bairro, ali onde era o mosteiro antigo. Antes, era um lugar horrível, uma vila com gente paupérrima mesmo. Ele tirou essas pessoas de lá e levou pra Vila São Vicente. E ali ele foi melhorando… E hoje até refeição tem ali para as pessoas carentes. Eu e minhas irmãs já trabalhamos voluntariamente durante dez anos nesse centro, ajudando a fazer a comida. Era uma média de quatrocentos a quinhentos pratos servidos por dia para as pessoas carentes.

No início desse projeto, era só a minha família que ajudava, mas depois conseguimos umas quatro ou cinco pessoas que passaram a ajudar também. E aí, cada domingo, era uma equipe que trabalhava.

Com o tempo, fomos deixando de ajudar, pois tive um problema no braço e não podia ficar mexendo muito; e as minhas irmãs também foram deixando por vários outros problemas.

Hoje, eu ajudo na igreja, ajudo na liturgia e nos movimentos da Mãe Rainha. Eu sou coordenadora do Ciclo Bíblico e participo bastante de todos os eventos da igreja.”

Maria das Dores Costa, conhecida por Santa, 77 anos, mora no bairro São Geraldo, em Pouso Alegre, onde concedeu essa entrevista em outubro de 2011