Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Seu João – O Mercadão como segunda casa

“Nasci no bairro das Anhumas e morei lá até a idade de dez anos. Não fui pra escola. Aprendi a escrever com um amigo do meu pai. Ele sempre dava uma mãozinha pra mim na parte da tarde, depois que eu já tinha feito minhas obrigação.

Perdi meu pai com cinco anos e fui trabalhar com os boi no arado. Trazia frango pra vender na cidade e desde pequeno montava em cavalo bravo. Tinha que fazer isso tudo pra poder comer. Era só eu e meu irmão mais novo. Depois, trabalhei plantando arroz pros fazendeiro daqui.”

Vida de muito trabalho

“Com 15 anos, eu fui pra São Paulo morar com meu irmão por parte de pai e levei minha mãe comigo. Lá, eu fui engraxate, trabalhei na construção de poço artesiano nas vila da cidade. Fiz muito poço aqui em Pouso Alegre também. O poço do hospital e do Chiquinho de Freitas fui eu que fiz. Era tudo na mão e eu não tinha medo. Ia cavando e abrindo aqueles buraco bem fundo e depois ia calçando de baixo até em riba.

Nessa época, em São Paulo, eu trabalhei com os bombeiro resgatando corpo no rio Tietê. Todo dia tinha gente pra tirar da água. Eu nadava muito bem e por isso eles me chamava pra mergulhar e procurar gente afogada.

Nessa época, eu vinha muito pra Pouso Alegre pra passear e acabei conhecendo minha primeira esposa e tive um filho com ela. Ele morreu lá em São Paulo com 39 anos de idade.

Eu era motorista da CMTC [Companhia Municipal de Transportes Coletivos]. Minha esposa era muito doente. Ela tinha ataque e morreu jovem. Quem me ajudou a criar esse filho foi minha cunhada. Depois de dois anos de viúvo, casei de novo. Fiquei viúvo outra vez, depois de muitos anos de casado. Com essa esposa tive dois filhos que morreram também.

Meu sogro era de Silvianópolis e tinha circo aqui na Silviano Brandão. Eu montava naqueles cavalo bravo, nossa! E dava cada pulo. Tenho um tanto de osso quebrado de tanto cair dos cavalo.

Aprendi a tocar sanfona, cavaquinho, pandeiro e violão. Sou curador espiritual também e chefe de terreiro de umbanda. Desse 150 homem daqui do mercado, não tem um que não passou no meu benzimento. Curo rendidura, cobreiro, engasgado e o que vier eu dou um jeito. Meu benzimento é só de doença.”

O início no mercado

“Eu tinha um galinheiro lá no fundo do mercado e vendia frango caipira. Aí começou a entrar os frango de granja e eu precisei parar, porque o de granja era bem mais barato. Aí comecei a fazer pastel de farinha de milho junto com minha segunda esposa. Trabaiamo muito fritando pastel aqui.

Quando eu comecei aqui no mercado, e isso já tem 45 ano, ele era um barracão feio e só tinha uma porta. Essa escada que sai na praça não existia. o mercado vinha até aqui na escada só. Tinha banca de arroz, feijão, verdura e açougue e tinha muito peixe também. Aquilo tinha um cheiro forte demais.

Comprei aqui baratinho e não vendo por preço nenhum. Já me ofereceram até cem mil. Nessa banquinha, vendemo muita leitoa assada. Comprava no matadouro e trazia pra assar aqui e vender. Coitadinha da minha muié, ajudou eu muito.

Depois que reformou o mercado, o movimento melhorou muito. Aqui, nós somos uma família. Esses companheiro aqui já têm quarenta e até cinquenta ano que tão aqui.

Chego aqui às nove e já vou fazer a massa do pastel. Tem dia que não vende quase nada, não tem movimento. Fecho aqui às seis e vou pra casa.

Nesses 45 ano aqui, nunca recebi reclamação de nada, nem de freguês e nem dos vizinho de banca. Adoro isso tudo aqui, trabaio com alegria e prazer.

Tenho que trabaiá bastante e fazer muito pastel, porque pago duzentos e cinquenta reais de imposto todo mês pra prefeitura e mais cem reais de água e luz. Aqui, o preço varia conforme o tamanho da banca.

Hoje, vivo com minha aposentaria. Recebo também um salário do meu filho que morreu, pois ele não tinha herdeiro e era registrado no serviço dele.

Continuo trabalhando, isso aqui é meu sonho, minha vida e minha alegria. Aqui é minha segunda casa. Gosto demais de trabalhar aqui. Se eu tô nervoso com alguma coisa, chego aqui desaparece tudo.”

João Pereira Freitas, 79 anos, mora no Jardim Noronha, em Pouso Alegre. Entrevista concedida em setembro de 2011, no Mercado Municipal