Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Seu Zezito – Recordações de uma pequena Pouso Alegre

“Eu nasci na Borda da Mata. E lá meu avô separou da minha vó e nós viemos morar no bairro dos Farias. Eu tinha três ano de idade. E foi ali que a gente criou. Meu pai tinha uma família muito grande, era dez irmão.

Desde a idade de dez ano eu trabaio, fui carreiro. Comecei a carrear com doze ano, arei muita terra pra ganhar dinheiro. Fui roceiro, retireiro, puxador de leite. Vendi muito leite na rua aí a duzentos réis o litro. Depois, vendi muito carro de lenha. Eu trazia a lenha da roça pra vender aqui na cidade. Naquela época, não tinha gás e Pouso Alegre era um pedacinho só. Não tinha esse bairro [São João]… tudo que tem hoje não.

Os primeiro que começou a vender gás aqui foi o Josias da Mota e o Chico Faria. Aí acabou os carro de lenha, todo mundo já tinha seu fogãozinho. Mas nessas estrada aqui era cheio de carro de lenha. Dos Faria até aqui era uma légua e meia e gastava uma hora e meia pra chegar na cidade. Naquela época, quem tinha um capão de mato derrubava tudo pra vender a lenha. Hoje não pode mais, né?”

A evolução do bairro

“Aqui era pequenininho, não tinha nada aqui. Era dali daquele campinho pra baixo só. Era poucas família que tinha. Tinha uma vendinha só aqui no São João e, por isso, ficou por nome de Vendinha. Ali, no começo do bairro, era um calipá [plantação de eucaliptos] e foi o começo do bairro.

No começo, aqui era só um trilhinho pro povo passar. Não tinha água e a luz era da Prefeitura, não era da Cemig. Os morador tinha cisterna em casa. Eu fui um dos primeiro a morar aqui e comecei com um bar naquela esquina lá embaixo.

Tem duas pessoa que ajudou muito aqui no bairro: o Simão Pedro Toledo [prefeito de Pouso Alegre, gestões 1973-1976 e 1983-1988] e a Irmã Ester. Foi ela que construiu essa creche aí, pras muié pobre deixar as criança aí e trabaiá, né?

O Simão Pedro, quando foi prefeito na primeira vez, ele começou a construir ali o bairro Vista Alegre e logo já encheu de casa. Depois, ele construiu o bairro João de Barro, que amparou muitas família pobre aí. O bairro foi crescendo e hoje já tem vinte e oito mil habitantes, é o maior bairro da cidade. Então, essas duas pessoa deu uma evolução medonha aqui no bairro.

Antigamente, aqui tinha a família dos Barrero, dos Marquete, tinha o Zé Luiz, que era sargento do quartel, tinha a Dona Rosa tamém. Aqui tinha um sanatório. Ficava ali perto do Jardim Amazonas, na entrada do bairro. Internava bastante gente ali que tava com a cabeça fraca. Eu vi esse bairro crescer casa por casa, abrindo as rua. E olha que beleza de bairro que tá hoje!

Aqui não tinha supermercado, nem carçamento nas rua. Agora tá tudo asfartado. Antes era pura terra, puro brejo e nem carro subia aqui. Aí a Cemig entrou aqui na cidade e melhorou a luz, melhorou tudo, melhorou a água. E o povo acabou com a cisterna.”

Um bar, uma vida

“O meu primeiro bar foi o segundo bar do bairro e negociei lá doze ano. Ficava lá na esquina de baixo. Os frequentador do meu bar da rua Piranguinho era os mais antigo. Já morreu quase tudo. Depois, comprei este aqui. Era um butequinho pequenininho… Aí reformei ele. Este bar eu comprei do Sr. João Lino dos Reis [pai de Eunice Reis, coautora deste trabalho]. Ele tinha uma quitanda lá na Primavera, uma padaria pequena. Ele fazia umas rosquinha, fazia broa e trazia pra vender aqui.

Coitado do João Lino! Não teve sorte, os camarada roubaram muito ele. Daí ficou ruim pra ele continuar tocando aqui. Como ele já tinha uma boa freguesia lá na Primavera, ele resorveu vender aqui. Ele era trabaiador demais, ele fazia as quitanda dele lá e trazia todo dia na charrete. Era um homem bom demais, carmo, uma beleza! Quando ele não vinha na charrete dele, vinha com o charreteiro Pé de Vento.

Quando eu comprei aqui, era um barzinho pequenininho. Aí eu aumentei ele e fiz a minha casa ali no fundo.

Aqui tem fama de ser violento e já teve uns crime por aqui memo, mas no meu bar, graças a Deus, nunca aconteceu nenhuma morte, mas teve bastante briga. Eu era muito respeitado e conseguia controlar as briga que tinha. Eu, toda a vida, gostei das coisa certinha. Hoje, nosso bairro tá muito bom, mas tem muito traficante, juntou muita gente estranha.

Eu moro no bairro já tem mais de quarenta e cinco ano e neste bar aqui já tem mais de trinta. Antes eu morava no centro da cidade, na rua da Faculdade de Direito, porque meus fio estudava e aqui no bairro não tinha escola. Então eu vinha trabaiá e vortava pra cidade. Depois perdi minha patroa e já vai pra mais de vinte e um ano e fiquei com os meus fio.

Fiz todos casar. Graças a Deus são todos muito bem casado, bem de vida. Meus fio mora tudo fora. Uma mora em São Paulo e é casada com doutor médico. Outro mora em Goiânia e é administrador de empresa. Os outros mora aqui memo e todos fizeram faculdade. Só as duas mais nova que não quiseram estudar e foram trabaiá em loja.

Eu nunca quis morar com fio. Toda vida gostei de morar sozinho. Tive uma muié morando aqui comigo, mas agora tô sozinho, só eu e Deus. Hoje eu moro aqui na minha casinha, aqui no fundo do bar. Tenho uma moça que trabaia comigo, a Bernadete.

Em 2006, eu quase morri. Os ladrão me pegou. Tive três mês de cama, fiquei quase inutilizado. Eles invadiram minha casa cedo, na hora de abri o bar. Levei uma bordoada, me derrubaram, quase que eu fico defeituoso da escadera. Tomaram o dinheiro que eu tinha no borso, era quinhentos cruzeiro. Hoje, não posso ficar de pé muito tempo, começa a doer a escadera.

Depois disso, meus fio não queria que eu continuasse aqui, mas eu fui praticamente criado neste bairro. Então a gente gosta muito daqui, né? Já fui roubado quatro vez e todos os bar daqui já foram roubado. Hoje, tá tudo muito misturado, tem muita gente ruim. Antigamente, tinha muita gente boa. O homem tinha palavra, era mais sério. Hoje, não dá pra confiar em ninguém. Antes, o comércio vendia até com seis mês de prazo e ninguém dava o cano não, pagava direitinho. Eu perdi muito dinheiro aqui no bar, mas memo assim consegui criar e estudar meus fio tudo direitinho e tô tocando até hoje.

Eu fecho o bar às seis hora e no máximo às oito eu já tô dormindo. Não gosto de televisão, só ligo pra ver futebor.”

José Gonçalves de Assis, conhecido por Seu Zezito, 80 anos, morava no bairro São João, em Pouso Alegre, onde concedeu essa entrevista em agosto de 2011. Ele faleceu em 20 de abril de 2012.