Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Sinézio – Engajamento comunitário

“Eu nasci no bairro dos Afonsos, mas o povo fala Cava, né? Aqui chama Cava porque, quando nós era pequeno, a gente ia brincar no bananal do Antônio Domingo. Nós brincava de esconder num buraco lá e todo mundo falava ‘cava’. Aqui ficou sendo bairro da Cava depois que veio um missionário aqui e, na época, precisou dividir o bairro por setor.”

A morte da mãe

“Vivi muito ali do outro lado onde era a casa do meu pai. Tinha quatro irmãos mais velho que eu. Minha mãe faleceu (de parto) e fiquemo tudo pequeno.

Quando minha mãe morreu, nós morava ali perto da Volks. Meu pai vinha pra roça trabaiá e vortava pra casa na cidade. E nós ficava um pouco na cidade e um pouco na roça.

Eu estudava no Monsenhor José Paulino, fiquei lá até a quarta série. Aí minha mãe morreu e ficou difícil continuar o estudo. Ela tinha vontade que eu estudasse pra padre. Depois que ela morreu, eu e meus irmão viemos morar na roça com meu pai e fomo trabaiá na roça. Meu pai casou novamente e teve mais quatro filho.”

Infância na roça

“Naquele tempo de criança, tinha uma linha de ônibus, mas faiava muito. A gente, naquele tempo, falava ‘jardineira’.

A gente gostava de reunir os colega dia de domingo e nós ia pra casa da minha vó chupar laranja. A família era muito grande e minha vó ponhava nós pra limpá terreiro pra depois chupar laranja. Juntava na base de umas quinze ou vinte criança e era uma novidade aquilo, né?

Tinha as festa de São João e de Santo Antônio, mas a gente não ia não. Meus pais não levava nós, então a gente ficava mais em casa.

Meu pai fazia trolinho pra nós e a gente falava que era bicicleta e nós descia esses morro aí brincando. Era gostoso demais!”

O ofício herdado do pai

“Eu trabaiava mais com meu pai, no serviço de carpintaria. Ele fazia carro de boi, mas fazia serviço de roça também. A gente fazia manutenção das máquina de polvilho também. Depois ele morreu e eu continuei naquele serviço.

Uma vez, tinha uma máquina pra assentar lá no bairro do Cristal. nessa época, ele já tava muito doente, então ele me deu as coordenadas, explicou direitinho e eu consegui fazer o serviço. Mas meu coração corta até hoje, porque ele queria muito ver a máquina funcionando e não teve o gosto de ver.

Nós que fazia os equipamento das máquina, fazia roda d’água dos moinho de fubá. Fiz uma conta os roda dessa lá nos Afonsos, pro Gerardo Arvelino, pai do Hélio da Venda Verde. Fiz máquina de polvilho no Cantagalo, no Sertãozinho. Os carro de boi até hoje eu faço. Mas não faço muita coisa, minha idade não permite mais.”

Negócios com o polvilho

“Depois que meu pai morreu, passou um ano, eu casei. E ajudei a criar meus irmão do outro casamento do meu pai, porque eles era tudo pequeno ainda.

E, nessa época, eu montei uma fábrica de polvilho pra mim. Aqui nessas redondeza, a primeira fábrica de polvilho que teve foi do meu pai. Trabaiava na fábrica e ainda dava assistência pras outra. Minha fábrica durou oito anos. Produzi bastante. Teve uma vez que eu plantei nove alqueire de mandioca. Só que fazia a lavoura e na hora de vender o polvilho, não tinha aquele preço bom. Aí tinha que vender mais barato pra cumprir com o dever e andar certo. Quem quebra é só quem trabalha, quem é desonesto não quebra.

Eu fazia parte do Sindicato Rural e, pra transportar o polvilho de um lugar pra outro, tinha que tirar uma nota, porque a fiscalização ficava em cima da gente. Aí conversamo com o Senhor Julião Meyer, presidente do Sindicato, junto com o fiscal da época, e ele liberou pra cada um transportar até quinhentos sacos. A gente tirava uma nota na Coletoria como produtor rural, pra ficar mais em conta os impostos.

Vendi muito polvilho em Pouso Alegre e, com o tempo, passei a vender em São Paulo. Teve época que eu trabaiava com meu irmão de sociedade e era difícil vender o polvilho. nós saía na segunda-feira e ia de cidade em cidade, posando fora de casa pra ver se apurava algum dinheiro.

Teve um dia que eu vendi cem saco de polvilho em São Paulo. Dali em diante, Deus me ajudou e a gente fez uma freguesia boa por lá. Comprava polvilho aqui no Cantagalo e nos Afonsos e levava pra vender lá.

Era gostoso aquele serviço, mas um dia roubaram minha casa. Aí larguei mão de viajar.

Minha esposa também começou a ficar doente e resolvi ficar mais em casa.”

Construção da igreja

“Antigamente, as missa era ali na escolinha. Era o padre João Faria que vinha celebrar aqui pra nós. Uma vez, ele falou que era pra nós construir uma igreja aqui. O bairro era pequeno, mas já tava crescendo. Então construíram a igreja num terreno da minha cunhada e colocaram o nome de Igreja São José, pra atender um pedido meu, porque sempre fui devoto desse santo e o meu sítio chama São José também. Ele é padroeiro dos carpintero, e eu tenho um quadro dele na minha carpintaria, que foi minha sogra que me deu. Isso já tem 41 ano.

Na época da construção da igreja, meu irmão doou quatro milhero de tijolo; o Sinézio Lopes, um fazendero daqui, doou uma novilha; minha cunhada fez uns cartucho. E nós fizemo um bingo e conseguimo levantar um dinheiro pra construir a igreja. E eu fiquei muito contente.

Lá onde eles construíram a igreja, não tinha luz. Aí juntou eu, meu irmão Zé Rodrigues, o meu sobrinho Antônio Célio [proprietário do Supermercado Central] e fizemos um bingo pra consegui dinheiro pra puxar luz da fazenda do Sinézio Lopes até lá. nessa época, tinha os grupo de oração lá e eu que tomava conta e trazia muita gente pra fazer palestra aqui pra nós.”

A luta por melhoria coletiva

“Lutei muito por esse bairro aqui. Eu queria colocar luz aqui e nós fomo numas quatro reunião lá em Santa Rita e era muito caro colocar luz. Até que um dia, por intermédio do Senhor Luiz Vilhena, da Cemig [Centrais Elétricas de Minas Gerais], nós conseguimos.

Na época que não tinha luz, eu comprei um gerador contínuo. eu tocava minha máquina aqui na carpintaria com motor a óleo. então fiz uma ligação daqui da máquina até na minha casa e, quando nós trabaiava de noite, tinha luz na casa. Era um problema porque, às vezes, a gente tava assistindo televisão e a força acabava e então tinha que ligar a máquina de novo. Na época que saiu a televisão, nós fomo em Campinas e vimos aquele quadro lá, aquele aparelho. O povo dizia que nós ia vê a turma cantar as moda de viola tudo por ali. Nós duvidamo daquilo… e era a televisão.

Batalhei bastante pra escola daqui também. Eu era fiscal da escola. Ela era uma escolinha pequena e fartava classe. Nós conseguimo aumentar a escola e ela já foi fechada umas três vez. Nós batemo em cima pra não fechar mais. Fizemo reunião de bairro aqui e conseguimo levantar a escola novamente. A dona Jahel Torres ajudou muito nossa escola, mas depois a escola fechou de vez, porque diminuiu muito os aluno.

Nós lutamo muito pra ter uma linha de ônibus aqui também. Nós fazia reunião e abaixo-assinado pra consegui uma condução pra nós. eu agradeço muito o Rogério, dono da Viação Princesa do sul. Com o tempo, o bairro foi crescendo e foi aumentando os passageiro.

Essas terra que eu moro hoje, um pouco é herança e um pouco eu comprei. Era pra eu tá melhor de vida, mas com a crise e as dificuldade, acabei vendendo. Hoje, eu tenho dois alqueire, tinha doze. Mas, hoje, eu vivo mais tranquilo. Quando eu tinha mais, era muito corrido pra gente e não tinha muita ajuda do governo.

Hoje, o bairro tá muito bom, só falta um pouco de lazer, fazer um campo de futebol pras criança. Podia alguém doar um terreno aqui pra fazer uma praça de esporte pra todo mundo do bairro participar. Chega fim de semana, as pessoa tem que ter um lazer, né? Sempre gostei muito de futebol, nossa! Então acho que o esporte ia ser bom pra criançada daqui.”

Sinézio Rodrigues, 71 anos, mora no bairro da Cava, município de Pouso Alegre, onde concedeu essa entrevista em julho de 2011