Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Sô Paulino – Tino para o comércio herdado dos antepassados

“Meu avô tinha uma venda, depois foi empório até chegar a supermercado. Vivi neste meio desde pequeno. Quando comecei a trabalhar no comércio com meu pai, eu tinha 12 anos.”

Pé-de-meia em São Paulo

“Meu pai teve um problema no comércio por conta de um mau contador que fez uma besteira. A fiscalização deu uma multa muito grande e ele quebrou. Tivemos que sair de Cambuquira, recomeçar em outro lugar. De lá, nós mudamos para Caxambu, depois para Paraisópolis.

Lá, apareceu um negócio bom. A gente comprava galinha para vender em São Paulo.

Comprava umas duas mil, três mil… Tinha um quintal grande. Enchia o caminhão e ia vender em São Paulo. o negócio não deu muito certo. Foi aí que resolvemos ir para São Paulo. Foi no ano de 1955. Abri meu primeiro negócio – um empório.

Ficamos dez anos lá. Foi lá que nós firmamos. Meus pais e minha irmã foram morar comigo. Meu pai me ajudava. Foi lá que fiz meu pé-de-meia.”

Por que Pouso Alegre

“Meu pai e meus tios são daqui. Meu pai vinha muito aqui. Ele sempre falava que queria morar aqui. Ele comprou um terreno e construiu este predinho aqui. Eu morava ainda em São Paulo e mandava dinheiro para ele ir construindo. Depois que vim morar aqui, é que eu ampliei a casa e o comércio.

Aqui era tudo barranco. Tiramos 160 caminhões de terra. Desmanchamos a casa velha. A loja tem 47 anos. Entrei aqui em 1º de setembro de 1964.

Por falar em 1964, está fazendo falta a ditadura militar. Não tinha bandidagem, esta sem-vergonhice que tem hoje. Tinha que andar na linha. Uma maravilha!”

“Dá-se barro para pedreiro. Oferta do Prefeito Machado”

“Quando vim morar aqui, era tudo de terra, tinha só umas seis casas. Fazia uma poeira aqui dentro. Passava apertado pra limpar as mercadorias.

O prefeito era o Machado – aquele da Mina do Machado [Cândido Garcia Machado, que governou Pouso Alegre de 1963 a 1967]. Ele mandou passar a máquina e aí veio a chuva e fez um barrão, que vou te contá! Carro atolava, nada passava.

Eu trabalhava com artigo escolar naquela época. Tinha uns quadros negros que vendia para os alunos. Peguei um quadro e escrevi assim: ‘Dá-se barro para pedreiros. Oferta do prefeito Machado’.

Passado dois dias, veio dois guardas da Prefeitura, pegaram os quadros e foram embora. Não me chamaram lá até hoje.”

“Comecei com uma coisinha de nada”

“Comecei vendendo armarinho. Foi bem devagarzinho… Depois, foi aumentando a freguesia e aí fui vendo que tipo de produto dava certo. Quando vendia armarinho, era assim: o freguês chegava e dizia: ‘quero ver agulha, elástico’. Perdia muito tempo com coisa pequena. Vendi muito brinquedo, um colosso. Depois, começou as lojas de R$1,99. Aí larguei mão.

Fui me adaptando. Hoje, vendo botas, panelas de ferro, ferramentas, forninho e outros produtos. Meu concorrente é só o Morato. Não tem nenhum outro.”

Família e perdas

“Casei em 1961. As gêmeas Fátima e Lourdes nasceram em São Paulo. Vieram para cá pequenininhas. Aqui, nasceram a Maria Alice e a Cristina. Vivi com minha esposa apenas nove anos, pois ela morreu de pancreatite hemorrágica. Ficou doente apenas dez horas. Não tinha remédio para combater esse mal.

Minha irmã levou a Cristina, que tinha apenas um ano e dois meses, para Brasília. Ela teve varizes no esôfago e no estômago e morreu com apenas 17 anos.

Eu fiquei com as três filhas mais velhas. Depois de dois anos que minha esposa tinha morrido, apareceu uma senhora, a Dona Benedita, que está com a gente há 42 anos. Hoje, ela está com 81anos. Foi ela que criou minhas filhas. Tadinha! É muito boa. Devo muita obrigação para ela. Minha mãe morreu nos braços dela. Cuidou também do meu pai.”

Pouso Alegre hoje

“O comércio aumentou muito, evoluiu muito. Aumentou muito a população, as fábricas. Vem muita gente morar para cá.

No tempo que cheguei aqui, era uma tranquilidade só. Podia deixar as portas abertas.

Agora, tá cheio de ladrão. Assalto até na rua, de dia… Hoje, não dá para confiar, tá um perigo. Rezo muito para afastar estes malandros, ladrões daqui.

Sou do tempo que o Aterrado tinha duas pontes. Pescava no Rio Sapucaí. Já pesquei dourado de 15 quilos. Parei de pescar, enjoei. Gostava de caçar, ficou proibido. À noite ainda sonho que estou caçando.

A vida aqui não foi difícil, tudo correu bem. Vou trabalhar enquanto eu puder. Dirigir enquanto eu puder. Este é o meu hobby. Gosto de passear de carro aos domingos. Vou para Lindoia, Serra negra, Alterosa… por aí.

Gosto muito do espiritismo. Leio o Evangelho, livros do Chico Xavier.”

Paulino José Soares Neto, conhecido por Sô Paulino, 82 anos, residia e trabalhava no mesmo prédio, na rua Silvestre Ferraz [rua da Cadeia], centro de Pouso Alegre, na ocasião da entrevista (setembro de 2011). Faleceu em 24 de maio de 2012