Vozes múltiplas, histórias singulares
Vozes do Século XX

Terezinha Cobra – Cozinheira e carnavalesca com muito orgulho

“Eu nasci na Rua do Correio, lá na Herculano Cobra. Meus pais ganharam este terreno dos meus avós. De lá, viemos pra cá, eu e meus quatro irmãos, quando eu tinha sete anos. Tive uma infância gostosa! Brincávamos de queimada, de pique. As mães punham cadeira lá fora e a gente ficava brincando perto delas. À tarde, ia para escola, estudava no Monsenhor José Paulino. Ia no catecismo no Santuário.

O bairro era poucas casas. Desta esquina para cá, tudo era pasto. A única casa que tinha era de meus avós. Depois, meus pais construíram aqui neste terreno. Era uma coisa feita de adobe e depois é que foi melhorando.”

Prendada e viajada

“Tenho muitas lembranças do tempo de escola. Depois, fui estudar na Escola Doméstica Santa Terezinha. Tive uma boa formação lá. A gente aprendia a cozinhar, costurar, cuidar das casas. Tive uma professora muito querida minha, que era filha do meu padrinho Dr. Miranda: é a Arlinda, mulher do Dr. Rômulo Coelho. De lá, eu ia pra casa do meu padrinho.

De lá, eu saí e fui trabalhar como doméstica com Dona Esmeralda, mãe do Geraldinho Cunha. Fui pajem dos três meninos: Everaldo, Elizete e Geraldinho. Trabalhei lá muito tempo. Saí de lá, fui trabalhar na casa do Dr. Lisboa, onde estive um tempão. Depois, fui trabalhar no Pouso Alegre Hotel, que hoje não tem mais. Trabalhei como garçonete uns cinco ou seis anos.

Na época, eu já era casada e precisava de um emprego que ganhasse mais e fui trabalhar no quartel. Foi um tenente que ficava hospedado no Hotel que me levou. Fiquei lá oito anos. Foi muito bom, o pessoal muito hospitaleiro. os soldados respeitavam a gente demais. Eles gostavam muito dos banquetes. Tinha muitas festas, aniversário do quartel, autoridade que ia lá… Eu chamava os soldados para me ajudar.

Depois, veio o Coronel Newton Cruz. Ele me levou para trabalhar como cozinheira na casa dele na Remonta. lá, eu conheci toda a família dele. A filha dele casou e me levou para trabalhar no Rio. Deixei meus quatro filhos aqui e fui para o Rio. Nessas alturas, eu já não estava com meu esposo. Tinha minha mãe que era doente. Minha filha, esta que hoje é dona do restaurante perto do Horto Florestal, ficou olhando meus pais e os irmãos dela. Lá no Rio, nasceu a neta do general; eu cuidei dela até os seis anos.

Eles queriam me levar para Brasília, mas minha mãe estava muito doente e vim embora. Cheguei aqui, minha mãe faleceu. Comecei a servir marmitas. Foi assim que minha filha aprendeu a fazer comida.

Tinha muita amizade com o Dr. Coriolando Beraldo, que tinha sido candidato a prefeito de Pouso Alegre. Ele perdeu a eleição, mas foi convidado para chefiar a Cemig [Centrais Elétricas de Minas Gerais] em Belo Horizonte. E ele me levou pra lá, pra trabalhar com ele. Ele ficou seis anos lá e eu também. Quando ele foi embora, eu não podia ir, pois minha filha que estava lá comigo estava estudando Enfermagem. Um dos diretores da Cemig me convidou para trabalhar na casa dele e fiquei lá.

De todos os lugares que morei, Belo Horizonte foi o mais importante.”

O avô Isidoro e o Clube 28

“Aprendi a cozinhar com meu avô, Isidoro da Silva Cobra. Ele era cozinheiro do quartel e, quando criança, eu ia lá com ele. Ele fazia uma carne, uma farofa, que não tinha jeito. Ele dizia: ‘das minhas netas, a única que irá ser cozinheira é a Terezinha’.

Eu aprendi um pouco de música com meu avô também, mas não toco nada hoje. Ele foi meu padrinho de casamento. Ele me ensinou a dançar também. A gente já nasce com o pé na dança.

Ele foi um dos fundadores do Clube 28. Era um clube fundado por negros para a classe negra. Também participaram da fundação o Senhor Cassemiro Luis de Abreu, que morava do lado do Mercado Municipal, e o Senhor Mirabeau, que era chofer do bispo Dom Otávio. Tinha música ao vivo. Meu avô tocava lá, meu pai também.

Não recordo muito coisa não, era muito pequena. Lembro que ia nas matinês dançantes e nos bailes com os meus pais. Lembro que eu tinha uns 14, 15 anos e a gente reunia, aqui em casa, para escolher a roupa, o sapato que a gente ia nas matinês.

Era de negro, mas ia uns branquinhos também, como os rapazes do Colégio São José, que gostavam de dançar com a gente. o Clube durou muitos anos.”

Escola de Samba da Tijuca

“O tempo passou… Aí a gente começou a mexer com escola de samba. Formamos a Escola de Samba da Tijuca. No fundo da minha casa, a gente reunia para discutir o carnaval. Começou ali na rua da Tijuca. Só tinha bloquinhos no início. Era só nós que ganhava, porque só tinha a nossa escola.

Aí começou a crescer. Primeiro, foi a Império do Mandu; depois, Alterosa, que era das Cruzes; depois, a Império do São João. Quase todos os elementos passaram por aqui. Rixa só na época do carnaval, mas são todos amigos.

Lembro de uma música da escola que se chama Jangadeiro, feita pelo Sinésio (já falecido). Não sei a data certa, sei que foi na década de 1970. É assim:

Ao lembrar o tema da nossa escola
De um passado de glória
Dos verdadeiros heróis.
Jangadeiro, jangadeiro!
Para os muitos que quisestes
Na Abolição da Escravatura
Procurastes unir a gente
Para a libertação.
Oh! Pouso Alegre
Caminho de Fernão Dias
Grande cidade serás.
Amigo de Minas Gerais…

O pessoal das cidades vizinhas chamava a gente para desfilar. Era muito bom. Inventávamos viagem para a praia. Tinha uma amiga de São Paulo que mexia com carnaval lá, e ela sempre dava alguma coisa pra gente melhorar a fantasia. Era assim que a gente tocava a Tijuca. Quem escolheu o nome foi a Fátima, que mora na Tijuca. Eu escolhi as cores, que são o vermelho e o branco. Cada um dava o seu parecer.

Lembro a primeira vez que a escola foi para a rua. Era muito divertido. os batuqueiros de shorts brancos, tênis brancos e camisetas vermelhas. Cada um fazia sua fantasia para os três dias. Foram anos de glória.

Lembro quando a gente desfilava. não tinha pra ninguém. Quando anunciava a Tijuca, levantava a arquibancada.

Desempenhei várias funções na escola, entre elas, a de presidente. Faz tempo que saí da escola. Cansei.”

Discriminação

“Discriminada pela minha cor? Sim, já fui, quando estudava datilografia na época que trabalhava no Pouso Alegre Hotel. A falecida Dona Eurípedes Carvalho Coutinho era minha professora de datilografia. Ela me chamava para ir com ela ao Clube Literário nos domingos ensinar os outros a dançar. Eu era um pé de valsa.

Naquela época, não entrava negro lá de jeito nenhum. Quando chegou o dia da formatura, tinha baile. Dona Eurípedes falou: ‘se arruma que você vai também!’ Quando cheguei na porta, me brecaram. Foram lá chamar a Dona Eurípedes e ela falou: ‘ela vai entrar, ela é minha aluna’. Aí puseram eu para dentro.

Naquele dia, fiquei arrasada. Não queria mais ficar lá. O porteiro falou: ‘onde já se viu esta negra entrar aqui!’. Esta parte eu não esqueço. Ficava com raiva, com tristeza, quando passava perto do Literário. na casa dos meus patrões, fui muito bem recebida, nunca fui discriminada.”

De bem com a vida

“Tenho quatro filhos. São três moças e um rapaz. Tenho dez netos e onze bisnetos. o bisneto mais velho tem 16 anos e já está namorando. Daqui a pouco, já sou tataravó.

O maior sonho meu era arrumar esta casa e eu consegui. Não é chique, mas é arrumada do jeito que eu quis.

Sou feliz. Sou muito amada pelos meus filhos, pelos amigos. não tenho nenhuma discordância da vida.”

Terezinha Cobra Batista, 77 anos, reside no bairro da Tijuca, em Pouso Alegre, onde concedeu essa entrevista em outubro de 2011